Na Lisboa Capital Verde 2020, a cidade vai preparar a próxima década

Vão ser muitas actividades, debates e conversas sob o mote “evoluir”, a palavra de ordem da Lisboa Capital Verde Europeia 2020. Cidade recebe em 2020 a Conferência dos Oceanos da ONU.

Praça de Espanha
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Obras na Praça de Espanha vão contribuir para a retirada de carros do centro da cidade Daniel Rocha

Lisboa não foi escolhida como Capital Verde Europeia para o ano de 2020 por ser a cidade mais sustentável. “Ganhou porque foi a cidade que evoluiu em todos os parâmetros ambientais – energia, água, mobilidade, resíduos e infra-estrutura verde e biodiversidade. Evoluímos muito.” O vereador do Ambiente, José Sá Fernandes, arrancou assim a apresentação da programação da Lisboa Capital Verde Europeia 2020, munido de alguns números que para ele comprovam a razão pela qual a Comissão Europeia distinguiu a capital como sendo exemplo na aposta em políticas de preservação do ambiente.

Entre 2004 e 2017, a Câmara de Lisboa reduziu em 46% o seu consumo de água. Em toda a cidade, essa redução foi de 33%. As emissões de dióxido de carbono no município diminuíram 42% de 2002 a 2016. “Já ultrapassamos a meta que estava prevista para 2020”, nota o vereador, que lembra o “grande salto” dado na recolha selectiva – essa taxa está hoje nos 28% (em Portugal Continental rondou, em 2018, os 18%) e a taxa de reciclagem e preparação para reutilização de 34,4% (a nível nacional andou, em 2018, nos 40%). Só entre 1 a 3% dos resíduos vão para aterro, notou Sá Fernandes.

Se estes dados serviram para convencer a Comissão Europeia, que promove esta iniciativa, que Lisboa é verde o suficiente para ser a Capital Verde Europeia em 2020, Sá Fernandes diz que o município ganhou porque também “provou que pretende continuar a evoluir, assumindo compromissos ambiciosos” para o futuro. “Evoluir” é, de resto, “a palavra de ordem” da autarquia para o próximo ano. Por isso, tudo o que se passará na capital, em 2020, vai servir para projectar o futuro, pelo menos, na próxima década.

O presidente da câmara, Fernando Medina, quer “usar o galardão como uma grande alavanca política”. “Não vamos usar o galardão para um passeio de vaidades, mas para puxar por esta agenda da sustentabilidade que é absolutamente crítica nos nossos dias.” Para isso, o município propõe-se a reduzir em 60% as emissões de dióxido de carbono até 2030 e atingir a neutralidade carbónica até 2050. 

Tornar a cidade resiliente às alterações climáticas é outro dos objectivos. Isso faz-se, por exemplo, com mais áreas verdes e plantando mais árvores. Segundo as contas da autarquia, entre 2017 e 2021 deverão estar plantadas 100 mil árvores. Nesse ano, Lisboa deverá ter mais 347 hectares de área verde do que em 2008 e a autarquia quer que cerca de 85% da população viva a menos de 300 metros de um espaço verde com pelo menos 2000 metros quadrados. 

As obras na Praça de Espanha também deverão ficar prontas para o ano, assim como o corredor verde de Alcântara. Para Sá Fernandes, estes projectos são exemplos do que se deve fazer para tornar as cidades resilientes às alterações climáticas: menos carros, mais árvores, mais área verde para reter água, mais biodiversidade. 

A câmara quer ainda criar mais 300 talhões de hortas urbanas, chegando assim aos mil e ter 25 parques hortícolas (hoje tem 20) até 2021. A autarquia compromete-se ainda a rever o plano de ruído e georreferenciar as árvores de Lisboa, “pelo menos as mais importantes”, notou o vereador. A edição de 2020 do orçamento participativo, que duplicou a sua dotação para os cinco milhões de euros, vai ser dedicada às ideias verdes. 

