Hospitais deverão suspender cirurgias não prioritárias para garantir resposta à covid-19

Suspender a actividade cirúrgica não prioritária, reforçar a capacidade de transporte de doentes entre hospitais, “elevar o nível de resposta” em todas as ARS e apertar as medidas de confinamento social. Eis as receitas para “achatar” a curva e preservar a capacidade de resposta hospitalar à covid-19.

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No Hospital de Pedro Hispano as 10 camas de cuidados intermédios para doentes com covid-19 está lotada Rui Oliveira (arquivo)

Com a sobrecarga provocada pela covid-19 a incidir de forma desigual nos diferentes hospitais do país, mais doentes deverão ser transferidos nos próximos dias e semanas entre hospitais e até mesmo entre regiões. E para garantir que todos os doentes têm acesso aos cuidados de saúde será preciso “fortalecer” o transporte inter-hospitalar dos doentes críticos, aconselha Artur Paiva, presidente do Colégio de Medicina Intensiva da Ordem dos Médicos.

“É natural que esse transporte de doentes entre hospitais e até entre regiões, que é um sinal da ‘bondade’ do sistema, possa aumentar. Logo, é preciso que a capacidade de transporte de doentes seja redimensionada para responder ao aumento da procura”, preconizou ao PÚBLICO.

Num dia em que o país contou 3040 doentes com covid-19 internados, dos quais 426 em cuidados intensivos, a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, afastou cenários de ruptura ao sublinhar que o Serviço Nacional de Saúde “funciona em rede” e que alguns dos doentes já estão a ser transferidos para unidades privadas. Além disso, “os hospitais de campanha ou de retaguarda também estão previstos no plano que existe para estes próximos meses em relação à pandemia”, acrescentou.

Segundo Artur Paiva, que também preside à Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para a Covid-19, dever-se-ia estar a activar desde já todas as camas possíveis para aumentar a capacidade da medicina intensiva: “É absolutamente fundamental que seja diminuída, ou até suspensa, a actividade cirúrgica electiva não prioritária, isto é, aquela em que o cidadão não vê o resultado clínico prejudicado pelo diferimento da intervenção, em favor da capacitação da medicina intensiva.”

Mas nem isso basta. Artur Paiva sugere ainda que todas as administrações regionais de saúde (ARS) devem “subir o nível de resposta”. “É verdade que não têm uma sobrecarga e uma pressão tão grande como a ARS/Norte, mas é possível que venham a ter e para já são um excelente backup para quando haja necessidade de transferência inter-regional de doentes”.

O confinamento do fim-de-semana demorará alguns dias a reflectir-se na curva de contágios e de mortes para, para Artur Paiva, o Governo devia desde já adoptar medidas mais restritivas dos contactos sociais durante a semana. “O confinamento ficou muito centrado no fim-de-semana, e compreensivelmente para tentar salvaguardar a actividade económica, mas creio que o período dos cinco dias da semana ainda favorece muitos contactos sociais que podem tornar as medidas adoptadas insuficientes. Na minha opinião dever-se-ia ir mais longe, com toda a gente que pode a fazer teletrabalho, por exemplo”.

Em Lisboa, no Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Norte, a que pertence o Hospital de Santa Maria, a capacidade do serviço está entre os 90% e os 95%. Em média, explica o director de medicina intensiva, João Ribeiro, os doentes com covid-19 ficam internados cerca de três semanas nos cuidados intensivos. E “a proporção de doentes com covid está a aumentar”, refere João Ribeiro. “É uma situação que caracterizo de emergência sanitária”, refere ao PÚBLICO.

E porque o país “não está ainda na fase de achatamento da curva”, o médico acredita que mais doentes covid vão continuar a chegar aos hospitais. “Santa Maria ainda não está no limite da capacidade de medicina intensiva, mas só vai ser possível à custa do abrandamento ou até da suspensão de actividade não prioritária”, acrescenta, para adiantar que será necessário “mobilizar profissionais de outras áreas” para este serviço.

O Hospital de Santa Maria, a par de São José (também em Lisboa) e do São João (no Porto), é centro de referência para o tratamento de doentes com ECMO, um dispositivo de circulação extracorporal. Tem 14 aparelhos e a taxa de utilização está perto dos 90%. Esta tem sido a solução de recurso para doentes covid mais graves, a quem a ventilação mecânica não tem dado resposta. “É um recurso muito complexo. Só médicos muito treinados conseguem aplicar esta técnica de forma segura. O nosso drama é que nos estamos a aproximar do limite de capacidade de intervenção nesse nível”, afirma ainda o médico, lembrando que este programa funciona numa lógica nacional (ou seja de interligação entre os hospitais em rede).

