Um dia de luto nacional e um parque: as reacções à morte de Gonçalo Ribeiro Telles

Reagindo à morte do pioneiro da arquitectura paisagista em Portugal, António Costa lembrou a “enorme dívida de gratidão” do país e Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou “a consciência crítica esclarecida” deste ambientalista avant la lettre. Da Gulbenkian chegou uma mensagem de despedida ao co-autor dos seus emblemáticos jardins e da Câmara de Lisboa a notícia de que o Parque Urbano da Praça de Espanha vai ter o seu nome.

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O arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles em Dezembro de 2011 Rui Gaudêncio

O primeiro-ministro lembrou esta tarde que o país tem para com Gonçalo Ribeiro Telles uma “enorme dívida de gratidão” e que a sua morte é uma “perda inestimável”, manifestando-se confiante de que o legado do arquitecto paisagista perdurará.

Pioneiro e figura tutelar da arquitectura paisagista em Portugal, Ribeiro Telles morreu esta quarta-feira sua casa, em Lisboa, aos 98 anos, confirmou o PÚBLICO junto da família. O Governo decretou um dia de luto nacional, a cumprir na quinta-feira, e o presidente da Assembleia da República anunciou que a bandeira do Parlamento ficará simbolicamente a meia-haste.

“O país tem para com Gonçalo Ribeiro Telles uma enorme dívida de gratidão, quer no lançamento das bases da política ambiental em Portugal, quer no desenvolvimento de uma consciência ecológica”, escreveu António Costa na sua conta da rede social Twitter. Sendo um homem à frente do seu tempo, as ideias que defendia há 50 anos e eram então consideradas utópicas são hoje comummente aceites. A sua perda é inestimável. O seu legado, felizmente, perdura, e somos todos seus beneficiários”, acrescenta o primeiro-ministro.

Numa nota publicada no site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa quis lembrar também a intensa actividade política daquele que considerou “o mais destacado dirigente do Partido Popular Monárquico [PPM]”, “respeitado humana, profissional e politicamente por amigos, colegas e adversários, e pelos portugueses em geral”.

“Militante político e cívico, lutador pela liberdades e a democracia, foi fundador do Centro Nacional de Cultura e integrou vários movimentos da oposição monárquica no antigo regime, tendo sido também um dos fundadores e o mais destacado dirigente do Partido Popular Monárquico, exercendo ainda diversos cargos governativos na área do Ambiente, nomeadamente durante os governos provisórios em 1974 e 1975, mas principalmente nos da Aliança Democrática, da qual foi fundador e deputado”, sublinhou o Presidente da República, destacando ainda a “consciência crítica esclarecida” deste ambientalista e a sua contribuição “para importantes actos​ legislativos como a Lei De Bases do Ambiente ou a Lei do Impacto Ambiental, combates que prolongou na fundação de um partido ambientalista, o Movimento Partido da Terra”.

Num tom mais pessoal, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, homenageou o arquitecto paisagista cuja intervenção diz ter tido um papel fundador na sua própria carreira política: “Cresci a ouvir os seus ensinamentos, que, no exercício das funções públicas que fui exercendo (...), sempre reputei da maior relevância. Desde muito jovem que acompanhei o seu percurso, especialmente após as grandes cheias de Lisboa, em Novembro de 1967 – tragédia que tantas vidas ceifou, que Salazar quis esconder e contra a qual Ribeiro Telles se insurgiu na televisão, apontando o desordenamento como causa directa do sucedido. Um momento que marca o início da minha vida política”, recorda em nota publicada no site do Parlamento.

Ferro Rodrigues enumera ainda o legado político e legislativo de Ribeiro Telles – “na Lei de Bases do Ambiente, na Lei da Regionalização, na Lei Condicionante da Plantação de Eucaliptos, na Lei dos Baldios ou na Lei da Caça” –​, lembrando que foi graças à sua militância e ao seu visionarismo que em Portugal “se começou a ouvir falar de paisagismo, de estrutura verde, de corredores ecológicos – ainda nos anos 50 e 60, muito antes de estes temas se tornarem correntes”, e que o país “dispõe hoje de uma rede, não tão integrada quanto o foi nos remotos anos 80, de áreas dedicadas à salvaguarda da estrutura ecológica e à protecção de solos – a Reserva Ecológica Nacional e a Reserva Agrícola Nacional”.

Um parque para Ribeiro Telles

Reagindo ao desaparecimento de Ribeiro Telles, a Câmara de Lisboa, cidade que é este ano Capital Verde da Europa, anunciou que irá propor que o futuro Parque Urbano da Praça de Espanha, que deverá estar concluído no início de 2021, tenha o seu nome. “Ali, onde antes dominavam os prédios e as faixas de rodagem, ganham terreno as árvores, os caminhos pedonais, os espaços para descansar e cursos de água. Era assim a Lisboa de que Ribeiro Telles gostava.” 

