Vencer a complexidade das regras do jogo contra a covid-19

Precisamos de ter quem explique as regras deste jogo a cada pessoa, de modo tangível e claro, através de uma linguagem que lhes seja próxima, de preferência por outras pessoas que conheçam directamente.

Foto
Louis Hansel/Unsplash

Quando estamos a desenvolver um jogo analógico, para criar um jogo de tabuleiro propriamente dito ou para servir de protótipo a um videojogo, temos de definir regras. Entre outros objectivos mais mundanos, um jogo é um meio para criar experiências com significado e que levem os jogadores a permanecer nesse mundo à parte, pelo menos uma quantidade de tempo suficiente que justifique o investimento. Fazer isto, seja em que formato for, é complexo, principalmente porque estamos a lidar com comportamento humano.

Não há receitas mágicas para fazer jogos. Mesmo tendo o objectivo muito bem definido, as ideias iniciais podem sofrer muitas alterações ao longo do processo de desenvolvimento. Trata-se, habitualmente, de um processo não linear. Ao correr um jogo podemos concluir que não funciona ou, depois de testar com jogadores reais, constatar que está longe de gerar o tipo de experiência que pretendíamos. Podemos precisar de voltar atrás e reformular tudo. 

Pensando mais especificamente nos jogos analógicos, muitas vezes conhecidos como jogos de tabuleiro, a definição das regras é ainda mais importante. Os jogadores precisam de assimilar e dominar essas restrições, pois só assim podem activar o sistema de jogo. Sem isso nada funciona. Seguindo as regras erradas, diferentes das definidas pelos designers, corre-se o risco de produzir dinâmicas que levam a experiências e resultados totalmente diferentes do desejado. A clareza e coerência das regras são essenciais para atingir os objectivos pretendidos. Usar técnicas tutoriais e de ajuda para os jogadores são métodos de apoio imprescindíveis. 

O que referi anteriormente acontece nos jogos, mas também em muitas outras criações humanas que lidam com incerteza e comportamento humano. Acontece, por exemplo, nas medidas de controlo da pandemia. Todas as semanas surgem novas regras para modelar o nosso comportamento. São definidas regras de conduta, tal como as regras de um jogo, que têm como objectivo concreto reduzir a propagação da doença, manter o sistema de saúde a funcionar, reduzir, quanto possível, os impactos na economia e assegurar uma multiplicidade de outras necessidades pessoais e colectivas. Mas será que essas regras cumprem o objectivo desejado?

A teoria e prática de design de jogos ensinam que aumentar as excepções faz crescer a complexidade, o que dificulta a capacidade para dominar o sistema de jogo. Sabemos que sem ajudas, sem tutoriais, sem alguém que ensine o jogo, será difícil que as pessoas o consigam sequer começar a jogar, muito menos vencer. Sabemos também que só vamos perceber as falhas do nosso sistema de regras depois de o jogo ser jogado por pessoais reais, ou não fosse o comportamento humano altamente imprevisível perante novos ambientes interactivos. Ao criarmos estes modelos, determinados por regras, estamos a gerar arenas de interpretação interactivas, tanto nos jogos como na vida em sociedade. Se para efeitos de criatividade isto é positivo, para controlo de pandemias nem por isso.

Sugiro então usar o conhecimento de design de jogos, mas mais especificamente o design de jogo de tabuleiro, por serem modelos de regras codificadas para humanos, para planear o combate à pandemia. Simplificar, reduzir excepções, gerar técnicas de apoio e interpretação para os objectivos que se pretendem atingir. Testar primeiro, e aplicar em larga escala somente depois de verificar quais os padrões de comportamento humano, constatando se os resultados são os esperados. Precisamos também de ter quem explique as regras deste jogo a cada pessoa, de modo tangível e claro, através de uma linguagem que lhes seja próxima, de preferência por outras pessoas que conheçam directamente. Dadas as restrições de proximidade, temos actualmente ferramentas multimédia interactivas que podem ajudar, tais como vídeos, redes sociais e até aplicações digitais de apoio com dimensão jogável para motivar e gerar empatia. Se não fizermos isto arriscamo-nos a perder este jogo colaborativo.