Pena de morte

Por muito que a direção do partido se empenhasse na candidatura de Ana Gomes, não conseguiria convencer o eleitorado do PS de que o representa e que seria melhor votar nela do que na permanência do atual Presidente da República.

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LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO

Pedro Nuno Santos é um dos bons políticos do Partido Socialista e tem legítimas pretensões futuras. Sendo expectável que esse partido continue a desempenhar regularmente funções governativas, o seu pensamento interessa a todos e não apenas aos adeptos do Partido Socialista. O artigo que escreveu há dias no Público, embora direcionado para dentro do PS e mais especificamente ao seu líder, António Costa, merece debate.

Pedro Nuno Santos (PNS) comunica-nos que se fosse líder do PS, teria convidado um candidato presidencial que representasse as ideias do PS. Tenho a certeza que teria dificuldade em encontrar uma figura com a estatura de Mário Soares ou Manuel Alegre que, não obstante nada terem a provar ou a ambicionar em termos de projeção política, se predispusessem a ficar em segundo lugar e a simplesmente tratar de derrotar o candidato populista da direita.

PNS seria forçado a apoiar Ana Gomes, seguramente disponível a avançar por puro interesse e agenda pessoal, para fazer essa lamentável figura. Esbarraria, como esbarrou, contra um facto simples: Ana Gomes notabilizou-se por ataques ao Partido Socialista e a pessoas do Partido Socialista. Por muito que a direção do partido se empenhasse na sua candidatura, não conseguiria convencer o eleitorado do PS de que o representa e que seria melhor votar nela do que na permanência do atual Presidente da República. Estaria, portanto, irremediavelmente destinada a canibalizar os votos potenciais de Marisa Matias e a entrar pouco no eleitorado PS. E podíamos assistir a um desenlace inconcebível dessa política suicida: na noite das eleições, privada de muitos votos daqueles potenciais votantes de Marisa Matias que nunca votariam em alguém oficialmente apoiado pelo PS, a candidata acabaria a lutar até à meia noite por um renhido segundo lugar com uma personalidade que demasiadas vezes parece aspirar a ser Salazar numa versão Sacha Baron Cohen.

Não acredito que PNS lesse isso como uma vibrante vitória da sua liderança.

Mas PNS parte do caso julgado das presidenciais para um argumento mais de fundo: o do perigo da deriva centrista do PS, acentuada pela cedência da direção à óbvia e insuperável vontade dos eleitores do PS de votarem como votaram. Essa deriva teria como possível resultado que a opção da política deixe de ser entre esquerda e direita e passe a ser entre sistema e antissistema.

O exemplo que escolhe é o de França. Só posso entender essa escolha por não ter encontrado nenhum outro exemplo melhor. Sucede, porém, que esse é péssimo. Macron, ex-ministro de um governo socialista, ganhou as eleições em França porque a maioria do eleitorado socialista se persuadiu que ele satisfaria melhor as suas expetativas e combatia mais eficazmente a ameaça da direita populista eurocética e xenófoba do que o Partido Socialista francês. Defender que o Partido Socialista foi eclipsado por um político centrista por ter descaído, ele próprio, para o centro, é absurdo. Como absurda é, aliás, a insinuação de que foi Mitterrand, artífice da entrada dos comunistas no governo francês em 1981 e promotor da introdução do sistema eleitoral proporcional há trinta e cinco anos, o responsável remoto pela atual pujança de Marine Le Pen.

A propensão para imputar a socialistas e social-democratas europeus responsabilidades pela ascensão de populismos de direita não é nova. Francisco Louçã argumentou-a discretamente há uns tempos. A alegação tem, todavia, o mesmo valor facial que a acusação de que os responsáveis pelo sucesso do Bloco de Esquerda são os partidos da direita e do centro-direita.

A responsabilidade pela ascensão dos partidos populistas, de esquerda e de direita, cabe à democracia. São os mecanismos da democracia que o permitem. Em quase todas as democracias avançadas há partidos populistas, com maior ou menor sucesso. Alguns existem há bastante tempo, apesar de só agora se dar por eles. Nos EUA o primeiro partido populista data de final do século XIX. Trump é apenas o último modelo, talvez mais burlesco do que os que o antecederam, de uma longa linhagem de populistas gerada pela democracia americana. A Frente Nacional francesa foi fundada por Jean Marie Le Pen em 1972. O Partido da Liberdade (FPÖ) austríaco, outrora liderado Jörg Haider, foi fundado em 1956. Noutros países, como a Holanda, há décadas que vão nascendo e caducando partidos populistas. E assim continuará a ser nas democracias plenas.

Compreender que o populismo é produto – indesejável, malformado, pérfido – da democracia e não de pretensos erros do “socialismo democrático”, do “centrismo”, da “moderação”, é o primeiro passo para o neutralizar.

O populismo enfrenta-se com as (boas) armas da democracia.

Uma delas é o debate político arguto e corajoso, que só se faz com bons políticos, como António Costa, Pedro Nuno Santos, Pedro Passos Coelho, Rui Rio ou Jerónimo de Sousa. Por isso, subscrever timoratamente uma estratégia de desvalorização e de condicionamento dos políticos é o pior atentado que se pode fazer à democracia e é o melhor adubo dos populistas. Talvez aqueles que se apressam a ceder, sem discussão séria, ao clamor de que os políticos não devem estar entre os primeiros grupos a ser vacinados ou de que as pessoas que cometem o delito de ser vacinados fora da lista de prioridades devem ir vários anos para a cadeia (já agora, por que não a pena de morte?) pudessem pensar um pouco nisso.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico