No palco e no cinema o Circo de Natal do Coliseu é um “acto de resistência”

Até 3 de Janeiro cumpre-se em palco a tradição de quase oitenta anos. Até 6 de Janeiro o circo continua na grande tela, no âmbito de projecto-piloto que será replicado noutras salas e espectáculos.

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Uma personagem vestida com um fato cor-de-rosa e com cabelo pintado da mesma cor intromete-se no centro de uma acção protagonizada por um grupo de acrobatas vestidos de negro. A esquivar-se das manobras arriscadas feitas em altura e ao nível do chão, a mesma figura tenta encontrar um porto de abrigo até atingir um estado de segurança que o permita conviver com toda a turbulência da acção desenrolada à sua volta. Após alguma agitação consegue atingir esse objectivo. A calma é finalmente conquistada e dessa conquista ganha-se tempo para recuperar o fôlego. Mas mais surpresas estão ainda por chegar.      

Esta acção passa-se no palco do Coliseu do Porto, no cumprimento de uma tradição com quase 80 anos. Os seus protagonistas são Rui Paixão, o primeiro criador original português do Cirque du Soleil, e um grupo de Parkour, que este ano fazem parte de um leque de propostas composto por números de artistas nacionais. Numa fusão entre a tradição e a modernidade, em ano de pandemia, o Circo de Natal do Coliseu regressa ao palco para ser visto pelo público na sala portuense, mas também em todo o país na tela de 17 cinemas - em sala fica até dia 3 de Janeiro e em cinema até 6 de Janeiro.

Depois de um arranque feito com Parkour seguem-se mais de uma dezena de actuações 100% nacionais. Estão presentes as disciplinas tradicionais do circo convencional, mas este ano aposta-se também no novo circo. Continuam a fazer parte do alinhamento palhaços, malabaristas, ilusionistas, trapezistas, que desta vez se cruzam com alguns números de dança vertical ou na fusão com a modalidade de forças opostas.  

A ligar a hora e meia de espectáculo está uma banda sonora tocada ao vivo composta por Filipe Raposo, e  Rui Paixão em registo clown/mimo, no lugar de mestre de cerimónias. Substitui-se aqui o registo típico circense de apresentação dos artistas e dos números feito de microfone em punho e voz colocada por pequenas actuações de transição entre actos sem recurso às palavras. 

A personagem que encarna foi criada de raiz a pensar neste trabalho. Para isso, inspirou-se no segundo álbum da banda britânica Idles - Joy as an Act of Resistance. Traduzido à letra é o mote perfeito para o exercício de um projecto artístico em plena pandemia: Alegria como um acto de resistência. A cor do cabelo e do fato remetem para o vídeo clip de uma das músicas do grupo. Já o título do álbum reflecte o passo dado pelo Coliseu ao não querer quebrar uma tradição que nunca deixou de se cumprir. 

“Esta peça nunca poderia existir se não fosse um acto de resistência”, atira. Sem trabalho quase durante o ano todo tem nesta empreitada, que além dos 80 artistas conta ainda com mais 40 pessoas a trabalhar fora do palco, uma das poucas possibilidades de actuar. Com muitos artistas sem trabalho nesta fase, sublinha a precariedade do sector agora mais exposta: “A pandemia veio trazer ao de cima um problema que já existia antes. Veio fortalecer a ideia de que perante uma tragédia, de facto, a cultura não existe”.

Rui Paixão, catapultado para o Cirque du Soleil (agora em processo de insolvência) pela sua personagem Godot, remete para a companhia onde trabalhou para traçar o cenário cultural nacional. “Se o Cirque du Soleil, que até está cotado na bolsa, declara insolvência, como é que uma companhia ou estrutura com sede no Porto vai sobreviver?”, questiona.

Mónica Guerreiro, que substituiu Eduardo Paz Barroso como presidente do Coliseu, iniciou funções no início da pandemia. Estes meses de trabalho em condições limitadas deram-lhe já alguma experiência para gerir as expectativas do público. “Só anunciamos o circo 15 dias antes de acontecer, apesar de já estarmos a trabalhar há meses”, afirma. “Queríamos ter a certeza de que seria possível fazê-lo”, acrescenta, sublinhando as circunstâncias de imprevisibilidade que a alteração de medidas de contenção da pandemia acarreta.  

Circo na grande tela

A capacidade da sala está adaptada às regras impostas. Apenas 1150 dos 4 mil lugares sentados estão a ser ocupados. “Ao contrário do que acontece noutros espaços, aqui temos nalgumas situações mais do que uma cadeira de distância entre pessoas”, afirma, salientando que por este ser um espectáculo que chama muitas crianças existe a possibilidade de os agregados poderem ficar juntos, de forma a que os mais novos não fiquem sozinhos. 

Até 3 de Janeiro os horários vão sendo adaptados a novas directrizes, se assim for necessário. Mas a partir de 26 de Dezembro existirá outra forma de chegar ao público. Numa parceria com a NOS, o circo do Coliseu funcionará como projecto-piloto para uma iniciativa que se replicará por outros eventos. Até 6 de Junho, o espectáculo será projectado em cerca de vinte salas de cinema de Norte a Sul e ilhas. Da lista fazem parte Vila Real, Braga, Matosinhos, Maia, Gaia, Gondomar, Paços de Ferreira, Viseu, Coimbra, Figueira da Foz, Torres Vedras, Lisboa, Odivelas, Oeiras, Cascais, Montijo, Évora, Faro, Tavira e Funchal.

Esta será a primeira iniciativa de um projecto-piloto que tem como objetivo dinamizar o sector da Cultura. De acordo com o Coliseu, este evento inaugurará uma série de iniciativas que decorrerão em todo o país de form a “dar mais visibilidade a conteúdos culturais de qualidade produzidos e apresentados em Portugal, que, devido às restrições em vigor de circulação entre concelhos, recolhimento obrigatório e diminuição de lotação nas salas, não têm conseguido acolher o mesmo número de espectadores pré-pandemia”.