Novo confinamento: e os universitários?

A minha questão é: não me é permitido ir ao cabeleireiro, mas é-me permitido ir para a universidade fazer avaliações, estando em contacto com, pelo menos, 70 pessoas todos os dias porquê?

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Miguel Manso

Sou estudante do ensino superior, estudo na Universidade de Évora. Adoro o espírito académico de Évora, a forma como nos faz sentir integrados e de como a cidade é bela. Quem estuda ou estudou em Évora sabe do que falo.

Ser estudante universitário não significa só estudar, praticamente dia e noite, para depois fazer frequências e exames que de acessíveis não têm nada. Ser estudante universitário significa usar o traje e representarmos a nossa universidade, o nosso curso, a nossa turma e, acima de tudo, representarmo-nos a nós próprios. Ser estudante universitário vai muito mais além de estudar.

Há dias em que me arrependo e me pergunto o que estava a pensar quando concorri para o ensino superior. A verdade é que ninguém nos prepara para o nível de dificuldade com que nos deparamos, nem para a quantidade de horas de estudo que nos são exigidas, e muito menos para as horas de sono que perdemos.

A covid-19 veio alterar toda a rotina de um universitário. Quando em Dezembro de 2019 se começou a falar de um vírus em Wuhan, nunca pensámos que chegaria a Portugal e, muito menos, da forma como chegou e da forma de como não vai embora. A covid-19 apareceu e nós, de certa forma, ignorámos, continuámos a fazer festas, continuámos a ir a festas, veio o Natal em família e a passagem de ano com os amigos. Em Fevereiro de 2020, voltámos para o segundo semestre e a 14 de Março mandaram-nos para casa para ficarmos em confinamento.

As universidades tiveram que se adaptar, os professores tiveram que se adaptar e nós tivemos que nos adaptar. A verdade é que ainda nem passou um ano desde o nosso primeiro confinamento nacional e hoje já estamos no primeiro dia de outro confinamento. O que estarão os portugueses a fazer de errado? Quando acabou o primeiro confinamento, muita gente pensou que era o fim da covid-19. Estamos em Janeiro de 2021, a covid-19 ainda cá está e continuamos a ignorá-la. Mas bem, em que lugar ficam os universitários e as universidades portuguesas no meio disto tudo?

A meu ver, a adaptação à nova forma de ensino no ano passado foi rápida e até foi feita com sucesso. Os professores foram compreensivos e tentaram não nos sobrecarregar o melhor que conseguiram. E, por isso, estamos-lhes gratos. Porém, em Outubro, um novo ano lectivo começou e parece que as universidades, os professores e os universitários se esqueceram de tudo o que é essencial e dos nossos deveres como cidadãos portugueses numa altura em que estamos numa grave crise de saúde pública. 

Voltámos às aulas, com horários diferentes, tentando conjugar o regime presencial e online, porém esta conjugação não correu bem. Parece que os professores não entendem que o facto de termos aulas também online não significa que tenhamos mais tempo e, por isso, sobrecarregam-nos com matéria leccionada nas aulas, mais trabalho complementar. “Tomem lá também umas fichas de trabalho para fazerem de uma semana para a outra porque aquelas 500 páginas de matéria ainda não são suficientes!” Ah, e de cinco disciplinas.

Poucos são os professores que tentam compreender a nossa situação de medo, de insegurança, de falta de tempo. Tentamos pedir ajuda, mas esta é-nos negada. Ninguém nos ouve, ninguém nos ajuda, mas todos nos ignoram.

Na Universidade de Évora, antes do início das aulas em Outubro, a reitora informou a comunidade escolar de que a universidade se iria responsabilizar pela higienização das salas de aulas. Três semanas mais tarde, eu própria vi as funcionárias apenas a limparem a mesa e cadeira onde os professores se sentam. Então e os alunos?

Foi-nos dito também que a lotação das salas nunca pode estar completa, mas depois chegam as avaliações e nem uma mosca caberia na sala de aula. Temos professores que se preocupam bastante com a nossa segurança e com a sua, e dão-nos a hipótese de realizarmos as frequências online. E depois temos outros que adiam e adiam as frequências para que tenhamos de as fazer obrigatoriamente de forma presencial. O que nos parece é que a preocupação de muitos professores não é a segurança de ninguém, mas só a preocupação de quem copia.

E agora entrámos em novo confinamento nacional, onde as medidas, algumas, são diferentes das do primeiro confinamento, sendo uma delas a aplicada ao ensino. Temo-nos deparado com 10 mil casos diários de infecções por covid-19 nas últimas semanas, surgem também novas estirpes, tendo uma delas uma alta taxa de infecção para a população jovem — ou seja, os universitários.

Devo dizer que não compreendo de forma alguma como foi feita a decisão de não suspender o regime presencial nas universidades. As universidades implicam uma alta mobilidade entre concelhos, obriga a que os estudantes tenham que apanhar variados transportes públicos e, portanto, estar em contacto com um alto número de pessoas — e tudo isto antes de chegarem à universidade! Estando já na cidade onde estudamos, partilhamos casa com outras pessoas; há colegas a viver em residências, logo partilham quarto com outras pessoas.

Já dentro da universidade, a frequência de pessoas não nos permite absolutamente distância física nenhuma. As pessoas retiram a máscara dentro do perímetro universitário, ora para fumar, para comer e para falar uns com os outros — ah, e para selfies. Já para não falar das festas que acontecem assim que as aulas e as frequências acabam!

A minha questão é: não me é permitido ir ao cabeleireiro cortar o cabelo, mas é-me permitido ir para a universidade fazer avaliações, estando em contacto com, pelo menos, 70 pessoas todos os dias porquê? As universidades conseguem ter uma autonomia que o ciclo ou o secundário não conseguem. Os cursos teóricos não têm nada que não os permita realizar as avaliações online, somente o medo dos professores que os alunos copiem.

Queremos segurança para podermos estudar, para podermos fazer a nossa licenciatura. Não queremos ficar infectados com covid-19. Queremos ser ouvidos e não ignorados. Queremos que tenham em conta a nossa opinião.