Relatos da caixa de um supermercado

Depois de muito sofrer e quase largar tudo, eu e a minha esposa conseguimos emprego no mesmo sítio: um supermercado. Hoje estamos entre facturas, caixas de produtos e clientes. É desse cenário que pretendo retirar as histórias que contarei por aqui.

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Adriano Miranda

Sou filho de dois países: meu pai brasileiro e minha mãe portuguesa. Cresci num bairro de classe média da zona norte do Rio de Janeiro: a Tijuca. Nas reuniões de família, a metade portuguesa enchia os pulmões para celebrar que “uma casa portuguesa fica bem com pão e vinho sobre a mesa” e mesmo com “tantas léguas a separar-nos” sempre tive um sonho de passar algum tempo vivendo em terras que contribuíram com 50% do meu código genético.

Visitei Portugal em 2012, a paixão solidificou-se e viemos – eu e, hoje, minha esposa – fazer o mestrado em 2015. Foram dois anos intensos, vivendo para estudar. Voltamos para o Brasil em Julho de 2017. Entretanto, nessa fase de mestrado, não convivemos com muitos portugueses e sofri, pelo que me lembro, dois casos de xenofobia: o primeiro na fila para pagar uma despesa, quando o funcionário claramente mudou a forma de tratamento quando ouviu o “brasileiro”; e o outro quando uma senhora nos mandou “pegar no nosso cão e voltar para nossa terra, porque estávamos aqui para roubar empregos e sujar as ruas.”.

Em 2018, a minha esposa recebeu um convite da antiga orientadora de mestrado para tentar uma vaga no doutoramento. O Brasil já estava a caminhar para o governo Bolsonaro e a área de cultura e comunicação já estava a sentir o efeito de Jair Messias. Chegávamos para a segunda temporada em Portugal, mas dessa vez sem a estrutura para só viver do estudo e então precisamos de trabalhar. Por sorte, consegui um trabalho na área como editor de vídeo, até ao início da pandemia do novo coronavírus. A minha esposa já começou na saga que a maior parte de nós imigrantes vivemos: restauração. Em Março, foi demitida e em Julho fui eu. Depois de muito sofrer e quase largar tudo, conseguimos emprego no mesmo sítio: um supermercado. Hoje estamos entre facturas, caixas de produtos e clientes. É desse cenário que pretendo retirar as histórias que contarei por aqui. Como cineasta que sou pretendo tornar esses relatos os mais visuais que minha modéstia escrita permitir.

Costumo apanhar boleia de uma colega na ida e volta do trabalho. Nota-se que teve uma “vida vivida": os cabelos começam a evidenciar o grisalho e as preocupações vão dando linhas ao seu rosto. Trabalhar num mercado não é fácil, envolve um desgaste físico acentuado.

Continuo a procurar oportunidades na minha área e perguntei a essa colega, numa daquelas conversas despretensiosas que ajudam a matar o silêncio da falta de intimidade: “Porque será que está tão difícil trabalhar na área? As vagas estão abertas, os currículos são mandados, mas não há feedback.” Ela respondeu-me, entre baforadas no cigarro: “Na primeira vez que chegaram muitos brasileiros a Portugal, ficámos com a sensação de que vieram tirar os trabalhos aos brancos.” Eu calei-me, cheguei a casa, despedi-me e fui tentando, durante algum tempo, entender o que ela quis dizer com “brancos”. Não existem negros portugueses? Este solo durante muitos anos foi dominado por mouros. Portugal fundou a prática da escravidão como negócio chave no processo de colonização das Américas, roubando vidas negras e levando como carga para alimentar um estilo de vida ocidental.

Termino a minha reflexão de hoje com essa última pergunta: até quando o preconceito vai continuar sendo normatizado e estimulado? É papel do Estado evidenciar as mazelas e problemas da vida em sociedade, mas parece-me que andam mais preocupados com a economia do que com a vida das pessoas.