Covid-19: reforço do confinamento reduziu contágio em 40% numa semana

Encerramento das escolas, que levou a menor mobilidade, e as medidas mais restritivas impostas pelo Governo ajudaram a uma queda mais rápida da taxa de transmissibilidade, mostram estimativas do projecto Covid19 Insights.

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Rui Gaudencio

O encerramento das escolas, e consequente diminuição da mobilidade, e as medidas mais restritivas impostas pelo Governo a partir de meados de Janeiro ajudaram a uma queda mais rápida da taxa de transmissibilidade do vírus SARS-CoV-2, tornando o efeito do confinamento actual muito próximo do efeito conseguido com o confinamento feito em Março e Abril do ano passado. No período de uma semana foi possível reduzir a transmissibilidade do vírus entre 35% e 40%. Ainda é cedo para menos restrições, mas este maior cumprimento das medidas começa a revelar algum impacto sobre os números da covid-19. Contudo, os internamentos e óbitos mantêm-se altos.

“Para avaliarmos um confinamento o que importa é medir o seu efeito. A eficácia de um confinamento vê-se pela queda da taxa de transmissibilidade. Esta taxa é o produto de dois elementos: taxa de contacto – sobretudo representada pela mobilidade e a probabilidade de transmissão – representada pelas características do vírus e pelas barreiras de protecção que usamos”, explica ao PÚBLICO Pedro Simões Coelho, coordenador do projecto Covid19 Insights, uma iniciativa da Nova IMS e da Cotec.

Para medir o efeito do actual confinamento a referência foi a média da velocidade da queda de transmissibilidade do vírus em Março e Abril do ano passado. “Estimamos que no princípio deste confinamento que essa redução da transmissibilidade do vírus se fez a uma velocidade que seria 30% da velocidade da que se fez em Março e Abril, ou seja, estava a 30% do efeito conseguido no primeiro confinamento”, diz o especialista, referindo-se a um período que vai desde a segunda semana Janeiro até ao fecho das escolas. A partir dessa data, “começou e tem vindo progressivamente a intensificar-se esse efeito e à data estimamos que o efeito deste confinamento seja cerca de 90% do de Março/Abril”.

O que mudou para se chegar a este resultado, ainda que desde o início de Janeiro já houvesse alguma redução da mobilidade que as pessoas assumiram, antecipando o confinamento decretado pelo Governo? “Até dia 17 de Janeiro a presença em locais de trabalho era ainda muito forte. Já havia alguma queda face ao nível de referência – média da mobilidade de Janeiro e Fevereiro de 2020, quando ainda não havia pandemia de -11% a -26%, mas agora a quebra vai em mais de 40%”, começa por explicar.

“A partir da semana em que se reforçaram as medidas do estado de emergência houve maior queda na presença nos locais de trabalho, na utilização dos transportes públicos, nas idas a zonas de retalho e restauração. As escolas arrastam consigo muita mobilidade. Só a partir daí passámos de facto de uma redução da taxa de transmissibilidade de 30% a 40% para uma situação em que a queda é quase igual à verificada em Março. É raro termos uma situação em que se vê uma causa-efeito tão imediata”, diz.

Para se perceber melhor o efeito, os especialistas fizeram uma comparação da queda da taxa de transmissibilidade do vírus entre o meio da semana que começou a 11 de Janeiro e terminou a 15 e o meio da semana que começou a 25 e terminou a 29 de Janeiro. “A alteração das medidas de confinamento, nomeadamente as associadas ao encerramento das actividades escolares presenciais e a consequente redução de mobilidade, terá contribuído para uma diminuição da taxa de transmissibilidade do vírus em 35% a 40% no período de uma semana.”

Pico da prevalência está próximo

É esta alteração que permite agora ter estimativas mais favoráveis do que as apuradas há duas semanas. Assim, o pico da prevalência deverá acontecer por estes dias, com cerca de 182 mil casos activos. Este valor deve descer para 160 mil a 7 Fevereiro. Também para esse dia os cenários apontam para a existência de 5900 pessoas com covid internadas, das quais 825 em unidades de cuidados intensivos. O máximo de internamentos terá sido atingido no dia 1 e é provável que o máximo em cuidados intensivos aconteça até ao final da semana. Quanto a óbitos, o máximo terá sido atingido a 30 de Janeiro, com cerca de 300 mortes por dia.

Mas o país ainda está longe de respirar de alívio, embora o Rt (risco de transmissão) esteja ligeiramente abaixo de 1. De acordo com as estimativas, este só deverá descer abaixo de 0,8 na segunda metade deste mês e será por essa altura que se deverá atingir a barreira de segurança dos 5000 novos casos diários. “O valor de 50 novos casos por 100 mil habitantes tem sido utilizado por muitos como uma barreira abaixo da qual é possível ter uma adequada rastreabilidade dos casos e fazer uma identificação das cadeias de transmissão. E, consequentemente, temos de fazer isso o mais rapidamente possível”, defende Pedro Simões Coelho.

O especialista, também presidente do conselho científico da Nova IMS, salienta que o número estimado de internamentos, sobretudo em cuidados intensivos, mostram como o Serviço Nacional de Saúde (SNS) está próximo da sua capacidade máxima, já que, se se usassem os mesmos critérios de fases anteriores da pandemia, as estimativas apontariam para números superiores de doentes internados em cerca de 200% nos cuidados intensivos.

“Essa é uma das razões porque o confinamento precisa de ser continuado desta forma severa por algum tempo. É imprescindível manter ou intensificar [a queda da transmissibilidade] por mais algum tempo para evitar esta situação de ruptura e tentar com que este excesso de mortalidade não continue”, reforça. Refere que, se houver capacidade de controlo de cadeias de transmissão e números mais baixos, será possível desconfinar progressivamente – mas sempre avaliando esse impacto para que se possa travar um novo crescimento de contágios.