Roland S. Howard, a luz coada de uma alma imortal

A secção in-Edit do Porto/Post/Doc marcou um reencontro com o genial guitarrista australiano, membro dos The Birthday Party e líder dos These Immortal Souls, que morreu em 2009. Autoluminiscent é a história de um criador que recusou, sempre, viver na sombra de outros.

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Roland S. Howard, com The Crime & The City Solution, em As Asas do Desejo, de Wim Wenders

No fundo do mar há peixes capazes de iluminarem a escuridão com o seu próprio corpo. Na história do rock, a Rowland S. Howard é atribuída essa capacidade luminescente, embora na biografia deste guitarrista, compositor e letrista australiano essa luz tenha sido muitas vezes ofuscada por inúmeras sombras: fosse a de Nick Cave, com quem explodiu convulsivamente para o mundo nos Birthday Party; fosse a de uma genialidade sôfrega de reconhecimento em confronto com uma personalidade autodestrutiva; ou a do seu próprio corpo que, levado aos limites, e incapaz de garantir qualquer arremedo de continuidade criativa, se apagou cedo de mais. 

Viveu na intermitência, Rowland S. Howard. Como veremos em Autoluminiscent, documentário post-mortem, já de 2011, a que podemos assistir esta sexta-feira às 18h, no Cinema Passos Manuel, no Porto, ou online, no âmbito do Festival Porto/Post/Doc, a sua vida pode ser  resumida a uma noite escura pontuada por um holofote longínquo enviando mensagens de S.O.S. Quando o cancro no fígado o apanhou na penúltima curva de 2009 Howard tinha 50 anos e ainda nem tivera tempo para promover o seu segundo e derradeiro álbum a solo, Pop Crimes: a sua forma melancólica e sarcástica de celebrar a fuga à heroína e à Hepatite C. O génio que aos 16 escrevera um tema pop digno da eternidade, Shivers, ainda estava preparado para viver. Mas a vida já não queria nada com ele. 

Ele devia ter cantado essa canção

Estreada em 1977, ainda nos The Young Charlatans, Shivers, de que se fala incontornavelmente neste Autoluminescent (realizado por Lynn-Maree Milburn e Richard Lowenstein) é uma metáfora da carreira do mais velho dos irmãos Howard (o irmão, Harry que ainda anda por aí, acompanhou-o, no baixo, em vários projectos). Naquele hit, um puto que, segundo a família, vestia de preto e usava cabelo comprido desde os dez anos, gozava subtilmente com os excessos da adolescência perante o amor. “I’ve been contemplating Suicide/ but it doesn’t fit my style” era para ser cantado no tom aparentemente frívolo do autor, mas quanto este entra, em 79, nos The Boys Next Door, o vocalista Nick Cave emprestou-lhe uma interpretação tão expressiva que se colou a ela a memória que qualquer um tenha dessa música.

“Ele devia ter cantado essa canção”, assume Cave no documentário, já depois do desaparecimento de Howard. Cave fora, naqueles anos de transição entre as décadas de 70 e 80, amigo inseparável de Howard, com quem rebaptizou, ainda em 1979, os The Boys Next Door. É já enquanto The Birthday Party, na Austrália, em Londres, e mais tarde em Berlim, que os dois exibem, nos discos, e principalmente nos palcos, a exuberância mais negra da luz de cada um, num quarteto tomado por drogas, álcool e muito, mas muito mais do que apenas a vontade de fazer punk-and-roll.

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Nick Cave e Roland S. Howard, dos The Boys Next Door/The Birthday Party DR

“Ele fazia coisas que ninguém fazia, provavelmente ligando cabos que era suposto não serem ligados”, explica o engenheiro de som que os acompanhava, a propósito, por exemplo, de The Friend Catcher, cujo feedback acompanha o trailer deste doc. Um tema em que é evidente o quanto Howard, mas também Mick Harvey, eterno companheiro de ambos, e principalmente o baixista Tracy Pew (morreu na sequência de um ataque de epilepsia com 28 anos, em 1986), surgem só aparentemente como segundas figuras, tal a importância de cada um para o som transgressivo da banda.