Em nota enviada às redacções, a autarquia lembra ainda o “homem à frente do seu tempo” e o “vanguardista” que “pensava o território e buscava o difícil equilíbrio entre a paisagem natural e a paisagem transformada”​​​​. “As hortas urbanas, a permeabilidade dos solos, a luta contra a construção em leito de cheia foram alguns dos incontáveis combates nos quais se envolveu. Sempre na defesa do (bom) ordenamento do território”, diz a nota que a autarquia enviou às redacções, e na qual enumera “alguns dos frutos dos seus trabalhos e utopias”: “Os corredores verdes de Monsanto, de Alcântara e o Periférico, obras que agora são uma realidade, foram há muito também sonhadas por Ribeiro Telles.”

"Cansado de ter razão"

Também o conselho de administração da Fundação Calouste Gulbenkian, para a qual Gonçalo Ribeiro Telles desenhou os emblemáticos jardins do edifício-sede da Praça de Espanha, expressou “profundo pesar” pela morte do arquitecto, “figura ímpar” ligada àquela instituição “desde o primeiro momento”.

Isabel Mota, a presidente da fundação, recordou num comunicado “o amigo e visionário que inspirou gerações de arquitectos paisagistas” e que desenhou, em conjunto com António Viana Barreto, o jardim da Gulbenkian em Lisboa, “espaço que se tornou emblemático para todos os que diariamente [ali] esquecem o bulício da cidade”.

“Incansável defensor das cidades ecológicas e humanizadas, das reservas e parques naturais, dos jardins e das hortas urbanas, perante a ameaça constante dos interesses privados e corporativos”, Ribeiro Telles “viu, como poucos, o que reservava o futuro numa altura em que os alarmes das crise ecológica e climática ainda não soavam com a força de hoje”, nota ainda Isabel Mota, lembrando que o arquitecto paisagista era “um homem profundamente cansado de ter razão que tantas vezes viu a cidade tomar um rumo contrário à visão que, sabiamente, defendia, baseada num profundo conhecimento e num amplo bom-senso”.

"Sinónimo de serviço público"

Lamentando a morte de Ribeiro Telles, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, considerou que o país perdeu esta quarta-feira não só “o talento de um dos seus grandes arquitectos, mas também uma voz que transformou a defesa do ambiente num posicionamento cultural”.

Numa nota de pesar enviada às redacções, a ministra evoca “o longo percurso pessoal e profissional de Gonçalo Ribeiro Telles (...), sinónimo de serviço público e espelho do impacto vasto que a sua acção teve na sociedade portuguesa, na formação da nossa consciência ecológica e na profunda transformação que as suas ideias inovadoras operaram na forma como olhamos para o ambiente”.

“Gonçalo Ribeiro Telles abriu horizontes e ensinou-nos a ler e conhecer o território como um todo, bem como a compreender a importância central da sua preservação. Desta forma, mostrou-nos que a ecologia é, também, uma dimensão fundamental do nosso património cultural. Da sua intervenção pública na área da cultura destaca-se o papel central que teve na fundação do Centro Nacional de Cultura, que comemora este ano 75 anos e do qual era o sócio número um, [e] cuja identidade será sempre inseparável da sua visão idealista e do seu compromisso apaixonado”, acrescenta ainda Graça Fonseca.

Também do gabinete do ministro do Ambiente e da Acção Climática, João Pedro Matos Fernandes, chegou um voto de pesar que recorda o empenho de Ribeiro Telles “na defesa do ambiente e na valorização do mundo rural”, bem como a sua “acção decisiva na consagração da Reserva Ecológica Nacional e na Reserva Agrícola Nacional”.

“Conhecido por obras marcantes de paisagismo – para lembrar apenas algumas, como as do Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian e do Cabeço das Rolas, em Lisboa – Gonçalo Ribeiro Telles foi sobretudo um ilustre defensor da causa pública ambiental, para a qual contribuiu com as suas ideias, planos e projectos”, conclui a nota do ministro do Ambiente.

"Um homem de causas"

Também os seus pares quiseram esta tarde sublinhar o “legado absolutamente extraordinário” de Ribeiro Telles. ​Gonçalo Byrne, presidente da Ordem dos Arquitectos, recordou em declarações à agência Lusa a “figura incontornável da arquitectura paisagista” e o “homem de causas” a quem se devem intervenções tão emblemáticas como o corredor verde e os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, ambos em Lisboa.

“Tomou posições extremamente importantes para a cidade, algumas delas completamente antes do tempo, e os temas que defendia estão hoje em cima da mesa, a questão do ‘Green Deal, a sustentabilidade”, acrescentou Gonçalo Byrne.

Já o presidente da Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas (APAP), Jorge Cancela, lembrou o “visionário de uma sociedade equilibrada, democrática, justa e sustentável” que “felizmente ainda foi reconhecido em vida, mas só vai ser melhor compreendido à medida que o tempo for passando”. 

