Covid-19: OMS pede reforço do uso de máscaras na rua e em casa

A Organização Mundial de Saúde actualizou as recomendações sobre a utilização de máscaras na comunidade, em casa e em ambientes de cuidados de saúde com casos de covid-19.

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A anterior actualização de recomendações da OMS sobre uso de máscara datava de 5 de Junho Nuno Ferreira Santos

A mais recente orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre o uso de máscaras, divulgada na terça-feira, no contexto da pandemia de covid-19, aconselha uma utilização (ainda) mais ampla de máscaras para todos e em todo o lado, mas com especial atenção para as unidades de saúde.

Sustentando que a actualização destas normas resulta de novas provas científicas, os especialistas destacam que em “áreas de transmissão comunitária de covid-19 confirmada ou suspeita” todas as pessoas devem usar máscara, em ambientes interiores ou exteriores, sempre que não seja possível manter um afastamento de pelo menos um metro.

Dentro de casa, a regra de um metro de distância não se aplica quando se recebe visitas e, nesses casos, todos devem usar uma máscara (não-cirúrgica).

Dentro de casa

“Num espaço fechado, a menos que a ventilação tenha sido avaliada como adequada, a OMS aconselha que o público em geral use uma máscara não-médica, independentemente de ser possível manter um distanciamento físico de pelo menos um metro”, lê-se no documento. Esta é, notam os especialistas, a quarta actualização da orientação sobre o uso de máscaras, que desta vez inclui uma secção de aconselhamento especialmente dirigida aos decisores das medidas de saúde pública.

A OMS aproveita ainda para desaconselhar o uso de máscara durante uma “actividade física vigorosa”, não apoia o recurso a máscaras com válvulas e reafirma que a protecção das viseiras é muito limitada. O documento inclui ainda recomendações sobre o tipo de tecido que deve ser usado no fabrico das máscaras não-cirúrgicas.

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Nelson Garrido

O documento tem 22 páginas com várias alíneas. No entanto, a parte que terá um alvo mais abrangente é sobre o uso de máscara na comunidade. “Os decisores devem aplicar uma abordagem baseada no risco ao considerar a utilização de máscaras para o público em geral”, lê-se na orientação que acrescenta que “em áreas de transmissão de comunidade ou de grupo SARS-Cov-2 conhecida ou suspeita”: a OMS aconselha que o público em geral deve usar uma máscara (não-cirúrgica) em ambientes interiores (por exemplo, lojas, locais de trabalho partilhados, escolas) ou ao ar livre, onde não é possível manter um distanciamento físico de pelo menos um metro.

Dentro de casa, quando se recebe visitas e a menos que a ventilação tenha sido avaliada como adequada, a OMS aconselha o uso de uma máscara não-médica.

Nas unidades de saúde

Nesta nova recomendação, a OMS é especialmente rigorosa na recomendação do uso de máscara nas unidades de saúde localizadas em regiões onde existe transmissão comunitária ou surtos confirmados. Essa é, pelo menos, “a opinião da maioria dos peritos (79%)” que fazem parte do painel de especialistas da OMS. Assim, apesar de admitirem que esta não é uma posição unânime, a OMS sustenta que “todos os profissionais de saúde, incluindo os profissionais de saúde comunitários e os prestadores de cuidados, devem usar sempre uma máscara médica, para qualquer actividade (cuidados de doentes com covid-19 ou outros) e em qualquer área comum (por exemplo, cafetaria, salas de pessoal)”.

Quando às outras pessoas – visitas, pessoas em consulta de ambulatório ou prestadores de serviços –, também se recomenda sempre o uso de uma máscara (médica ou não-médica) e só os doentes internados ficam dispensados do uso de uma máscara (médica ou não-médica), mas apenas se for possível manter um afastamento físico de pelo menos um metro, por exemplo, o que não inclui situações em que são examinados ou visitados à cabeceira da cama ou quando estão fora da sua área de cuidados (por exemplo, ao serem transportados). “As máscaras devem ser mudadas quando ficam sujas, molhadas ou danificadas, ou se o trabalhador de saúde/cuidador remover a máscara (por exemplo, para comer ou beber)”, alertam ainda.

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Teresa Pacheco Miranda

Especial para crianças

Especificamente sobre as crianças, a OMS reafirma que os menores de cinco anos não devem usar máscaras e que para os que têm entre seis e 11 anos de idade “deve ser aplicada uma abordagem baseada no risco à decisão de utilizar uma máscara; factores a considerar na abordagem baseada no risco incluem a intensidade da transmissão da SARS-Cov-2, a capacidade da criança para cumprir a utilização adequada de máscaras e a disponibilidade de supervisão adequada de adultos, ambiente social e cultural local, e ambientes específicos, tais como lares com familiares idosos, ou escolas”. A utilização de máscaras em crianças e adolescentes com 12 anos ou mais deve seguir os mesmos princípios que para os adultos.

Tecidos a usar em máscaras

Sobre o material a usar para o fabrico de máscaras não-médicas, os especialistas da OMS notam que a garantia de protecção é assegurada quando possuem três camadas de tecido. O fabrico destas máscaras deverá ser com tecidos – como, por exemplo, algodão ou misturas de algodão (na camada interior), poliésteres (na camada exterior) e nylon (na camada intermédia) – que são respiráveis e garantem um desempenho de filtração adequado quando em camadas.

“As máscaras de tecido caseiro com uma estrutura de três camadas (com base no tecido utilizado) são aconselhadas, com cada camada fornecendo uma função: 1) uma camada interior de um material hidrofílico; 2) uma camada exterior feita de material hidrofóbico; 3) uma camada hidrofóbica intermédia que comprovadamente melhora a filtração ou retém as gotas”, sustentam os especialistas, adiantando que “as válvulas de exalação são desencorajadas porque contornam a função de filtração da máscara de tecido, tornando-a inutilizável para o controlo da fonte”.

