Nick Cave atira-se de braços abertos ao mundo

É a digressão de que toda a gente fala e que não vai passar por Portugal. Nick Cave, os Bad Seeds e o público que invade o palco, noite após noite, têm contribuído para um regresso emocional à vida depois da tragédia e da edição recente da antologia Lovely Creatures.

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É um dos mais carismáticos performers da música popular em actividade. Não é de se defender em palco. Pelo contrário. Esse é o espaço por excelência onde se tem exposto ao longo de mais de 35 anos de carreira. Ainda assim, a presente digressão de Nick Cave e dos Bad Seeds, tem surpreendido. Nunca se o viu tão próximo do público para se deixar envolver por ele e este tão disponível para o receber nos seus braços, forma talvez de ele se reconciliar com o seu mundo depois da tragédia.

“Não quero que as pessoas venham aos concertos e se envolvam no drama de outra pessoa”, dizia Nick Cave ao The Guardian em Maio, numa das raras ocasiões em que depois da morte do filho de 15 anos, Arthur, e posterior edição do álbum Skeleton Tree (2016), falou à comunicação social. “Quero que os concertos sejam inspiradores e que as pessoas saiam a sentir-se melhor do que quando entraram”, dizia no início de uma digressão que já passou pela Austrália, que está neste momento nos EUA, e chegará à Europa em Setembro, sem qualquer data portuguesa, naquela que é a talvez a maior omissão do calendário luso de concertos de 2017.

É normal que Nick Cave tenha proferido tais palavras. Mas também é inevitável que a ressonância desse acontecimento traumático, ocorrido no Verão de 2015 em Brighton, esteja patente nos espectáculos, nem que seja de forma subliminar, tendo em atenção que tem apresentado sete das oito canções que constituem o comovente Skeleton Tree, onde a morte do filho às vezes é aludida de forma directa, mas a maior parte das vezes é-o alegoricamente, estando lá como subtexto.

O álbum, mais do que um momento de catarse, parecia mostrar alguém a agarrar-se à vida através da maneira que sabe: criando canções. Agora os concertos parecem ser ele a regressar paulatinamente à existência, depois de algumas alturas em que, como confessou, lhe foi difícil lidar com a perda. Dir-se-ia que existem muitas formas de reagir a acontecimentos funestos – há quem se feche sobre si próprio, mas também quem se abra ao mundo – e ele parece estar mais próximo desta segunda categoria.

Abandonar-se à assistência

No início tentou controlar, até onde isso é possível, a comunicação com o exterior (através da feitura do documentário One More Time With Feeling, realizado por Andrew Dominik, e pela ausência de declarações). Mas agora em palco as emoções foram mesmo libertadas. O impulso inicial foi esconder-se do público, como referia na entrevista ao The Guardian, até que ele e a mulher perceberam que sofrer abertamente podia ter efeitos benéficos, em vez de se enclausurarem num universo de memórias. Depois da exibição do documentário, ele e a mulher foram inundados por mensagens de pessoas que passaram por lutos e que quiseram partilhar as suas experiências, o que, segundo ele, os ajudou a lidar com a situação.

Os concertos parecem agora funcionar da mesma forma. Os relatos, as fotos e os vídeos dos espectáculos parecem dar conta disso, em momentos de raiva ou de emocionante beleza, sem nunca deixar de lado o sentido de humor na interacção que estabelece com a assistência deste o início. Não apenas para a provocar, como tantas vezes fez, mas para se abandonar a ela, incentivando até à invasão de palco nas canções finais, com ele, os músicos e a assistência parecendo fazer parte do mesmo ritual de comunhão, num misto de bênção e celebração. Não é propriamente novo. É o tipo de performer que ultrapassa com facilidade a linha que separa palco e plateia, mas desta vez dir-se-ia que essa conexão emocional tem sido levada a um novo patamar, sem deixar de estar presente pudor.

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Thomas Peter / Reuters

Mas nem só das admiráveis canções do último álbum têm vivido esses concertos. O resto do alinhamento tem sido constituído por uma dúzia de temas que estão incluídos na recente e mais completa antologia (Lovely Creatures: The Best of Nick Cave and The Bad Seeds – 1984-2014) alguma vez editada por ele, que existe em diversas versões – de apenas 2CD, até uma que contém três CDs, um livreto e um DVD com actuações ao vivo ou entrevistas. No total são 45 canções seleccionadas pelo próprio Nick Cave e por um dos outros fundadores dos The Bad Seeds, Mick Harvey.

