Covid-19: quatro doentes críticos do Norte que precisam de ECMO tiveram de ser transferidos para Lisboa

A ECMO, um circuito extracorporal que substitui a função pulmonar, é accionada quando o tratamento convencional que inclui o ventilador não é suficiente.

Foto
“Dizer que é fácil e que vamos responder a todas as solicitações é contar a história da carochinha. Estamos num contexto pandémico” Tiago Petinga/Lusa

O Hospital São José, em Lisboa, recebeu quatro doentes com covid-19 da região Norte que necessitam de ECMO, um dispositivo de circulação extracorporal essencial ao tratamento de doentes críticos e que permite substituir temporariamente a função do coração e dos pulmões. “O Centro Hospitalar Lisboa Central (CHLC) [onde está integrado o Hospital São José], está a fazer resgates de ECMO (cuidados intensivos) de doentes covid-19 da região Norte”, indica, numa nota enviada à Lusa.

Na sexta-feira, foram recebidos doentes dos hospitais de Penafiel, Pedro Hispano, em Matosinhos, e de Bragança e este sábado um doente do Hospital de Guimarães. “Esperamos que o confinamento reduza nos próximos dias a pressão sobre o SNS [Serviço Nacional de Saúde]”, sublinha o CHLC, adiantando a que “a gestão dos doentes funciona em pleno entre as unidades”.

O Centro Hospitalar e Universitário de S. João, no Porto, os hospitais de Santa Maria e de S. José, ambos em Lisboa, são centros de referência para ECMO (Oxigenação por Membrana Extracorporal). Esta técnica foi introduzida no país há dez anos por causa da gripe A.

O Observador avançou que o São João esgotou a sua capacidade, daí que estes doentes tenham sido transferidos para hospitais da região de Lisboa, informação que foi confirmada ao PÚBLICO pelo gabinete de comunicação do hospital.

A mesma fonte adiantou que o São João é “o centro de referência em ECMO em Portugal com maior casuística no contexto da Península Iberica”, com uma média de 100 doentes admitidos por ano — tem, actualmente 17 doentes em ECMO, 11 dos quais covid-19, e há ainda uma vaga disponível.

Ao Observador, o coordenador do Centro de Referência de ECMO do São João, Roberto Roncon, afirma que houve “um número significativo de doentes que foram referenciados de hospitais do Norte do país”, aos quais o hospital não conseguiu dar resposta.

Em entrevista à Lusa, na semana passada, Roberto Roncon tinha explicado que esta “espécie de tecnologia de ponta”, que era encarada como “técnica de resgate de última linha”, começou a ser aplicada “mais precocemente” em doentes que se encontram em cuidados intensivos.

Mas é comum existirem transferências de doentes já que o sistema funciona em rede. O Hospital de São João já “resgatou” doentes dos Açores referenciados para ECMO e Lisboa, onde quer o Hospital São José, quer o Santa Maria têm resposta ECMO, já “veio buscar” ao Norte.

“Em pandemia é uma ilusão acharmos que temos os recursos ideais. Nunca vamos ter. Se perguntar se tenho os recursos ideais para o programa de ECMO, não. Mas também não temos para cuidados intensivos, nem para a urgência (...). Não podemos ter mais procura do que oferta. Dizer a verdade é uma forma de responsabilizar as pessoas”, refere o especialista do Hospital de São João Roberto Roncon.

Na entrevista, o coordenador é claro e directo sobre a capacidade de resposta dos hospitais: “Dizer que é fácil e que vamos responder a todas as solicitações é contar a história da carochinha. Estamos num contexto pandémico”.

O tempo que um doente necessita dessa técnica é “muito variável, mas na covid-19 é elevado” e esse, admite Roberto Roncon, “também é um dos factores de preocupação” actuais porque “é raro o doente que precisa de menos de duas, três semanas de ECMO e existem casos de um ou dois meses”. “Em termos de consumo de recursos isto é brutal”, admite.

Apenas uma minoria dos doentes precisa de ECMO

Na manhã deste domingo, em directo para a SIC Notícias, Roberto Roncon explicou que apenas uma pequena parte dos doentes que está nos cuidados intensivos vai efectivamente precisar destes aparelhos, que são usados no caso dos doentes que não respondem às medidas convencionais como o uso de um ventilador.

“Felizmente, apenas uma minoria dos doentes vêm a ter critérios para referenciação para um centro de ECMO. São menos de 10% dos casos, por volta dos 5% e estamos a falar de doentes num extremo de gravidade”, disse o médico.

E assim sendo, como afirmou o especialista, estes casos não representam um “estrangulamento nos cuidados intensivos” e o São João continua a ter capacidade para receber doentes. “Neste momento, a situação epidemiológica é mais grave no Norte, por isso é natural que exista mais pressão aqui. Acho que é um motivo de tranquilidade saber que existe um rede que actua a nível nacional”, referiu.

Ainda assim, Roberto Roncon mostra-se preocupado, não com a situação do ECMO, mas sim com o número crescente de doentes em cuidados intensivos com formas graves de doença. “Preocupam-me as próximas duas semanas, estaria a mentir se dissesse o contrário. Não há recursos ilimitados”, acrescentou, dizendo ainda que não há um problema de falta de ECMO, mas sim um problema no controlo da pandemia, que está a gerar uma enorme pressão sobre os serviços.

Flexibilidade e funcionamento em rede

Segundo Roberto Roncon, para garantir resposta a solução está na rede e não na generalização, até porque “os países que tentaram generalizar o ECMO tiveram resultados péssimos”. O especialista afirma que há alguma flexibilidade na gestão deste tipo de cuidados.

“Pessoas com experiência fazem com que a taxa de complicação diminua. Faz sentido concentrar equipas e experiência (...). Mas um doente covid-19 grave vai morrer porque está num hospital que não tem ECMO? Ideia errada. Desde há cerca de 10 anos existe a miniaturização [máquinas compactas e portáveis] dos circuitos extracorporais. Pode-se ir buscar um doente a outra unidade hospitalar e levar a um centro de ECMO”, descreve.

É o que acontece em Portugal. Há duas semanas, quando o Hospital de Matosinhos referenciou uma doente para ECMO, o Hospital de São José “veio” buscá-la, mas no dia seguinte o São João já teria mais folga, conta o médico.