Itália sofre os efeitos da segunda vaga, que agora chegou ao Sul mais pobre

Alguns doentes recebem oxigénio dentro dos seus próprios automóveis fora de um hospital de Nápoles. Na segunda vaga morreram já mais de 9000 pessoas.

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Hospital em Nápoles: a cidade está a sofrer com a segunda vaga da covid-19 em Itália EPA/CIRO FUSCO

A Itália foi o país ocidental que primeiro sofreu com a chegada do coronavírus que provoca a covid-19, que então se concentrou na zona do Norte mais rico. Durante o mês de Setembro, o país estava a ser visto como um caso de relativo sucesso – mas isso mudou radicalmente e os números de infecções batem recordes todos os dias e, pior, o número de mortos diários aproximava-se dos registados no início de Abril: esta sexta-feira, foram registados 36.176 novos casos e 653 mortes.

Nesta segunda vaga morreram já mais de 9000 pessoas de covid-19, enquanto em Março e Abril houve 28 mil mortes (o número real terá sido maior porque muitas pessoas que morreram fora dos hospitais não chegaram a ser testadas). O país tem neste momento em vigor um sistema de semáforo com base em vários critérios que determinam medidas em cada região, e medidas de restrição como recolher obrigatório à noite.

O principal problema é que se a primeira vaga chegou de surpresa e mesmo o sistema do Norte do país não lhe conseguiu responder, a força da segunda vaga foi maior do que as previsões mais pessimistas e atingiu também as zonas mais pobres.

Em Nápoles, os hospitais estão tão cheios que há doentes a ser tratados em filas de automóveis – até a receber oxigénio ou medicação dada com soro intravenoso. Relatórios internos dizem que muitas regiões não se prepararam para uma segunda vaga. Perto de uma igreja num bairro do centro, uma série de pessoas esperava em fila para fazer um teste, com verbas pagas por uma série de vizinhos, uma farmácia do bairro e alguns médicos – pessoas com sintomas mas que não conseguiram fazer o teste nos serviços de saúde públicos, conta o correspondente do diário espanhol El País.

Um artigo do British Medical Journal diz que em algumas regiões do Sul há pessoas a esperar em filas 10 a 12 horas para serem testadas e em Nápoles temia-se a ruptura de stock de garrafas de oxigénio (6000) e farmácias avisavam já para o perigo das que começavam a aparecer no mercado negro.

O Governo deu ordens às 20 regiões para duplicarem o número de camas nas unidades de cuidados intensivos. Mas na Calábria, por exemplo, há apenas mais seis camas, num total de 152. Em todo o país, há mais de 3600 pessoas internadas nas unidades de cuidados intensivos.

Mesmo que houvesse mais camas, o problema é que não há especialistas suficientes, especialmente de enfermagem em cuidados intensivos. “Há mais camas e ventiladores, mas o número de pessoal mantém-se mais ou menos o mesmo”, disse Giovanni Leoni, o vice-presidente da Ordem dos Médicos, citado pelo jornal britânico The Guardian.

Muitos médicos, diz The Guardian, decidiram deixar a profissão ou pedir reforma antecipada depois do trauma da primeira vaga na Primavera, em que tiveram por vezes de escolher quem recebia ventilação, e quem iria ser deixado sem tratamento, e morrer, por não haver capacidade para tratar todos os que precisavam.

Outro problema é que os médicos estão a ser atacados em várias frentes: porque são vistos como potenciais transmissores do vírus, por serem vistos como estando por trás das medidas restritivas impostas para travar a pandemia, ou finalmente, por vezes ainda estão a ser processados por familiares das vítimas.

“Passámos de ser tratados como heróis para sermos os portadores da praga”, disse Giacomo Grasselli, director da unidade de cuidados intensivos do Hospital Policlinico de Milão. “Agora somos vistos como os responsáveis pelas medidas de restrição, por tirarmos a liberdade às pessoas, e pelas consequências económicas.” Grasseli diz mesmo que “paradoxalmente, é mais difícil trabalhar agora do que em Março ou Abril”. Há quem ouça os avisos de que se a taxa de incidência não baixa não vai haver camas para todos e “depois vá para a televisão dizer que estamos a aterrorizar as pessoas e que é um exagero”. Isto leva “outras pessoas a ter dificuldade em perceber e serem menos tolerantes em relação aos profissionais de saúde”.

Virologistas como a conceituada Ilaria Capua, da Universidade da Florida (EUA), mencionaram esta quinta-feira que há sinais de alguns efeitos das medidas de restrição adoptadas, “mas é preciso esperar para esta tendência estabilizar e começar, de seguida, a diminuir”, sublinhou, alertando que o vírus “avança depressa”.