Precisa-se de quem saiba falar de covid-19. Entrada imediata

Podia ser um anúncio de emprego. O Governo português e a Direcção-Geral da Saúde não souberam falar com os portugueses e isso teve impacto na pandemia. É preciso mudar rapidamente, defendem especialistas.

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As conferências de imprensa da DGS são actos de legitimação política, e não acções de comunicação de risco. Precisa-se de outra coisa, dizem especialistas josé SENA GOULÃO/LUSA

O Governo português preparou bem o país para a segunda vaga da covid-19? Não, falhou em vários pontos fundamentais, convergem vários especialistas com os quais o PÚBLICO falou. Uma das falhas foi a comunicação com os cidadãos, essencial para mudar comportamentos que barrem o caminho a infecções, como o uso da máscara. Quanto à conferência de imprensa tri-semanal (começou por ser diária) da Direcção-Geral da Saúde e membros do Governo (primeiro lado a lado, agora já separados), acabe-se com ela.

“A meu ver, só se alterarmos o comportamento das pessoas é que conseguiremos evitar um novo confinamento. Temos de voltar a conseguir dialogar com as pessoas, a consciencializá-las. Não é responsabilizá-las, é consciencializá-las”, frisa Tiago Correia, professor associado de Saúde Internacional e investigador sénior no Global Health and Tropical Medicine, unidades do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa.

E isso não acontecerá mantendo os protagonistas que os portugueses se habituaram a ver na televisão a debitar números da pandemia – a directora-geral da Saúde, Graça Freiras, a ministra da Saúde, Marta Temido, ou os secretários de Estado da Saúde. “A directora da DGS ficou associada à política e, como perita, perdeu a confiança dos cidadãos, por ter ficado associada aos políticos, nos quais os cidadãos e cidadãs não confiam”, diz por sua vez José Manuel Mendes, coordenador do Observatório do Risco - OSIRIS, com sede no Centro de Estudos Sociais, na Universidade de Coimbra.

“Esta ainda é uma hipótese, tenho de a testar, temos de fazer inquéritos”, admite Mendes. Mas o que tem visto, sublinha o sociólogo, “não é comunicação de risco, é basicamente transmissão de informação para a comunicação social, e controlo da narrativa”. Por isso não tem dúvida: “Aquelas conferências não são comunicação de risco, deixaram de o ser há muito tempo e deviam acabar, são uma legitimação da narrativa política...”

O pneumologista Jaime Pina viu inúmeros sinais de uma comunicação disfuncional. “A estratégia comunicacional esteve muito mal, muito baseada nos números. Aqueles briefings da DGS que já ninguém vê. Não podemos esquecer que mais de dois milhões portugueses têm mais de 65 anos. Não podemos esquecer que as organizações internacionais dizem que Portugal é dos países com maior iliteracia em saúde. Nós somos dos países da União Europeia com menor acesso aos media”, sublinha. 

“Fez-se uma comunicação baseada em números para quê? Para chegar aos órgãos de comunicação social. Ora isto não chegou a ninguém e por isso é que há uma população que na sua maioria não tem mensagens interiorizadas”, completa Jaime Pina, membro da direcção da Fundação do Pulmão.

Os cidadãos estão cansados daqueles rostos, já não acreditam naquelas imagens, naquelas vozes, naquele discurso, frisa Tiago Correia. “Não é um julgamento sobre a sua competência, é uma constatação.” É que sem haver medicamentos, ou vacinas, interroga Jaime, Pina, o que resta? “As velhas medidas de combate às infecções, que são eficazes. Não é por acaso que a China não tem casos. Não sendo uma democracia, com tudo o que de mal que isso acarreta, não esteve oito meses à espera de tornar a máscara obrigatória”, como nós.

Mas, para que a comunicação de risco seja eficaz, é preciso segmentar os públicos-alvo e encontrar interlocutores capazes de fazer chegar as mensagens a esse público. “Vozes que criem menos ruído, que cheguem mesmo às pessoas, porque claramente com estes as pessoas já desligaram”, frisa Tiago Correia.

“Vão buscar os youtubbers e os influencers, se for preciso, e os artistas, as pessoas que têm capacidade de passar as mensagens necessárias para os jovens”, sugere José Manuel Mendes. “Quem tem mais seguidores no TikTok?”