A vénia da geração Sonic Youth...

O talento de Howard emerge nesses festins decadentes de álbuns como o homónimo The Birthday Party, Junkyard e Prayers on Fire, influenciando toda uma geração — é Thurston Moore, dos Sonic Youth, entre outros, quem o diz, mas podem perguntar aos Mão Morta, ou a outros portugueses da geração do Rock Rendez-Vous. Mas o homem capaz “de extrair sangue das seis cordas" sentia-se, ali, uma segunda figura a apagar-se perante outro génio em ebulição, Nick Cave. E é já em Berlim que os caminhos de ambos se separam, seguindo um para uma profícua carreira com os The Bad Seeds, e outro para uma estrada de muitas paragens: a primeira, na Europa, com a namorada Genevieve McGuckin, o irmão, o vocalista Simon Bonney e Epic Soundtracks, na bateria, foi um exercício de ressuscitação de uma banda australiana contemporânea dos The Boys Next Door: os  The Crime & The City Solution.

Regressado a Berlim nesse início dos 80, o cineasta Wim Wenders confessa, a dado momento, que queria fazer um filme sobre a cidade, e que ainda não tinha argumento nem personagens. Mas tinha já uma certeza, a de que Cave e Howard, agora em duplicado, teriam de entrar, como viria a acontecer em As Asas do Desejo. Na sequência do concerto dos The Crime & the City Solution ouvimos Bonney a cantar o imortal Six Bells Shime, mas era para o guitarrista, ele próprio uma personagem — esquálido, metido num fato preto, rodopiando para não cair, de cigarro sempre colado aos lábios — que o realizador queria que olhássemos, admite. 

...e da geração MySpace

Autoluminescent mostra-nos como Roland S. Howard quis, sempre, que olhássemos para ele como um ser inteligente e arrogante, solitário mesmo quando procurava companhia, diletante e dilacerado. O próprio confessa, a propósito de Pop Crimes, que lhe agradara a ideia de trabalhar sozinho, de não ter de discutir com mais três pessoas o nome de um disco, de ser, na verdade, o que foi nos anos de regresso à Austrália após uma outra experiência marcante na qual nos deixou dois álbuns, a dos These Immortal Souls: um one man band, aberto a contribuições que pudesse descartar, se quisesse, desejoso de cantar o que conseguia escrever nos intervalos das trips que o afastaram de Genevieve, primeiro, e de uma segunda família, a seguir. 

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Roland S. Howard, no documentário Autoluminescent DR

Estava recuperado, e de novo apaixonado, quando, num novo milénio, se meteu a preparar o regresso à ribalta. Na internet, a geração MySpace — quem se lembra? — descobrira-o, e nas entrevistas ele esforçava-se por escapar às eternas perguntas sobre Shivers, assumindo que preferia ser questionado por algo que tivesse feito nos 15 anos anteriores. “I am blinding / Autoluminescent / I am white heat / I am heaven sent / I was a nightmare / But I'm not gonna go there / Again”, escrevera no tema do álbum Teen Age Snuff Film (1999) que dá nome ao documentário. Mas, uma década depois, aquele corpo que, em palco, parecia ser sempre, de facto, auto-luminescente na sua obscuridade tremeluzente, já não tinha mais luz para oferecer, e, à espera de um transplante que não chegou, apagou-se. 

Autoluminescent é exibido em Portugal neste final de 2020, ano de uma outra escuridão que nos fechou em casa, mas em que a Mute Records lançou versões remasterizadas dos dois álbuns a solo de Roland S. Howard. Várias oportunidades, portanto, para um reencontro com esta alma imortal que não teve tempo de se tornar num velho rezingão, como imaginava aos 18 anos, numa entrevista, mas que construiu, ainda assim, um legado que o transcende, e que surge, qual reencarnação, nas mãos de uma plêiade de descendentes. Haverá luz mais poderosa do que a que sobrevive a nós mesmos?