Teerão vai voltar a enriquecer urânio a 20%, em novo golpe ao acordo nuclear

O Parlamento do Irão aprovou em Dezembro uma lei que determina o regresso aos níveis de enriquecimento de urânio anteriores ao acordo de 2015. Não se sabe quando é o que país tenciona iniciar esta actividade na central de Fordow.

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Hassan Rohani inspecciona instalações nucleares EPA

O Irão informou a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) que tenciona produzir urânio enriquecido a 20%, como fazia antes do histórico acordo sobre o programa nuclear do país, assinado em 2015.

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O Irão informou a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) que tenciona produzir urânio enriquecido a 20%, como fazia antes do histórico acordo sobre o programa nuclear do país, assinado em 2015.

Trata-se do último de uma série de anúncios de Teerão de planos para violar o acordo – as violações começaram em 2019, em retaliação pelo abandono, por parte do Presidente Donald Trump, do pacto assinado há cinco anos entre o Irão, Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido, China e Alemanha. Ao retirar os EUA do acordo, Trump reintroduziu ainda pesadas sanções económicas ao Irão.

De acordo com o comunicado da AIEA, Teerão diz que decidiu enriquecer urânio até 20% na Central de Enriquecimento de Fordow “para cumprir com uma lei aprovada recentemente pelo Parlamento do país”.

O acordo internacional não permitia qualquer enriquecimento de urânio em Fordow, um complexo subterrâneo, mas o local manteve as suas 1044 centrifugadoras IR-1, que entretanto já tinham retomado as suas actividades.

No fim de Novembro, em resposta ao assassínio do físico nuclear Mohsen Fakhrizadeh, atribuído a Israel, o Parlamento do Irão, dominado pelos conservadores, decidiu votar uma lei que determina o fim das inspecções da agência das Nações Unidas e a necessidade de produzir e armazenar “pelo menos 120 quilos de urânio enriquecido a 20% por ano”.

O Governo do Presidente Hassan Rohani disse estar em desacordo com a iniciativa mas o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif, deixou na altura um aviso aos outros signatários: “As ‘democracias’ não podem pedir ao Irão para violar a legislação parlamentar”.

O embaixador russo na AIEA, Mikhail Ulianov, confirmou a intenção iraniana no Twitter. “É mais um golpe” ao acordo, disse à agência AFP um diplomata sedeado em Viena.

O Irão já tinha violado o limite de pureza a que pode enriquecer urânio, 3,67%, estabelecido no acordo, mas ainda só chegou aos 4,5%, bem longe dos 20% anunciados e dos 90% a que tem que ser enriquecido para ter uma utilização militar.

Uma vez que os iranianos não disseram quando é que começarão as tentativas para chegar aos 20% de enriquecimento, os optimistas esperam que haja ainda tempo para que o novo Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, possa agir. Biden, que deseja salvar o acordo de 2015, toma posse a 20 de Janeiro.

A possibilidade contrária é Teerão acelerar as suas actividades de enriquecimento e a proibição de acesso aos inspectores, arriscando assim que o tema regresse ao Conselho de Segurança da ONU e diminuindo as perspectivas de um regresso ao texto de 2015.