Provocar o medo e manipular a palavra, gestos de ontem e de hoje

Embrionárias, certas ideologias poderão repentinamente instalar-se, se ingenuamente continuarmos a esquecer erros históricos que nos conduziram de forma repetida à tragédia.

É tão fácil instigar as pessoas ao ódio!
David Grossman [1]

A Cultura foi sempre temida pelos poderes repressivos precisamente porque não há opressor que, no seu dominante egocentrismo, aceite que os outros pensem livremente e daí a violência na sua domesticação em massa, desde tenra idade, o que aliena, ou a imposição do medo e do terror que podem paralisar e silenciar. Um medo patológico, vivido de contínuo e sem tréguas, e que não permite o mínimo de tranquilidade na vida, nada tendo a ver com o medo enquanto instinto ou sentimento ditado por um alerta ocasional que suscita naturalmente um gesto momentâneo de auto-protecção. É por isso que os exemplos de resistência a qualquer regime despótico são iluminadores pela força interior que em nós desperta e que forçosamente se alia à necessidade de reflectir, necessidade essa que confere significado à Vida.

Recuando ao século XVI, convido os leitores a ler um pequeno extracto de uma carta escrita por Gerónimo Lopez, conquistador espanhol, ao imperador Carlos V, no ano de 1541, a propósito da sua visita ao colégio franciscano de Santa Cruz de Tlatelolco (México), frequentado por crianças e jovens, autóctones e de elite: “É bom que eles aprendam o catecismo, mas saber ler e escrever é tão perigoso como aproximarmo-nos do diabo”. É isso mesmo! E nós, em Portugal, conhecemo-lo! A cultura e a educação são perigosas na óptica de quem gosta de reprimir porque sabe que quanto mais ignorantes forem as pessoas, mais fáceis serão de conduzir. Por isso, com sabedoria, defendia Amílcar Cabral (1924-1973), fundador do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC, 1955), que guineenses e cabo-verdianos deveriam aprender a falar e a escrever bem o português, a língua do colonizador, relevando “Eu estou aqui falando português, como qualquer outro português, e infelizmente melhor do que centenas de milhares de portugueses que o Estado português tem deixado na ignorância e na miséria.”[2]

Na sua “rotina de violência e ódio”, todo o déspota olha as elites como inimigos a abater e distorce conscientemente a realidade em discursos, gritados e agitados, que apontando bodes expiatórios excitam as massas. A História, longínqua e próxima, tem-no demonstrado invariavelmente em perseguições, massacres, assassínios, censura, frondosas fogueiras com livros banidos. Reprimir e massacrar são, na verdade, verbos que intimamente se associam. No auge da questão, o acto de pensar e de agir em consequência.

A mentira é também apanágio dos regimes repressivos, se bem que, pela eficácia dos objectivos, o contágio se evidencie igualmente em regimes democráticos, enferrujados pela ausência de reflexão e de humildade face a erros cometidos. E chamo de novo a vossa atenção para mais uma figura do século anteriormente referido, contemporânea de Gerónimo Lopez, que esteve igualmente junto dos aztecas (México), só que em pólo oposto: o missionário espanhol Bartolomé de Las Casas (1484-1566), perseguido também ele por poderosos colonos espanhóis e cujas obras foram censuradas, com realce para a sua Brevísima relación de la destrucción de las Indias onde denuncia os massacres de que foram alvo os “índios” por acção dos conquistadores espanhóis. É ele que revela: “Quando os espanhóis perguntavam aos índios (isto aconteceu, não só uma, mas muitas vezes) se eles eram cristãos, o índio respondia: ‘Sou, sim senhor, sou um pouco cristão porque já sei mentir um pouco; um dia saberei mentir muito e então serei muito cristão’.”

Provocar um medo insano e manipular a palavra, ou seja, mentir, são gestos de ontem e de hoje porque o Homem não é muito diferente de geografia para geografia e repete-se na aplicação de estratégias, já conhecidas na sua eficácia, que lhe garantam o poder e o domínio sobre os outros. Daí a imperiosa necessidade de pensar e de estar continuamente em estado de alerta, não minimizando ideologias, “ciosas de moralidade” e de ungidos, que, juntando nacionalismo e frustração, apostam irracionalmente na violência contra minorias ou contra quem a ela se oponha. Embrionárias, poderão repentinamente instalar-se, se ingenuamente continuarmos a esquecer erros históricos que nos conduziram de forma repetida à tragédia.

Que se juntem “todos aqueles que aspiram a um futuro humano e não ao apocalipse; os que aspiram ao espírito e não à barbárie […] os que aspiram à razão” e “não à brutalidade histérica e ao anti-humanismo.”[3]

Se não agora, quando?, lembrando Primo Levi.


[1] Entrevista de Juan Cruz ao escritor israelita David Grossman, in El País Semanal de 23 de Janeiro de 2021

[2] Tomás Medeiros, A verdadeira morte de Amílcar Cabral. Edição Althum.com, Out. 2012

[3] Klaus Mann, Contra a Barbárie, Um alerta para os nossos dias (1924-1933). Lisboa, Gradiva Breve, 2017.