Reuters/ALEXANDROS AVRAMIDIS
Foto
Reuters/ALEXANDROS AVRAMIDIS

Mutação do novo coronavírus em visons terá baixo risco, dizem cientistas

A “pressão evolutiva” do vírus em hospedeiros animais pode dar azo a mutações, mas esse é um processo comum e não acarreta necessariamente um maior risco, diz cientista. A medida de abater milhões de visons na Dinamarca foi “de precaução” e poderá travar “o processo de aquisição de mutações adicionais”.

A mutação do vírus SARS-CoV-2 detectada em visons e em mais de 200 pessoas na Dinamarca neste mês apresenta um risco pouco significativo no contexto da actual pandemia de covid-19, adiantaram à Lusa dois cientistas portugueses.

Apesar de a informação ter levado ao anúncio de medidas drásticas no país nórdico, nomeadamente ao abate de cerca de 15 milhões destes animais, e de a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) se terem também pronunciado, a virologista Maria João Amorim, investigadora principal no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), rejeitou eventuais alarmismos.

“Não há doença mais severa e a transmissibilidade nem sequer foi [uma questão] levantada. Não me parece, para já, preocupante”, disse a cientista, que se apoiou nos dados conhecidos para refutar um grande impacto na alteração da proteína Spike, que permite a ligação às células: “A imunidade é muito mais complexa. Além de impedir a entrada, há outros mecanismos que podem não impedir a entrada, mas resultam numa infecção menos severa.”

Por sua vez, o imunologista Luís Graça, professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, reconheceu que “as diferenças entre o animal e o ser humano dão um estímulo evolutivo para o vírus se adaptar e se tornar diferente” e que essa “pressão evolutiva” em hospedeiros animais pode dar azo a crescentes mutações, mas sustentou que esse é um processo comum entre vírus e não acarretam necessariamente um maior risco.

“Com os dados que temos disponíveis, não é uma variante que seja particularmente mais perigosa. Não se transmite mais do que outra variante — o que faz com que não haja uma pressão selectiva para que esta se vá espalhar mais depressa no mundo do que outra — e não causa doença mais grave do que as outras variantes que estão na comunidade”, sublinhou.

De acordo com o também investigador no Instituto de Medicina Molecular (iMM), a principal diferença na variante identificada nos visons na Dinamarca e que chegou aos seres humanos está na “redução moderada na capacidade dos anticorpos neutralizantes”. Como consequência, pessoas anteriormente infectadas com o novo coronavírus teriam maior probabilidade de poderem contrair nova infecção por esta variante.

“Pode fazer com que os anticorpos que são muito bons a neutralizar o vírus que evoluiu para infectar as nossas células já não sejam tão eficazes para neutralizar o vírus que evoluiu para infectar as células do animal”, referiu Luís Graça, sem deixar de citar um “risco potencial” desta situação sobre as vacinas actualmente em desenvolvimento: “As vacinas que estão a ser testadas induzem um tipo de anticorpos que é muito eficaz para o vírus que está em circulação na nossa comunidade, mas que poderia ser ligeiramente menos eficaz para esta variante”.

Maria João Amorim admitiu igualmente um efeito teórico sobre as futuras vacinas — como as já anunciadas pela empresa de biotecnologia Moderna (cujos dados provisórios indicam uma eficácia de 94,5%) ou pela farmacêutica Pfizer (90% de eficácia) —, mas vincou que o impacto ao nível dos anticorpos é muito distinto entre doentes recuperados, com uma correlação significativa com a gravidade da covid-19 desenvolvida.

“Não sabemos a quantidade de anticorpos neutralizantes que são necessários para bloquear a entrada do vírus. Poderia constituir um problema, mas a diminuição [de anticorpos] é mesmo muito pequena em termos de capacidade de neutralização. Nas pessoas com um elevado número de anticorpos não se observaram diferenças, mas nas pessoas que têm números intermédios ou baixos observaram-se diferenças de cerca de metade”, notou.

Considerando que “até ao momento ainda não apareceu nenhuma mutação que parecesse muito preocupante ou prejudicasse as vacinas”, a virologista do IGC disse ainda que a opção dinamarquesa de abater milhões de visons não passou de “uma medida de precaução”.

Já Luís Graça — que assinalou que o SARS-CoV-2 tem uma aquisição de mutações a um ritmo mais lento do que outros vírus, como o VIH, e que isso justifica por que razão é tão difícil uma vacina para o VIH, enquanto uma vacina para o SARS-CoV-2 é mais fácil de desenvolver —, defendeu que as “medidas radicais” do governo dinamarquês terão a virtude de “travar o processo de aquisição de mutações adicionais” sobre o novo coronavírus.

“Havendo mais circulação do vírus dentro dos visons, poderia divergir mais, acumular mutações maiores e fazer com que a eficácia [de futuras vacinas] se perdesse mais significativamente. Estes animais são muito susceptíveis a estes vírus respiratórios, que neles não causam doenças e se adaptam a esse organismo, acumulando, por isso, mutações de uma forma mais rápida do que aquilo que acontece entre os seres humanos”, concluiu.

Sugerir correcção