Homem negro espancado até à morte por seguranças no Brasil

Crime aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra e gerou enorme indignação, com denúncias do racismo estrutural no país. Assassínios de negros no Brasil aumentaram 11,5% nos últimos dez anos. Em 2018, 75,7% das pessoas assassinadas no Brasil eram negras.

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Activistas homenagearam João Alberto Silveira Freitas à entrada do supermercado onde foi assassinado Reuters/DIEGO VARA

Um homem negro foi espancado até à morte por dois seguranças num supermercado Carrefour em Porto Alegre, no estado brasileiro de Rio Grande do Sul, na quinta-feira, na véspera do Dia da Consciência Negra que esta sexta-feira se assinala no Brasil.

A vítima foi identificada como João Alberto Silveira Freitas, mais conhecido como Beto, de 40 anos. Os dois seguranças, um deles, membro da Polícia Militar, segundo o G1, estão sob custódia das autoridades. A identidade dos autores não foi revelada, só que têm 24 e 30 anos. Foi aberta uma investigação ao caso.

Vídeos do espancamento começaram a ser difundidos nas redes sociais na noite da passada quinta-feira e causaram enorme indignação, com vários dirigentes políticos, inclusive ex-presidentes, a denunciarem o crime.

Nas imagens, é possível ver dois homens, vestidos de preto, no que parecem ser uniformes de segurança, a darem vários socos na vítima. As agressões continuam, mesmo com o homem imobilizado no chão.

As circunstâncias que levaram ao espancamento não foram totalmente esclarecidas, no entanto, segundo a imprensa brasileira, a vítima terá estado envolvida num conflito com uma funcionária do supermercado, que terá chamado os seguranças. De seguida, os dois homens começaram a espancar a vítima, que acabou por morrer no local, apesar da intervenção dos serviços de emergência.

A causa da morte ainda não foi apurada, contudo, o G1 afirma que uma análise preliminar aponta para asfixia, tendo uma testemunha afirmado que, antes de morrer, João Alberto Silveira Freitas disse que não conseguia respirar.

“Soube do assassinato de um homem negro pela abordagem violenta dos seguranças do estacionamento do Carrefour. Sei que já há pedido de investigação sendo feito por parlamentares e pela bancada antirracista recém eleita. Mas as imagens dizem muito”, afirmou na rede social Twitter Manuela D'Ávila, candidata do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que vai disputar a segunda volta das eleições municipais em Porto Alegre.

“O racismo que estrutura as relações de nossa sociedade precisa ser enfrentado de frente”, acrescentou.

Sebastião Melo, adversário de Manuela D'Ávila na segunda volta das municipais (marcadas para 29 de Novembro), considerou o assassínio como um “absurdo”.

“Acabo de saber da morte de um homem negro por seguranças do Carrefour da zona norte aqui de Porto Alegre. Um absurdo! As cenas são chocantes. Justamente no dia nacional de luta contra o racismo. Medidas rigorosas devem ser tomadas imediatamente!”, afirmou o candidato do Movimento Democrático Brasileiro.

Também os ex-presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff condenaram o assassínio. ”O racismo é a origem de todos os abismos desse país. É urgente interrompermos esse ciclo”, disse Lula, enquanto Dilma sublinhou que o assassínio de João Alberto Silveira Freitas “é revoltante e mostra a persistência da violência escravocrata no Brasil”.

O Carrefour condenou o crime e anunciou o fim do contrato com a empresa de segurança, cujo nome não foi revelado, daquele supermercado.

Consciência Negra

A notícia do assassínio de mais um homem negro no Brasil surgiu na véspera do Dia da Consciência Negra, celebrado anualmente a 20 de Novembro, em homenagem a Zumbi dos Palmares, um líder negro que lutou pelo fim da escravatura, assassinado em 1695.

De acordo com os dados do Atlas da Violência 2020, os assassínios de negros no Brasil aumentaram 11,5% nos últimos dez anos, enquanto as de não negros caíram 12,9%. Em 2018, 75,7% das pessoas assassinadas no Brasil eram negras.

O mesmo relatório refere ainda que, no Brasil, por cada mulher branca vítima de homicídio, existem 1,8 mulheres negras assassinadas. Das 1326 vítimas de feminicídio em 2019, 67% eram negras, sendo que elas representam apenas 52,4% da população feminina.

Além disso, entre 2008 e 2018, a taxa de homicídio de mulheres não negras caiu 11,7%, enquanto a morte de mulheres negras aumentou 12,4%.

Globalmente, as mulheres brasileiras representaram 8% dos homicídios, mas o risco de mulheres negras serem assassinadas é 64% superior ao das mulheres brancas, segundo os dados do Atlas da Violência 2020.