Os investimentos pós-pandemia, o interesse público e o desafio das missões

A amplitude e complexidade dos desafios globais que enfrentamos é enorme, impondo abordagens sistémicas, colaborativas e inovadoras.

Encaramos hoje o futuro com mais otimismo: temos disponíveis vacinas que ajudarão a pôr termo à pandemia; confiamos mais na ciência para a resolução dos problemas que nos afetam; e, no plano da cooperação global, há um ambiente de esperança animado pela nova presidência norte-americana. No entanto, apesar da expressão brutal da pandemia e da evidência das suas causas, permanece a dúvida sobre o real potencial transformador desta crise sanitária, sendo pouco plausível uma efetiva mudança de orientação das políticas e do sistema económico global. 

Mas a mudança impõe-se e esta perceção foi reforçada pelos efeitos de um ano também pródigo em notícias climáticas dramáticas: onda de calor prolongada na Sibéria, nuvens de fumo recorde na Austrália na sequência de grandes incêndios florestais, as maiores tempestades tropicais alguma vez registadas no Atlântico, incêndios arrasadores no Pantanal do Brasil, as maiores enchentes verificadas em África, ciclones e tufões devastadores na Índia, Filipinas e Indonésia, o verão mais quente da história do hemisfério norte, e os registos de temperatura na Antártida e no Ártico. Por outro lado, a relação entre as crises mundiais é óbvia. Epidemiologistas e conservacionistas sustentam que serão cada vez mais prováveis os surtos de doenças como a que vivemos, resultantes da desflorestação, do aquecimento global, da degradação dos ecossistemas naturais – a destruição de habitats, a agricultura intensiva e perda da vida selvagem estão na origem das novas pandemias.

A amplitude e complexidade dos desafios globais que enfrentamos é enorme, impondo abordagens sistémicas, colaborativas e inovadoras. Num artigo publicado recentemente no Financial Times, a conhecida economista Mariana Mazzucato escrevia que a pandemia tornou mais evidente um sistema económico estruturalmente imperfeito, em que os empregos não protegem os trabalhadores em dificuldade e a desigualdade é cada vez maior, forçando ao endividamento para responder a necessidades básicas. Um sistema absurdo e transigente, que permite que os ricos fiquem cada vez mais ricos e ignora as alterações climáticas e o seu impacto sobre a vida no planeta. Mariana Mazzucato foi muito crítica da abordagem europeia à crise financeira, contestando em particular os apoios concedidos pelos governos às empresas sem condicionantes capazes de garantir a salvaguarda do interesse público.

Mazzucato desafia-nos a repensar o papel do Estado na economia e na sociedade e, acima de tudo, a recuperar o sentido do interesse público – uma economia de missão, capaz de responder aos grandes desafios globais. O aquecimento global, a poluição, a demência ou a obesidade são problemas ambientais, sociais e de saúde, cuja complexidade obriga ao desenho de soluções igualmente complexas, pelo que é indispensável mobilizar recursos de uma forma tão ousada e inspiradora quanto foi a missão Apollo, mas desta vez para responder aos problemas do nosso tempo. Para Mazzucato, importa reestruturar o capitalismo, tornando-o inclusivo, sustentável e impulsionado pela inovação que aborda os problemas concretos, da exclusão digital às pandemias de saúde. O propósito das missões, que hoje também inspiram a política científica europeia integrando o programa Horizonte Europa, pelo empenho e convicção do ex-comissário Carlos Moedas, significa uma profunda mudança das instituições e dos governos, criando novos modelos de governança corporativa, e garantindo que as empresas, a sociedade e o governo se unem para construir soluções em prol de objetivos comuns.

A mudança terá que passar por políticas orientadas para um crescimento menos desigual, verde e sustentável, em benefício de todos, e dando resposta aos grandes desafios societais. Para tal, os investimentos pós-pandemia, da chamada recuperação verde, devem ser suficientemente ambiciosos para cumprir as metas do acordo de Paris, mas devem também ser orientados por uma economia de missão e inspirados pela agenda para o desenvolvimento sustentável – a agenda 2030. Uma agenda política ambiciosa, capaz de impulsionar uma dinâmica transformadora do mundo e promotora da paz, erradicando a fome e a pobreza, reduzindo as desigualdades, e constituindo uma oportunidade para todas as comunidades e movimentos sociais.

A agenda 2030 convoca todas as instituições públicas e privadas, e a sociedade em geral, num plano de ação para as pessoas, para o planeta e em favor da prosperidade, identificando a erradicação da pobreza em todas as suas formas e dimensões como o maior desafio global e condição indispensável para o desenvolvimento sustentável. Uma agenda universal, ancorada nos direitos humanos e na intenção firme de não “deixar ninguém para trás”.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico