“O que custa tirar uma fotografia ao corpo?”

A norma da DGS estabelece que “não se deve promover ou aguardar o reconhecimento visual do corpo pelos familiares, sendo garantida a identidade pelos documentos de identificação do falecido

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Remoção de corpo de hospital Paulo Pimenta
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Remoção de corpo de hospital Paulo Pimenta

Há meses que Paulo Moniz Carreira, presidente da Associação Portuguesa dos Profissionais do Sector Funerário, alerta a Direcção-Geral da Saúde (DGS) para aquilo a que chama “o problema do reconhecimento dos cadáveres covid-19 nos hospitais”. Pede que se lhes tire uma fotografia para mostrar à família.

A norma da DGS estabelece que “não se deve promover ou aguardar o reconhecimento visual do corpo pelos familiares, sendo garantida a identidade pelos documentos de identificação do falecido”. Paulo Moniz Carreira está convencido de que isso não chega. “Nós sugerimos que a autoridade hospitalar tire uma fotografia ao falecido para a família poder reconhecer”, esclarece. “Não é nos BI ou nos cartões do cidadão que se consegue reconhecer quem quer que seja.”

Não existem indícios de contágio e infecção pela exposição aos corpos de pessoas que morreram com SARS-CoV-2.  O cadáver não tosse, não espirra. Não pode emitir gotículas ou produzir e aerossóis. Todavia, todos os profissionais da saúde ou das funerárias que mexem no corpo devem usar Equipamento de Protecção Individual. Quando os da funerária chegam, já o corpo foi colocado em duplo saco e o exterior todo desinfectado. Resta-lhes colocá-lo na urna, selá-la e transportá-la.

“A família não vê quem sai do hospital”, sublinha Paulo Moniz Correia. Tem de confiar que a funerária traz o corpo certo. E a funerária tem de confiar que o hospital lhe entregou o corpo certo. “Acho um risco enorme. Isto pode levar a erros lamentáveis”, prossegue. “Em período de covid, tem de se arranjar uma forma. O que custa tirar uma fotografia para a família ver, fazer o reconhecimento do corpo?”

Não é só o risco de troca. Na opinião deste dirigente associativo, há que “entender bem o que isto é: uma pessoa está internada nos cuidados intensivos dias ou semanas, não recebe visitas, morre, sai do hospital, vai para o crematório e a família nunca a viu”. “Isso é surreal”, exclama. “Está provadíssimo. As pessoas têm de ver para materializar o acontecimento. É uma obrigação nossa criar estas condições.”

Com maior ou menor dificuldade, pelo menos parte do sector reajustou-se para responder às exigências da pandemia. Veja-se o exemplo da empresa que dirige, a Servilusa. Passou a ter câmaras para captar as cerimónias fúnebres. E, segundo afirma, é grande a aceitação desta opção streaming, quer em rituais funerários de pessoas com covid-19, quer nos outros. E não é a única a oferecer esta hipótese de contornar a proibição e ajuntamentos e afastar os perigos de contágio.

Armazém Servilusa Paulo Pimenta
Funcionários a colocar caixão com cadáver covid-19 em carro funerário Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

Adicionaram um outro cuidado. Dois ou três dias depois do funeral costumam ligar à família a lembrar os apoios que existem, inclusive a Linha de Aconselhamento Psicológico no SNS24, fruto de um protocolo entre os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, a Ordem dos Psicólogos Portugueses e a Fundação Calouste Gulbenkian. “Temos um grupo de pessoas que teve uma formação em primeiros socorros psicológicos dada pela Cruz Vermelha. Uma destas pessoas telefona a dizer que entendemos que o funeral não foi como gostaria e que tem à disposição apoio psicológico.”