Outras medidas

A norma da OMS é sobre o uso de máscaras, mas aqui reafirma-se, mais uma vez, que esta é apenas uma das medidas no “pacote de protecção” que todos os cidadãos devem adoptar. Assim, por um lado, sublinha-se a importância deste recurso – recordando que deve ser assegurado um uso adequado que não comprometa a sua eficácia – mas também se destaca que o uso de apenas este meio é “insuficiente para proporcionar um nível adequado de protecção a um indivíduo não infectado ou impedir a transmissão posterior de um indivíduo infectado (controlo da fonte)”. 

“Higiene das mãos, distanciamento físico de pelo menos um metro, etiqueta respiratória, ventilação adequada em ambientes interiores, testes, rastreio de contactos, quarentena, isolamento e outras medidas de prevenção e controlo de infecções são fundamentais para prevenir a transmissão entre humanos da SARS-Cov-2, quer sejam ou não utilizadas máscaras.”

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DR

Transmissão do vírus

Os especialistas da OMS referem ainda uma série de resultados de estudos científicos (que incluem publicações e pré-publicações) para sustentar estes conselhos. “A transmissibilidade do vírus depende da quantidade de vírus viável a ser eliminada e expulsa por uma pessoa, do tipo de contacto que tem com outras, do cenário e das medidas em vigor. O vírus pode propagar-se da boca ou do nariz de uma pessoa infectada em pequenas partículas líquidas quando a pessoa tosse, espirra, canta, respira muito ou fala”, lembram, acrescentando que ainda há poucas provas sobre a transmissão do vírus através de objectos ou materiais contaminados.

“Fora das instalações médicas, para além da transmissão por gotículas e superfícies, a transmissão por aerossol pode ocorrer em ambientes e circunstâncias específicas, particularmente em espaços interiores, apinhados e com ventilação inadequada, onde as pessoas infectadas passam longos períodos de tempo com outras pessoas. Estudos têm sugerido que estes podem incluir restaurantes, coros, aulas de fitness, discotecas, escritórios e locais de culto”, avisa a OMS.

No entanto, e apesar do tempo que já passou e dos milhares de estudos já realizados sobre este vírus, a OMS sublinha que ainda “é necessária investigação de alta qualidade para colmatar as lacunas de conhecimento relacionadas com os modos de transmissão, dose infecciosa e definições em que a transmissão pode ser amplificada”. “Actualmente, estão em curso estudos para compreender melhor as condições em que a transmissão de aerossóis ou eventos de superdifusão podem ocorrer”, reconhecem os especialistas, que adiantam que as actuais provas sugerem que “as pessoas infectadas com SARS-Cov-2 podem transmitir o vírus, quer tenham sintomas ou não”, mas que “dados de estudos de disseminação de vírus sugerem que os indivíduos infectados têm cargas virais mais elevadas pouco antes ou por volta do momento em que desenvolvem sintomas e durante os primeiros cinco a sete dias de doença”.

Diferenças entre sintomáticos e assintomáticos

Os cientistas também terão demonstrado que, entre os doentes com sintomas ligeiros, a duração da disseminação do vírus infeccioso seja de oito dias desde o início dos sintomas e mais longa para os doentes graves. “O período de infecciosidade é mais curto do que a duração da disseminação do ARN detectável, que pode durar muitas semanas”, explica.

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Paulo Pimenta

Quanto ao período de incubação (o tempo entre a exposição ao vírus e o início dos sintomas), mantém-se que é em média de cinco a seis dias, mas pode chegar a 14 dias. A norma da OMS sublinha ainda que “pode ocorrer transmissão pré-sintomática (a partir de pessoas infectadas e que libertam vírus, mas que ainda não desenvolveram sintomas”) e que a transmissão assintomática (pessoas infectadas com SARS-Cov-2 que nunca desenvolvem sintomas) pode ocorrer.

“Uma revisão sistemática de 79 estudos revelou que 20% (17-25%) das pessoas permaneceram assintomáticas durante todo o curso da infecção. Outra revisão sistemática, que incluiu 13 estudos considerados de baixo risco de viés, estimou que 17% dos casos permaneceram assintomáticos (14%-20%)”, apontam os especialistas, insistindo que “o vírus viável foi isolado de amostras de indivíduos pré-sintomáticos e assintomáticos, sugerindo que as pessoas que não têm sintomas podem ser capazes de transmitir o vírus a outros”, ainda que os assintomáticos tenham menos probabilidade de transmitir o vírus, segundo outros estudos publicados. “Uma meta-análise estimou que existe um risco relativo de transmissão assintomática 42% mais baixo em comparação com a transmissão sintomática.”

Estudos sobre eficácia da máscara

Sobre os trabalhos que se debruçaram especificamente sobre a eficácia do uso de máscara como medida de protecção, a OMS admite que actualmente “existem apenas provas científicas limitadas e inconsistentes para apoiar a eficácia do uso de máscara por pessoas saudáveis na comunidade para prevenir a infecção com vírus respiratórios, incluindo o SARS-Cov-2”.

No documento, a OMS apresenta alguns exemplos de estudos que concluíram que a máscara pode ter uma baixa eficácia de protecção, mas também outros estudos que suportam a relação entre o uso de máscara e a redução do número de infecções. Mas, “apesar das provas limitadas da eficácia protectora do uso de máscara em ambientes comunitários”, a OMS conclui que o uso de máscaras é aconselhado em variados contextos (zonas interiores e exteriores) onde existe a confirmação ou suspeita de transmissão na comunidade ou um surto do novo coronavírus.