A estrada para longe do medo

Na espuma das notícias, não se tem encarado a questão fundamental: qual o real objectivo desta campanha de vacinação? Parece uma pergunta bem simples, mas não o é de todo. E ninguém ainda se comprometeu com um objectivo concreto nem o designou de forma explícita.

Desde o início da pandemia, a vacina foi a solução mais desejada, embora se soubesse que não era realizável no curto prazo. Menos de um ano depois, surpreende-nos a brevidade com que ela surgiu, uma vez que inicialmente era consensual que seriam necessários dois anos até se atingir a fase em que estamos hoje. Evidentemente, a rapidez com que esse objectivo foi alcançado é motivo de satisfação, sublinhando a capacidade da investigação científica moderna; e a ansiedade instalada na população fez receber de braços abertos a promessa de uma “cura” – embora não seja disso que se trata

Desde logo, surgiram algumas dúvidas sobre a prudência de um procedimento tão célere. Há muita coisa que ainda não se sabe; não se sabe por quanto tempo é obtida imunidade, qual a segurança e a eficácia em certos grupos etários, ou se existirão complicações a longo prazo. Naturalmente, não havendo tempo para uma avaliação completa, têm de se correr alguns riscos. Isso não nos deve perturbar: em tudo na vida, e particularmente na Medicina, existem riscos, que se avaliam e que se correm com tranquilidade. Trata-se apenas de perceber o risco e o benefício em cada caso, apesar de sabermos que ambos estão ainda mal determinados para esta doença. Mas os eventuais riscos não são o cerne da questão: o problema é mais profundo e obriga a uma visão mais abrangente, mostrando-nos duas questões prementes.

A primeira é a ausência de um objectivo concreto. Na espuma das notícias, realça-se a eficácia da vacina, destaca-se o número crescente de vacinados, frisa-se a necessidade de a alargar ao maior número possível de portugueses, mas não se tem encarado a questão fundamental: qual o real objectivo desta campanha de vacinação? Parece uma pergunta bem simples, mas não o é de todo. No meio médico e científico, as respostas são dúbias e díspares, citando-se vagamente a diminuição do número de casos (em que medida?), a protecção dos “grupos de risco” (dos quais fazem parte pessoas com um risco clínico baixíssimo), mas sobretudo o atingimento da célebre “imunidade de grupo” (assunto polémico sob diversos prismas). No entanto, ninguém se comprometeu com um objectivo concreto nem o designou de forma explícita. É apenas nítida uma forte esperança de que “vai correr tudo bem”. Dir-se-ia que a Fé é que nos salva – o que deveria ser insuficiente para a Ciência. Ironicamente, a vacinação vai coincidir com os meses de Inverno e, como se trata de uma doença com transmissão por via respiratória, a chegada da Primavera fará sempre parecer que a campanha vacinal foi um sucesso, independentemente do que possa vir a suceder no terreno, e para lá do seu aguardado efeito real.

Uma coisa é certa: o objectivo da vacina não é a erradicação da doença. Seria totalmente disparatado afirmá-lo, quer considerando as referidas incertezas acerca da vacina, quer porque a gravidade real da doença nem sequer impõe esse objectivo como premente. Mas a vacina transmite essa esperança de uma erradicação – uma ideia que não é expressa mas que o entusiasmo desmedido dos media e de muita gente permite fazer supor. Tem de ficar bem claro para todos nós: pelo menos no curto prazo, e talvez mesmo no longo prazo, não podemos ter a expectativa realista de que doença virá a desaparecer. A vacina ajudará a combatê-la, estou convicto disso, mas não é uma solução milagrosa: a permanência do covid é, tanto quanto sabemos hoje, uma certeza.

Assim, o primeiro e único objectivo actual da vacina é, de um modo ou de outro, diminuir a incidência da doença. Mas em quantos casos? O que será necessário para que se possa proclamar algum tipo de vitória? Sabemos bem, pela experiência do Verão passado, que 5 a 10 mortes por dia ainda eram consideradas uma tragédia e mantiveram o país semi-paralisado – apesar de ser público que a média diária habitual são 300 óbitos. Será muito difícil calar as vozes da tragédia, mesmo que se atinjam bons resultados. Esmagado pela descrição da catástrofe, o público, ou a comunicação social por ele (ou contra ele?), parece estar à espera do impossível: a erradicação total da covid. É por isso que se torna indispensável fixar um segundo objectivo: a mudança das mentalidades.

Na verdade, as noções de risco clínico, de morbilidade, de mortalidade, bem como a noção da inevitabilidade da morte, ou a da manutenção da calma perante o perigo, entre tantas outras, sendo todas elas facilmente entendíveis com um pouco de reflexão, não são ideias presentes na maioria da população. Lamentavelmente, esta pandemia demonstrou que não são sequer noções dominadas por boa parte da classe médica. Quando se bombardeia as pessoas com o espectáculo da doença e da morte, ao longo de quase um ano, ilude-se o essencial e, seguramente, não se está a servir a Ciência. É sabido que o discurso da tragédia vende notícias e capta audiências, podendo ser usada como arma de persuasão, mas os custos associados tornaram-se insuportáveis. Não podemos ocultar que, ao lado do problema sanitário (real, grave e preocupante), existe o problema social (que não é menos relevante, muito pelo contrário), bem como o problema socio-sanitário (a crescente desigualdade de acesso aos cuidados de saúde e a mortalidade não-covid). Não há caminhos fáceis, não há mortes melhores e mortes piores. Ao lado desta doença “física” (a covid), a nossa sociedade sofre de uma doença “psíquica” (o pânico). Não podemos ignorar que a aparente dualidade física/psíquica é uma só realidade. Não se cura uma sem a outra e, na verdade, não podemos continuar assim, numa vida que não é vida porque lhe falta a calma e a coragem de enfrentar e moldar o destino.

É essa a segunda questão premente – e igualmente negligenciada. A vacina poderá (e deverá) atenuar os números da covid, mas de nada servirá se cada pessoa continuar focada no seu próprio interesse, alheada da visão da sociedade. As imagens de pessoas a serem vacinadas, difundidas nas redes sociais e nos media, pretendem ser um apelo à vacinação em massa, mas não é difícil ver nelas a exaltação da presumida imunidade alcançada pelo próprio. Mas os “outros”, os não-vacinados, não são uma classe inferior ou com menos direitos, como já se ousa insinuar; a vida dos outros está ameaçada de mil outras formas e não se centra nem se esgota na imunidade a uma doença.

É tempo de reduzir a covid à sua exacta medida: um vírus que tem consequências indirectas que vão muito mais além do que a própria doença – e disso são testemunhas todos os que quiserem olhar à sua volta. Não se pode insistir na imagem salvadora da vacina e ao mesmo tempo dizer que tudo continuará igual. Não se pode ter médicos a exaltar as virtudes da vacina enquanto outros escrevem em público “nunca mais deixarei de usar máscara” ou “as máscaras devem ser obrigatórias nos hospitais para sempre”. Sabemos que os limites do bom senso foram há muito ultrapassados, mas temos de perceber o que alimenta essa espiral: o medo. É o medo que deve ser combatido. O discurso e as medidas do medo matam tanto ou mais do que o vírus.

Nestes tempos estranhos, recordo os Talking Heads, que cantavam “Estamos numa estrada para lado nenhum”. Não é verdade: nós estamos sempre a caminho de algum lado. A questão neste momento é que ninguém sabe para onde vamos; mas escolher a estrada ainda está nas nossas mãos.