Coronavírus

O abate de milhões de visons na Dinamarca já começou — e a decisão pode ter sido ilegal

Decisão foi tomada pelo Governo depois de ter sido encontrada uma mutação do novo coronavírus nos animais, o que pode prejudicar a eficácia de uma futura vacina — mas não teve base legal. Atenção: esta fotogaleria contém imagens que podem ser consideradas chocantes.

Visons abatidos na quinta de Henrik Nordgaard Hansen e Ann-Mona Kulsoe Larsen, em Naestved. 6 de Novembro Ritzau Scanpix/Mads Claus Rasmussen via REUTERS
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Visons abatidos na quinta de Henrik Nordgaard Hansen e Ann-Mona Kulsoe Larsen, em Naestved. 6 de Novembro Ritzau Scanpix/Mads Claus Rasmussen via REUTERS

O anúncio foi feito pela primeira-ministra no dia 4 de Novembro e, menos de uma semana depois, já está a ser concretizado: há milhões de visons a serem abatidos na Dinamarca. A decisão foi tomada depois de ter sido encontrada uma mutação do novo coronavírus nos animais, que infectou 214 pessoas. “A mutação do vírus via visons pode criar o risco de a futura vacina não funcionar como deveria (...). É preciso abater todos os visons”, afirmou Mette Frederiksen, numa conferência de imprensa.

A Reuters esteve em algumas quintas de produção de visons e fotografou o processo de abate, que começou imediatamente após o anúncio. As primeiras imagens foram captadas a 6 de Novembro, dois dias depois da decisão; esta segunda-feira, a agência noticiosa captou os visons a serem enterrados numa vala comum localizada num terreno militar. Mas já em Outubro havia registos de abate de animais, como mostram algumas imagens desta fotogaleria.​ A decisão tem motivado duras críticas por parte de pessoas da indústria, mas também legisladores, que alegam que a decisão foi ilegal, levantando também questões sobre a evidência científica que a motivou. O Governo já admitiu que não tinha bases legais para a medida e está a elaborar apressadamente legislação que suporte a decisão. 

Esta segunda-feira, o ministro do Ambiente e Alimentação, Mogens Jensen, enviou um email à Reuters onde lamentou a "falta de transparência" no processo. Jensen disse que o Governo iria avançar com uma "legislação de emergência" para apoiar a ordem de abate — ainda que a oposição tenha avisado que não permitiria que um rascunho substituísse aquilo que costuma resultar de um processo legislativo de 30 dias. Na terça-feira, a Administração Veterinária e de Alimentação dinamarquesa pediu desculpa aos produtores de visons numa carta, mas referiu que continuava a recomendar o abate. 

Os partidos da oposição defendem que o abate de visons saudáveis não deveria ter sido iniciado antes de os planos de compensação para trabalhadores e donos das 1100 quintas do país entrarem em vigor. Tage Pederson, responsável pela associação dinamarquesa de criadores de visons, alertou os produtores para continuarem o abate, apesar das dúvidas quanto à sua legalidade, e avisou que a indústria — que emprega seis mil pessoas e exporta pele de vison no valor de 800 milhões de dólares anualmente — estava acabada. 

No seguimento desta decisão, também na Polónia vão ser testados visons, trabalhadores de quintas e as suas famílias. A população destes animais da Polónia deve, no entanto, corresponder apenas a metade dos 17 milhões da Dinamarca. "A prioridade é verificar o estado de saúde dos animais nas quintas", disse, em comunicado enviado à Reuters, o Ministro da Agricultura polaco. As autoridades veterinárias polacas referiram que já tinham testes e infra-estruturas preparadas para este controlo desde Maio, mas não especificaram que tipo de testes já tinham sido feitos, ou se já tinham sido feitos. Alguns representantes de quintas de visons afirmam que foram, efectivamente, feitos testes — e que não mostraram qualquer infecção por covid-19 —, enquanto outros disseram que os testes não tinham acontecido. Questionada sobre testes e potenciais infecções nos visons, a entidade de inspecção referiu à agência de notícias que "não houve casos identificados", sem dar mais detalhes sobre o caso.

"Todos sabemos que este vírus não existe em quintas polacas", disse Tadeusz Jakubowski, veterinário e director da Associação Polaca de Criadores e Produtores de Animais de Pêlo. "Suspeito que alguém está a usar o coronavírus como pretexto para devastar a criação na Dinamarca, sem uma razão científica", atirou. A organização não-governamental Otwarte Klatki pediu que fossem feitos testes normais à covid-19 aos visons polacos: "É difícil acreditar que o problema não vá aparecer na Polónia mais cedo ou mais tarde. Talvez já exista, mas não sabemos", afirmou Pawel Rawicki. O país é, juntamente com a Dinamarca e a China, um dos principais produtores de visons a nível global. Cerca de 60 milhões são mortos, anualmente, nos três países, estima a Humane Society Internacional do Reino Unido.

A Dinamarca não é, contudo, o primeiro país a tomar esta decisão. Em Julho, a região de Aragão, em Espanha, decretou o abate de quase 100 mil visons, depois de 80% destes animais terem sido infectados com o novo coronavírus. A medida era uma forma de "evitar riscos para a população e a saúde pública", justificou na altura Joaquin Olona, ministro da Agricultura da região. No mesmo mês, mas umas semanas antes, foram os Países Baixos que tomaram a mesma medida: cerca de 10 mil foram abatidos.