Bem-hajas, Saramago

Gosto de sentir que destas teclas do meu computador — quase que numa metáfora musical, pois vejo o negro e o branco de ébano e de marfim de um piano — não sairá Bach ou Beethoven mas um saber em que vou fazer outros felizes com as minhas palavras.

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"Reconheço que a palavra tem tudo para ser um Quarto Poder, que só nunca o foi porque vai sendo deturpada" Alisa Anton/Unsplash

Há dons e também há poderes de domínio; os primeiros muito mais inatos, os segundos muito mais trabalhados, lapidados. Ambos revelados, se o seu possuidor quiser, ou as circunstâncias os fizerem eclodir. Eu tenho o segundo, na escrita. A presunção é algo feio, eu sei. Todavia, a falsa modéstia ou a hipocrisia são-no muito mais. E sem comprometimentos de ordem profissional, porque não sou nem nunca serei escritora, é assumidamente de um prazer incomparável e incondicional ter uma ideia e de imediato transformá-la numa realidade gráfica que chega aos olhos de alguém e que faz nascer da sua leitura felicidade, sorrisos, imagino que por vezes algumas gargalhadas. Saber manusear as palavras, dar-lhes a ordem certa, encaixá-las no contexto e na ideia certa, mesmo sem rimas, mas com o som e o tom certos. Em grande ou em pouca quantidade e cabe lá tudo; até, imagino, que também o tom da minha voz.

Faço uso desse meu domínio muitas vezes com as pernas alongadas mentalmente até à lareira onde, mais do que o calor, muitas vezes é o crepitar da madeira que me dá conforto, e a luz, sim, a luz do fogo. Acompanho essa posição meio deitada, de computador ao colo e um equilibrado copo de vinho rosé, que vai oscilando sobre o sofá aquando dos meus movimentos, ameaçando atrevida e severamente o tapete branco muito lãzudo que se estende junto a nós. E eu gosto de sentir que destas teclas do meu computador, quase que numa metáfora musical, pois vejo o negro e o branco de ébano e de marfim de um piano, em que deste poder não sairá Bach ou Beethoven, mas um saber em que vou fazer outros felizes com as minhas palavras, que sabem exactamente reproduzir, como que em eco, os meus sentimentos de bem-querer. Também as sei dominar no sentido contrário, mas para tal uso-as somente para responder a maldades ou a descuidos que têm de ser refreados; e essas doem-me escrever.

Reconheço que a palavra tem tudo para ser um quarto poder, que só nunca o foi porque vai sendo deturpada pela economia e pela sobrevivência, maioritariamente política, de quem assim a usa. Por isso é que já li muitas meias notícias; muitos outros textos e discursos pela metade.

E também li muitos meios livros. Muito mais, porque o que diziam soava a fingimento ajustado ao que os ouvidos ou os olhos quisessem captar, às vendas também, do que reconhecidamente a falso. Porque de falso vive a verdadeira, rica e desejada literatura. Não é só o que o autor tem para dizer; é o que o autor trabalhou para dizer. Quando partimos para a sua leitura, não podemos esquecer a ficção que lhe é subjacente, mesmo numa autobiografia, porque a memória tem esse pendor de reorganizadora de ideias, não apenas de guardadora de acontecimentos. Se tudo soa apenas à verdade desejada, embelezada, é outra coisa, não poderei escrever o que é, mas não é literatura.

Ocorreu-me pensar nos prémios Nobel: não deixa de ser interessante subentender a ideia do seu criador que, a par de todos os outros, que de modos diferentes são meritórios por proporcionarem primeiro bem-estar ao corpo e depois à mente, o da Literatura é distintamente um louvor primeiro ao lenimento da mente. Bem-hajas, Saramago.