Psicologicamente, é importante reagir em vez de sucumbir

A depressividade aumentou entre nós como, aliás, era mais do que previsível. De forma paralela, dentro de alguns, essa depressividade começa a ser tingida por tons de negro mais escuro e denso – a cor da angústia.

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"A 'culpa' não costuma ser uma categoria vivencial muito amiga da resolução de problemas" Attila Balazs/epa

Desde o mês de Outubro que escuto a escuridão progressiva que se vem abatendo dentro de cada um. Dependendo da área de trabalho onde se inscrevem, do agregado familiar a que pertencem e do estatuto socioeconómico que têm, muda apenas o tom do escuro. A depressividade aumentou entre nós como, aliás, era mais do que previsível. De forma paralela, dentro de alguns, essa depressividade começa a ser tingida por tons de negro mais escuro e denso – a cor da angústia.

Cada vez mais, a ansiedade característica da primeira fase desta travessia covid-19 começa a ser uma brincadeira de meninos. A segunda vaga está em curso – também era previsível! – e veio como um osso duro de roer. Se o medo só se combate, enfrentando-o; a tristeza só se vence, reagindo-lhe. Contudo, para que tal aconteça são necessários recursos. Recursos interiores e externos que, conjugados, nos permitem fazer os movimentos certos para que continuemos resistentes, resilientes, combativos e construtivos.

Mas, sendo assim, de que recursos falamos afinal? Para onde vamos? O que está a acontecer que nos ultrapassa? Como lidar com um futuro que, a cada dia (e, por enquanto), se nos apresenta só escuro e denso e para o qual começam a faltar forças psicológicas para o manter debaixo de um sol sonhado? A paisagem exterior a cada um de nós transformou-se de forma aparentemente repentina, dando a sensação de que há algo fora de controlo, face ao qual somos impotentes. Por dentro, alguns sentem-se a aproximar-se da última fronteira.

Sinto que uma verdade maior está prestes a revelar-se, como se até aqui os portugueses em geral (perdoem-me a generalização abusiva) contassem com uma solução milagrosa para superar tudo isto. Ou, de outra maneira, esperassem que quem nos lidera tomasse as rédeas da situação e nos indicasse o caminho a seguir sem a nossa participação activa. Ora, como vamos assistindo, nem uma coisa nem outra se avizinha plausível. Não subscrevo a premissa de que o curso dos acontecimentos desta segunda vaga covid, tenha um “culpado” maior – a falta de cumprimento das regras comportamentais individuais. Mas, de igual forma, também não subscrevo inteiramente a outra que advoga que a “culpa” é do sistema.

Psicologicamente falando, a “culpa” não costuma ser uma categoria vivencial muito amiga da resolução de problemas. Muitas das vezes, apresenta-se como a “desculpa perfeita” para irmos empurrando com a barriga, mantendo cá dentro de nós a zona de conforto que (por mais que seja desconfortável) impede e procrastina a mudança necessária e desejável. O que vivemos não é culpa de ninguém.

É essencial dar máxima atenção à comunicação que fazemos sobre a covid, usando de clareza e verdade no que dizemos. Por mais que a verdade seja dura, é com ela e a partir dela que devemos trabalhar. É a verdade clara que permite pensar com qualidade e, consequentemente, agir em conformidade. Creio que no período que mediou a primeira vaga e a segunda, não se pensou inteiramente o problema. Muito do que era previsível não foi levado em conta, como se de repente tivéssemos perdido as competências de ver além, antes desse além se fazer presente. Não se projectou, não se planeou nem planificou, não se comunicou de forma correcta.

Assustámo-nos com a situação e descansámos, entretanto, aguardando em suspenso o que viesse! Somos humanos, simplesmente humanos. Neste momento, ninguém tem uma solução precisa para os múltiplos problemas sucedâneos do principal. Logo, desta vez, importa não perder de vista todos eles, para que possamos resolvê-los um a um, abraçando todos de uma vez.

Psicologicamente, é importante reagir em vez de sucumbir. Reagir nesta fase é não escamotear mais a realidade e, aguentando a dor triste de observar e fazer parte do desmoronar, continuar a pensar criativamente. Criativamente é inventar a cada momento uma solução válida para cada problema (individual e colectivo, ao mesmo tempo). Reagir é, no reforço dos laços afectivos, por mãos à obra no que respeita à solidariedade para com os muitos que já passam mal nesta altura. Reagir é reconhecer todos os dias o que corre bem (dentro e fora de nós) e fazer disso um chão seguro para continuar. Reagir é fazer valer o nosso poder pessoal. Neste momento, todos contam. Todas as ideias novas podem ser úteis e todos os movimentos de ajuste comportamental são preciosos. Reagir é também, ser claro e objectivo no que se comunica, evitando sempre que possível, discursos ambíguos, confusos e demasiado detalhados que fazem perder de vista o essencial do que se pretende. Reagir é integrar, colaborando, o coletivo que somos e ao qual pertencemos, despindo de vez os narcisos deixando-os para depois.