Este fim-de-semana, o Hospital São José, que pertence ao Centro Hospitalar e Universitário Lisboa Central (CHULC), recebeu quatro doentes com covid-19 da região Norte que necessitaram de ECMO. No total, o centro hospitalar tinha esta segunda-feira 136 doentes covid internados, mais cinco que na véspera. Destes, 117 estavam em enfermaria (3 deles em pediatria) e 19 em cuidados intensivos (todos adultos). “A lotação do CHULC é, de momento, de 181 camas, das quais 141 são camas de adultos, 12 camas em pediatria e 28 camas em cuidados intensivos. Estão no nível 3 do plano de contingência, mas o último (são 8) permite “a utilização de cerca de 300 camas em enfermaria e cerca de 90 em cuidados intensivos”, explica.

O Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra não é centro de referência, mas também trabalha com ECMO. E, esta segunda-feira, estão com 83 doentes internados em enfermaria e sete camas disponíveis. Nos cuidados intensivos, têm 17 doentes internados e duas camas disponíveis. No nível máximo são 49 camas.

“Para já ainda temos alguma reserva” a nível de capacidade, responde o CHUC, mas a actividade programada já está a ser afectada no Hospital dos Covões. “Por motivos de recursos de espaço físico e de recursos humanos ficou comprometida a actividade cirúrgica no pólo Hospital Geral e a actividade da Unidade de Cirurgia de Ambulatório”, que se localiza no mesmo hospital.

Hospitais sob pressão mas em rede 

Também o Hospital de Loures, na área metropolitana de Lisboa, está em pressão. Em cuidados intensivos, estão no nível 2 do plano de contingência. Das oito camas disponíveis para esta doença, sete estão ocupadas. Já o limite de camas em enfermaria foi ultrapassado, com 73 camas ocupadas. Estão no nível 3 do plano de contingência, que é o nível máximo, no qual estavam afectas 56 camas na enfermaria. Estão “a tentar transferir doentes”, refere fonte hospitalar, adiantando que a actividade programada “começa a ser afectada”. Têm conseguido transferir doentes “principalmente para o Hospital das Forças Armadas”.

O Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, cujo hospital em Penafiel foi o primeiro a entrar em ruptura, somava ontem 195 doentes internados com covid-19, dos quais 10 em cuidados intensivos. “Apesar de se notar um ligeiro abrandamento no Serviço de Urgência e testes a indiciar uma menor percentagem de positivos, é ainda prematuro falar-se no alívio da pressão sob a qual tem estado o CHTS e os seus profissionais”, adiantou o gabinete de comunicação.

No Centro Hospitalar Universitário do Porto, que abrange o Hospital de Santo António, a capacidade também roça o limite. Na unidade de cuidados intensivos, havia esta segunda-feira 27 internados, para um total de 34 camas disponíveis, o que dá uma ocupação de 79,4%. Quanto aos doentes internados em enfermaria, eram 135 num universo actual de 144 camas. A ocupação supera assim os 93%. Os responsáveis deste hospital garantem, porém, que será possível aumentar o número de camas “em caso de necessidade”.

Ainda no Grande Porto, o Hospital Pedro Hispano (HPH) qualifica a situação actual como “muito preocupante”, quer porque a capacidade de atendimento a doentes com covid-19 está “próxima da capacidade máxima” quer porque a cirurgia programada foi suspensa em 50%. Ontem, o HPH tinha ocupadas 107 das 120 camas afectas a doentes com covid-19. Entre os doentes internados, 83 estavam em enfermaria (para um total de 90 camas), 10 nos cuidados intermédios (onde todas as camas estão ocupadas) e 14 nos cuidados intensivos (para um total de 20 camas disponíveis).

Com 141 doentes com covid-19 internados (114 em enfermaria e 27 em cuidados intensivos), alguns dos quais provenientes de outros hospitais, o Hospital de Braga está, por seu turno, a aumentar o número de camas afectas à doença provocada pelo novo coronavírus.

Em Aveiro, o Hospital Infante D. Pedro, está a preparar o nível II do Plano de Contingência, “o que possibilitará o acréscimo de mais seis vagas”, segundo o hospital, que somava ontem 41 doentes internados com a doença provocada pelo novo coronavírus, alguns dos quais foram transferidos de Ovar e Penafiel.