Os animais infectam ou são infectados? O polémico caso dos visons

Há cerca de um ano o vírus que “saltou” de animais para os humanos circula entre nós e evolui de forma a infectar as pessoas, adaptando-se às características do nosso organismo.

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RITZAU SCANPIX/MADS CLAUS RASMUSSEN VIA REUTERS

A grande preocupação neste momento é obviamente a transmissão da infecção causada pelo vírus SARS-CoV-2 entre humanos, no entanto, desde o início desta pandemia foi evidente a importância do papel das outras espécies neste problema de saúde pública que terá começado com um “salto” dos morcegos até nós, com ou sem intermediário pelo meio. Depois disso, já houve notícia de animais (como gatos ou tigres em jardins zoológicos) infectados com o SARS-CoV-2. Mais recentemente surgiu o caso dos visons, com uma mutação do vírus encontrado nestes animais que levou à polémica decisão de abate de milhões destes animais.

“As provas que temos não sugerem que esta variante seja de alguma forma diferente na forma como se comporta. Talvez tenha uma assinatura (genética) ligeiramente diferente, mas trata-se do mesmo vírus”, afirmou a 6 de Novembro Michael Ryan, director executivo do programa de emergências sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar de os especialistas reconhecerem que é cedo para perceber se as infecções dos visons podem ou não ter uma implicação na doença nas pessoas e no esforço de desenvolvimento de uma vacina, a verdade é que essa mera possibilidade já levou à ordem para o abate de milhões de visons na Dinamarca. O objectivo é, dizem os responsáveis da OMS, conter a disseminação da nova mutação, que circula entre animais e humanos, e “limitar a capacidade de uma nova reserva de vírus” naquela espécie.

“O caso dos visons é exactamente o cenário que queremos evitar: uma mutação que facilita a infecção de duas espécies ao mesmo tempo”, comenta João Rodrigues, o investigador português que assina um artigo que analisou 30 espécies de animais para encontrar diferenças ou semelhanças que as podem tornar susceptíveis ou imunes a este vírus. “Temos de ter em mente que o vírus tem vindo a evoluir, desde há quase um ano, para nos infectar a nós. Ou seja, está a tentar adaptar-se à nossa versão da proteína ACE2, que acaba por ser ligeiramente diferente da dos outros animais”, lembra o cientista.

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Mas, afinal, devemos estar mais preocupados com os animais que podem infectar os humanos ou com os animais que podem ser infectados pelos humanos? “Na minha opinião, com os dois”, responde Joana Damas, a investigadora portuguesa que ajudou a fazer uma lista de animais com potencial de infecção publicada na revista da PNAS em Agosto. É por saber quais os animais que parecem ser susceptíveis a esta infecção e por ter percebido que 40% das espécies identificadas estão classificadas como ameaçadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza que a cientista defende que é “de extrema importância” saber quais os animais que serão alvos mais fáceis para este vírus e, assim, “o mais rapidamente possível” minimizar o risco de transmissão de SARS-CoV-2 de humanos para estas já vulneráveis populações.

Mas não é preciso procurar animais selvagens para encontrar a possibilidade de risco. “Outras espécies que merecem atenção são, por exemplo, gado bovino, ovelhas e cabras. As nossas previsões sugerem que estas espécies, e outros ruminantes, podem servir como reservatórios para o SARS-CoV-2, o que teria implicações epidemiológicas significativas, bem como implicações para produção de alimentos e conservação e gestão da vida selvagem”, avisa Joana Damas. A investigadora adianta ao PÚBLICO que a equipa que integra está neste momento a procurar outros factores que podem ser importantes no mecanismo de infecção usado pelo SARS-CoV-2 e também a verificar no laboratório se as espécies que foram identificadas como susceptíveis à infecção por SARS-CoV-2 realmente o são.

João Rodrigues está a seguir as pistas do estranho caso que afectou os visons na Dinamarca e noutros países, como a Holanda. Na semana passada, o jornal El Mundo referia que havia já seis países com casos de visons infectados por SARS-CoV-2: Dinamarca, Holanda, Espanha, Suécia, Itália e EUA. “Convém perceber se há variantes que podem conferir a este vírus uma maior capacidade de infecção ou tornar os medicamentos que temos actualmente menos eficazes”, diz João Rodrigues, explicando que estão a usar simulações para tentar prever quais destas variantes têm um impacto na interacção com os receptores humanos. 

No que diz respeito ao impacto que estas mutações no vírus podem ter na eficácia de uma vacina que foi desenvolvida sem ter estas alterações em conta, o cientista português responde: “O vírus teria que sofrer mutações em várias partes diferentes do genoma para que todas as vacinas deixassem de funcionar, o que é bastante improvável. Basta ver que nestes primeiros dez meses de pandemia foram sequenciadas milhares de variantes do vírus e muito poucas têm poucas mutações dominantes - ou seja, não estão a surgir novas estirpes que são definitivamente mais infecciosas ou mais letais”. Além disso, as vacinas estão a ser desenvolvidas por diferentes equipas com estratégias diferentes e alvos diferentes. “Isto é óptimo porque significa que se várias se mostrarem eficazes, vamos ter disponível um cocktail de vacinas em vez de uma só.” 

Na Dinamarca, depois de resultados preliminares das investigações terem revelado que o vírus sofreu várias mutações e que pelo menos uma destas mutações ajuda o vírus a infectar visons e, por coincidência, deixa o vírus capaz de nos infectar a nós também, a consequência foi a decisão de abate de milhões de animais por prevenção. “Um completo desastre”, reconhece João Rodrigues, que deixa o aviso: “Este exemplo realça o cuidado que devemos ter se testarmos positivos para a covid-19: se tivermos animais de estimação, devemos fazer quarentena e excluir do nosso espaço, na medida do possível, os nossos animais; da mesma forma, se trabalhamos com gado, devemos evitar contacto próximo com os animais.”