Figura tutelar da defesa da ecologia, Gonçalo Ribeiro Telles foi o responsável pelo lançamento da política de ambiente em Portugal, cuja legislação incentivou quando passou por vários cargos públicos, nomeadamente como deputado e como ministro de Estado e da Qualidade de Vida, entre 1981 e 1983.

Considerando-o “uma inspiração para todos nós”​, ​Jorge Cancela sublinha que o arquitecto paisagista “via o ambiente como o suporte da vida, e a paisagem como suporte da memória, fazendo uma ligação muito coerente entre o passado, o presente e o futuro que transportou para a arquitectura paisagista, e também para a área cívica e política”. “Recebemos agora a grande responsabilidade de defender, desenvolver e promover o seu imenso legado, sempre assumido com sentido de missão”, diz o presidente da APAP.

Para Nuno Sampaio, director da Casa da Arquitectura, em Matosinhos, Gonçalo Ribeiro Telles teve um “papel fundamental” ao pôr o planeamento e ordenamento territorial na “ordem do dia (...) numa época em que estes temas eram poucos discutidos”.

Pesar à esquerda e à direita

Dos partidos, incluindo o PPM, que ajudou a fundar, chegaram igualmente reacções de pesar pela morte de Ribeiro Telles. “Quando, em 1974, juntamente com outros nomes, Gonçalo Ribeiro Telles tomou a decisão de corajosamente assumir a criação de um partido monárquico, com princípios inovadores para altura – e [de] que hoje tantos se aproveitam – como a ecologia, era já um homem à frente do seu tempo. Visionário como arquitecto paisagista, não deixou de o ser também no campo da política quando, em 1979, esteve na formação daquele que foi o primeiro governo de maioria absoluta em Portugal após o 25 de Abril”, frisa o presidente do PPM, Gonçalo da Câmara Pereira.

Também o Partido da Terra (MPT), de que foi igualmente fundador e era presidente honorário desde 2007, manifestou “profundo pesar”, recordando Ribeiro Telles como um “humanista na verdadeira acepção da palavra, pioneiro do ecologismo na política portuguesa, mestre de muitos arquitectos paisagistas, um vanguardista na compreensão da paisagem sob o ponto de vista holístico e um visionário nas políticas de ordenamento do território”. O MPT lembra que o arquitecto paisagista responsabilizou “sempre a florestação em monocultura” pela “destruição dos sistemas agrícolas comunitários” e destacou ainda “a ousadia e coragem” que em 1967 demonstrou, denunciando “que na origem das cheias desse ano, que provocaram mais de 500 mortos na noite de 25 para 26 de Novembro, estavam os problemas do desordenamento do território (...) e as carências quanto à habitação”.

O grupo parlamentar do PS, que recorda o seu regresso ao Parlamento como deputado independente eleito nas listas do partido em 1985, elogia o “monárquico convicto” que “primou sempre pela defesa intransigente dos valores da democracia e da liberdade, pelos quais, aliás, lutou durante o Estado Novo, tendo apoiado a candidatura presidencial de Humberto Delgado em 1958 e, mais tarde, em 1969, integrado, com a Comissão Eleitoral Monárquica, as listas às eleições da Acção Socialista Portuguesa, liderada por Mário Soares”.

Da direcção do PSD chegou uma nota que manifesta “grande consternação” pela morte de Ribeiro Telles e afirma a “marca indelével” que deixou na área do ambiente aquele que foi um dos “pioneiros do ecologismo na política portuguesa”. O agora desaparecido arquitecto paisagista, lembra o comunicado assinado pelo presidente do partido, Rui Rio, teve “um papel determinante no estabelecimento de um regime sobre o uso da terra e o ordenamento do território, ao criar as zonas protegidas da Reserva Agrícola Nacional, da Reserva Ecológica Nacional e as bases do Plano Director Municipal”, e “ajudou ainda a escrever o articulado do capítulo da Constituição sobre Ambiente, deixando assim a sua marca indelével neste sector tão actual”.

O PSD recorda ainda a sua passagem como ministro de Estado e da Qualidade de Vida pelo Governo liderado por Pinto Balsemão, entre 1981 e 1983, e, antes disso, em 1979, o seu papel na vitória eleitoral da Aliança Democrática enquanto subscritor daquela coligação de centro-direita juntamente com Francisco Sá Carneiro e Diogo Freitas do Amaral.

Também o Livre quis assinalar “a importância que a criação da Reserva Ecológica Nacional e da Reserva Agrícola Nacional tiveram para a modernização do ordenamento do território em Portugal”, não deixando de lamentar “a forma como estes importantes instrumentos foram sendo desconstruídos em governos posteriores”.

Tal como o PSD, o Livre lembra que o arquitecto paisagista foi um dos autores do articulado da Constituição Portuguesa sobre o ambiente e cita o n.º 1 do artigo 66.º da lei fundamental: “'Todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender’. Ribeiro Telles partiu mas o seu pensamento, bem ilustrado neste artigo da Constituição, perdurará, e a sua luta por um meio ambiente mais sustentável e equilibrado deixa inúmeros herdeiros em Portugal.”