“Este disco pretende ser uma porta de entrada num catálogo de mais de três décadas de música”, disse, tentando justificar as escolhas. “É muita canção. Algumas são obrigatórias dos concertos. Outras são menos conhecidas e estão entre as nossas favoritas. Outras são demasiado grandes e têm demasiada história para podermos deixá-las de fora. E ainda há as que não conseguiram entrar, coitadas. Essas terão de as descobrir sozinhos.”

É uma antologia que começa em From her to eternity, quando a fúria arrebatada herdada do pós-punk dos Birthay Party ainda se fazia sentir, até ao delicado Push the sky away, passando pela vertigem de The mercy seat, a elevação de Straight to you, a cólera de Loverman, a abnegação de Into my arms, o lirismo de Love letter, ou a exuberância de Jubilee street, numa viagem entre tensão, drama e romanticismo, quase sempre com muito blues e rock pelo itinerário.

Ao longo dos anos, como este conjunto admirável de canções expõe, permitiu-se ser anjo, demónio, apocalíptico, mergulhando de cabeça na sarjeta da vida mas também sendo revigorado por ela, abordando os temas que sempre fizeram parte da sua lírica: vida, morte, religião, sexo, amor. É uma compilação que parece funcionar como organizadora do seu momento actual. E isso tem sido perceptível nos concertos, com ele a afirmar que a sua relação com as canções vai mudando com os anos.

Enquanto os temas do álbum mais recente são desnudadas e elegíacas, a maior parte das vezes não necessitando mais do que voz, piano, sintetizador ou ocasionais sugestões rítmicas, o resto das canções, repescadas do seu catálogo, são baladas sombrias ou sonhos delirantes, com elementos sonoros a entrelaçarem-se, vogando por entre as sílabas.

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Nunca o vimos tão próximo do público para se deixar envolver por ele e este tão disponível para o receber nos seus braços Dana Distortion

No centro dessa versatilidade parece estar Warren Ellis. Ao longo dos anos Nick Cave and The Bad Seeds foi sempre um grupo. Ou seja, Nick Cave é um Bad Seed. É claro que é fácil focarmo-nos nele. Ele é o arquitecto e o instigador. Mas é vital reconhecer que à sua volta tem tido um naipe de notáveis músicos. Como disse uma vez Mick Harvey, ao lado de Blixa Bargeld, talvez o mais conhecido dos seus colaboradores do passado, “seria muito difícil para ele trabalhar com músicos de sessão. Ele precisa de pessoas a sério que se relacionem com as suas ideias idiossincráticas – quando começamos uma canção ele traz directivas sobre a atmosfera a desenvolver, mas depois seguimos nós e as coisas começam a acontecer.”

Hoje é Warren Ellis, colaborador de longa data de Nick Cave, tanto nos The Bad Seeds, como nos Grinderman, ou ainda na composição de bandas-sonoras, a compreendê-lo melhor do que ninguém. Foi ele que percebeu que a interpretação vulnerável no último álbum necessitava de repousar em poucos elementos, com a sonoridade ampla e as subtis alusões ambientais a criarem o necessário espaço para a voz sobressair.

Hoje, para além de Warren Ellis (violino, guitarra, piano, teclas), faz-se acompanhar por Thomas Wyler (bateria, percussões, vozes), George Vjestica (guitarra), Martyn P. Casey (baixo, vozes), Jim Sclavunos (percussão, bateria, órgão, vibrafone, vozes), Conway Savage (piano, órgão, vozes) e Toby Dammit (teclados), ou seja um notável grupo de músicos experimentados que o amparam. Mas mais do que meros executantes, como referia Mick Harvey, são também pessoas criativas.

“Sem o seu alento e a sua presença nada disto teria sido possível”, afirmou na Austrália natal, depois do primeiro concerto da presente digressão. É provável que se estivesse a referir apenas ao seu regresso aos concertos. Mas mais do que um retorno aos palcos, o que se tem visto nas salas de espectáculo por onde tem actuado é uma reconciliação consigo próprio depois de tempos difíceis, traduzida numa nova forma de se relacionar com as canções, com a sua memória e, principalmente, com o público.