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Timothy: “Nasci na Bélgica fisicamente, mas intelectualmente nasci em Portugal”

Cantor belga, celebrizado na década de 1970 por êxitos como Mona Lisa, lança em 2020 um novo livro de poesia, como forma de curar velhas feridas. Portugal, onde viveu vários anos, continua a ser uma referência.

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Timothy Hagelstein DR

Ficou célebre em Portugal nos anos 70 do século passado por canções como Mona Lisa. Belga, assinava Timothy nos discos e agora assina Timothy Hagelstein nos livros. Já lançou dois, de poesia, em França e em Portugal. O mais recente, editado originalmente em Paris, em Maio, por Les Editions du Panthéon, chega ao mercado português em edição bilingue pela Guerra & Paz.

Nascido em 1951 em Verviers, na região belga da Valónia, Timothy chegou a Lisboa após o 25 de Abril, como recorda ao PÚBLICO: “Cheguei a Portugal num período pós-revolucionário, em 1976, e havia ainda estigmas da revolução, mas também do período da ditadura, porque não é em dois ou três anos que essa liberdade nova se instalava no país sem problema nenhum.”

Mas começou na Bélgica: “No princípio eu integrava um grupo de músicos que acompanhava nomes famosos da canção francesa, como baterista. Mas também tocava guitarra e já fazia músicas minhas.” Em 1975, apresentou a um produtor uma dessas canções, Mona Lisa. “É uma ode a Leonardo da Vinci. Assinei um contrato e foi um grande sucesso na Bélgica. A partir daí, a minha editora mandou os temas para Portugal, onde, logo após a revolução, não chegavam muitos cantores de variedades. E então apareci eu, junto com o Art Sullivan, e tivemos a sorte de ser os primeiros.”

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Timothy vendeu mais de 6 milhões de discos nos anos 70 do século passado

E fizeram enorme sucesso. Com êxitos como Mona Lisa (que, lançada em single em 1975, foi três vezes disco de ouro) Lady love ou C’est la vie, c’est jolie, Timothy vendeu mais de 6 milhões de discos. E Art Sullivan, outro cantor belga, seguiu idêntico caminho, com canções populares como Petite demoiselle ou Petite fille aux yeux bleus (nascido em 1950, em Bruxelas, Art Sullivan morreu em 27 de Dezembro de 2019 de um cancro no pâncreas).

Música, pintura, poesia

Timothy continuou a gravar canções até meados dos anos 1990, com alguns hiatos em que se dedicou à produção de discos e também de música para filmes. É, por essa altura, também eleito vice-presidente da Sociedade Belga de Autores, Compositores e Editores (SABAM). “Quando já tinha terminado as minhas funções na SABAM gravei mais dois álbuns, um dos quais duplo, com a Orquestra Sinfónica da Macedónia.” O primeiro destes álbuns, Les Sentiments Abstraits, foi editado em 2016, em formato disco-livro; e o segundo, L’intranquille Exil, mantendo o formato, saiu em 2018 em CD duplo com 26 canções, metade delas gravadas com a Orquestra de Skopje. Entre elas, Os Portugueses, escrita por Tozé Brito e gravada em português e francês.

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Depois não abandonou a música, continuou (e continua ainda) a trabalhar em bandas sonoras, em particular para televisão. Mas começou também a dedicar-se à pintura e à poesia, publicando em 2019 Les Eaux Silencieuses, editado também em Portugal (Águas Silenciosas) pela Guerra & Paz, em edição bilingue. E é na mesma editora que volta a publicar agora em Portugal, em 2020, o seu segundo livro, Langages Impossibles, editado em Maio, em França, por Les Editions du Panthéon e recém-lançado no mercado português (bilingue, de novo) como Linguagens Impossíveis.

“Já há muitos anos que escrevo poesia e mostrava-a às editoras para os meus discos. Mas, com pena minha, elas recusavam-na porque a achavam demasiado complicada e pouco vendável.” Até que, um dia, resolveu enviar esses seus poemas a cinco editoras de livros, quatro francesas e uma belga. “Recebi quatro respostas positivas dos franceses e nenhuma dos belgas. Escolhi aquela que me pareceu a melhor proposta e assim foi editado o meu primeiro livro.” Recebeu várias críticas positivas e aventurou-se no segundo.

Já as edições portuguesas têm outra história. “Mostrei o primeiro livro a uma amiga minha, para ela ler, e, a princípio por brincadeira, ela começou a traduzir os poemas para português.” Daí à editora foi um passo, e assim saíram os dois livros em edição portuguesa, bilingue, em francês e português, ambos com tradução de Ana Paula Filipe.

Abrir as gavetas da memória

Mais nos poemas do que nas canções, a escrita de Timothy espelha muito as suas experiências de vida. “Em princípio, eu não sabia que conseguia curar as minhas feridas e os meus problemas íntimos dessa maneira. Foi uma terapia para a minha vida, que teve momentos felizes, mas outros também muito infelizes, como toda a gente. Cada vez que abria uma gaveta da memória, ia escrever. E foi assim que pus na poesia emoções e sentimentos que quis partilhar com toda a gente nestes livros. Ultrapassadas as grandes feridas, estou já a preparar um terceiro livro.”

Nos poemas que escreve, Portugal (onde viveu e trabalhou de 1976 a 1984) surge várias vezes, quer como mote quer como lugar de escrita. “Costumo dizer que encontrei tudo em Portugal. Encontrei sucesso, encontrei amor, encontrei a minha curiosidade pela cultura. Nasci na Bélgica fisicamente, mas intelectualmente nasci em Portugal. Porquê? Porque em Portugal, ao contrário do que sucede noutros países, não me puseram a etiqueta de cantor de variedades. Eu venho da canção ligeira, mas posso ser pintor ou poeta. Em Portugal, pude ser tudo o que eu queria ser. Aqui ganhei essa auto-estima, essa confiança em mim, para pintar, para escrever, para compor, para me sentir realizado artisticamente. Porque houve aqui gente que acreditou em mim. Os meus primeiros sucessos foram em França e na Bélgica, mas o resto devo-o a Portugal. E estou muito grato.”

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