Mais informação

A Lisboa Capital Verde Europeia 2020 quer ser também uma cidade mais transparente na informação que presta aos seus munícipes. “O centro da capital verde é o nosso trabalho colectivo enquanto cidade”, disse Medina, convocando assim os lisboetas, as empresas e instituições, as juntas de freguesia, as escolas, as universidades a envolverem-se nesta mudança tão necessária e a mostrar os “bons exemplos”. Sá Fernandes anunciou, inclusive, que a câmara de Lisboa vai “patrocinar uma cátedra” sobre alterações climáticas numa instituição do Ensino Superior.

A câmara de Lisboa traçou ainda um conjunto de compromissos para atingir na próxima década. A começar pela aposta na energia solar, instalando painéis solares em 27% dos telhados com melhor potencial solar. Dotar a cidade com 410 novos autocarros “de elevado desempenho ambiental” até 2023, duplicar a frota de eléctricos rápidos, aumentar em 40% de oferta de transporte público rodoviário na área metropolitana e ter ciclovias que liguem toda a cidade para que sete em cada dez viagens sejam feitas em transportes públicos e modos activos. 

Para o futuro, um dos “objectivos verdes” do município é passar a usar água reciclada na lavagem de ruas e regas de jardins em toda a cidade, até 2025. Alargar a recolha selectiva porta-a-porta de biorresíduos a toda a cidade e melhorar os números da recolha selectiva e da taxa de reciclagem são também objectivos. Um dos “ex-líbris do ano”, que o vereador espera ver pronto no final de 2020, é o Eco Centro e Centro de Interpretação de Resíduos e Energia no Parque das Nações. 

Conferência dos Oceanos

A Lisboa Capital Verde Europeia 2020 abre oficialmente a 10 de Janeiro, no Parque Eduardo VII, com uma festa no Pavilhão Carlos Lopes, que contará coma presença do secretário-geral da ONU, António Guterres, do presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do primeiro-ministro, António Costa. No dia 11, inaugura uma exposição no Oceanário de Lisboa, cujo tema será o mar português. No dia 12, serão plantadas 20 mil árvores pela cidade.

A programação, que ainda não é conhecida na totalidade, visa sobretudo o debate “sem medo nenhum da discussão”. Haverá conversas sobre ambiente e alterações climáticas, saúde e alimentação saudável. E eventos internacionais como a Conferência dos Oceanos, das Nações Unidas. Haverá ainda um ciclo de conferências nacionais a decorrer na Academia das Ciências de Lisboa. 

Na programação constam ainda várias exposições: Jardins Históricos e Botânicos de Portugal, na Biblioteca Nacional, Viagem pela Ilustração Científica em Portugal, no Museu Nacional de História Natural, A Flora Fulminense, na Torre do Tombo, Cultivar. As Hortas de Lisboa, no Museu de Lisboa Palácio Pimenta, Gabriela Albergaria, na Culturgest, 10 anos do Grupo do Risco, no Museu Nacional de História Natural, Silva Porto e Esculturas Animistas de João da Silva, na Sociedade de Belas Artes, Lixo Luxo no MUDE. Vai haver um museu improvisado na doca de Alcântara, o ReMuseu, que inaugura em Abril, sobre economia circular.

Toda a programação poderá ser consultada, a partir de 6 de Dezembro, no site lisboagreencapital2020.com. De acordo com o orçamento municipal, o investimento previsto para Lisboa Capital Verde Europeia é de 60 milhões de euros.

Esta sexta-feira, já depois da apresentação da programação, o vereador do PSD, João Pedro Costa, lamentou que as forças políticas que compõem o executivo não tenham sido ouvidas na definição das actividades que vão acontecer ao longo do ano. “Trata-se de um momento alto para a cidade, é uma pena que o programa se prepare em círculo fechado”, disse o social-democrata numa nota enviada aos jornalistas. “O PSD esteve disponível para dar contributos, disse-o atempadamente, mas simplesmente não houve vontade”, notou.

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