É preciso confiança

Isto não quer dizer, no entanto, que devamos continuar a ter um espaço público povoado por tantas cabeças falantes que às tantas é impossível saber quem são, ou quem está correcto – na verdade, isso é o que está a acontecer, diz José Manuel Mendes: “O campo está muito cacofónico, há muitas vozes a falar, o representante dos Médicos de Saúde Pública, a Ordem dos Enfermeiros, a Ordem dos Médicos, e as conferências diárias”, enumera. Isto para não falar nos comentadores políticos puros e duros, como Paulo Portas ou Marques Mendes, cujas aparições nos media “podem parecer informativas mas não são”, frisa o especialista em avaliação de risco.

“Em Portugal, as instituições em que as pessoas tinham mais confiança eram os bombeiros e o INEM, e depois os peritos, os cientistas, os professores. A comunicação de risco no caso da covid-19 baseou-se no modelo convencional antigo, aquilo a que se chamava a compreensão pública da ciência, ou seja, parte-se do princípio que o cidadão é ignorante, e que temos de lhe dar os dados para compreenderem o que são os factos. Mas as pessoas são co-produtoras, vão analisar e avaliar, desde logo, a legitimidade de quem está a comunicar. E só se coopera se houver confiança”, explica José Manuel Mendes.

Um exemplo? “As pessoas têm de ter confiança nas instituições para ter a Stay-Away Covid no telemóvel, e não a estão a usar porque não confiam na forma como foi instituída e não querem o estigma de estar inseridos numa base de dados de pessoas que tiveram a doença”, afirma o sociólogo.

“A nossa falta de preparação teve muito a ver com a falta de capacidade para fazer rastreios e a má comunicação. As pessoas só ouviram que morreram não sei quantas pessoas, e mais não sei quantas estavam internadas, e quando muito a informação vinha dividida por cinco regiões. Ora isso não é nada para as pessoas, é completamente abstracto”, afirma o investigador.

“A etapa de reforço do sistema nacional de saúde foi muito bem tratada”, assevera o pneumologista Jaime Pina. “Mas a estratégia comunicacional com a população falhou e essa é que permitiria efectivamente diminuir o número de casos. Não transmitiu às pessoas as regras que deviam ter interiorizado, e fez com que existissem mais casos na segunda onda de infecções pelo novo coronavírus, que teria sempre que existir. Houve na Gripe Asiática, na Gripe de Hong Kong, há sempre duas ondas, é uma regra…”

Perceber a nossa bolha

Mas o pior, constata Tiago Correia, é que tudo isto pode não chegar para evitar um novo confinamento. “Lamentavelmente acho que não. Em virtude de haver um descontrolo nas cadeias de transmissão, uma falta de capacidade de voltarmos a rastrear todos os casos.”

É aqui que entra a urgência de melhorar a comunicação, para mudar rapidamente a forma como agimos. “Só os nossos comportamentos é que nos podem salvar neste momento. É crítico que no próximo mês, até voltarmos a reduzir o número de casos, e voltarmos a ter capacidade de rastreio, as pessoas interiorizem a ideia da bolha: apelar às pessoas que restrinjam ao mínimo o número de pessoas com quem têm contactos de risco.”

Esse mínimo é o seu agregado familiar, os seus filhos, os seus pais. E como perceber quem está fora da sua bolha e pode ser um contacto de risco? “Um exercício engraçado é pedir às pessoas que escrevam num papel o número de pessoas com quem está, sem máscara, em sua casa. E verá que um amigo foi lá jantar, um amigo do filho, um avô que já não via há muito tempo, etc, etc. Quando começam a escrever num papel vêem que tem muitos contactos que não podem ter, infelizmente…”

Mas a falta de clareza na comunicação e nos objectivos pretendidos persiste, nota José Manuel Mendes. “Agora estamos em estado de emergência, para salvarmos o Natal. Mas eu gostava de saber, o que é se pretende salvar no Natal - as dinâmicas familiares, ou a dinâmica comercial? A mensagem nunca foi clara, sobre o que pretendemos e como podemos chegar lá.”