Análise

A França, a Turquia e o islamismo radical

1. O conflito entre a França e o islamismo radical não é novo. O assassinato por decapitação de Samuel Paty, ocorrido a 16 de Outubro de 2020 nos subúrbios de Paris, foi mais um episódio trágico. O seu autor, Abdoullakh Abouyedovich Anzorov, foi um jovem muçulmano refugiado de origem chechena. Para cometer esse acto de barbárie terá sido instigado pelo islamista radical Abdelhakim Sefrioui e outros, entre os quais se encontra também o pai de uma aluna do professor Samuel Paty.  No simbólico do atentado terrorista está uma clara intenção de atingir o cerne dos valores da sociedade francesa, em particular os valores laicos da república. A escolha de alvos altamente simbólicos para a sociedade, feita pelos islamistas radicais (jihadistas), não é um mero acaso. Basta recordar um outro atentado também perpetrado por islamistas radicais, ocorrido a 26 de Julho de 2016, numa igreja em Saint-Étienne-du-Rouvray, perto de Ruão. Nesse atentado, o octogenário padre Jacques Hamel foi barbaramente assassinado (degolado) e um dos fiéis ficou em estado grave.

2. Quer o professor Samuel Paty, quer o padre Jacques Hamel, são apenas duas vítimas entre os muitos milhares de mortos e de feridos graves que os atentados perpetrados pelos islamistas radicais têm provocado, em França, na Europa e um pouco por todo o mundo (incluindo nos próprios países muçulmanos). Mas, no caso francês, existe, como notado, um simbolismo particular nestes dois atentados terroristas. Mostram uma intenção de atacar o cerne da identidade e valores franceses, seja na sua versão tradicional religiosa cristã (simbolizada pelo ataque a uma igreja e pela morte do padre), seja na sua versão republicana ligada à escola laica (simbolizado pelo ataque e morte de um professor à saída da escola). A mensagem é clara: não há compromisso possível entre os valores do Islão, tal como os interpretam, ou distorcem, os islamistas radicais (jihadistas) e os valores da França, seja na sua versão tradicional religiosa cristã, seja na versão da república laica de valores e direitos humanos tendencialmente universais.

3. Após o último atentado, o Presidente francês, Emmanuel Macron, decidiu actuar em termos políticos e jurídicos contra o islamismo radical. Propôs-se especialmente combater o separatismo promovido pelos islamistas radicais o qual obsta, deliberadamente, a uma integração de muitos muçulmanos na sociedade francesa. Estes últimos, os islamistas radicais, têm por objectivo criar mundos à parte no mesmo território. Pretendem evitar a todo custo a absorção, pelas diversas populações muçulmanas, dos valores franceses em qualquer das versões apontadas — em especial os valores da república laica, os quais são estruturantes da organização político-jurídica da França contemporânea. Tais populações são tipicamente oriundas de fluxos migratórios, antigos ou recentes, com origem nas sociedades tradicionalistas muçulmanas do Sul do Mediterrâneo. Têm, naturalmente, dificuldades de adaptação a uma sociedade urbana, impessoal e imbuída de valores profundamente laicos/seculares (e materialistas). Mas, neste combate político de Emmanuel Macron contra o islamismo radical dentro do seu próprio país, estes últimos encontraram um aliado externo de envergadura: a Turquia de Recep Tayyip Erdoğan. Recorrendo a uma linguagem truculenta e (ainda mais) imprópria diplomaticamente do que é habitual, o Presidente da Turquia pôs em causa a sanidade mental de Emmanuel Macron.

4. As críticas e hostilidade de Recep Tayyip Erdoğan às políticas de integração das comunidades muçulmanas na Europa e Ocidente, em particular às políticas mais determinadas a prosseguir os valores seculares europeus, não são nada de novo. Vê tais populações como um instrumento útil da sua política externa (neo)otomana, pelo que quer evitar, o mais possível, que absorvam valores democráticos, pluralistas e laicos pela via social, cultural e educativa. Anteriormente, Recep Tayyip Erdoğan incitou a numerosa diáspora turca na Alemanha a resistir à integração no sentido de absorção cultural e dos valores da sociedade germânica, irritando Angela Merkel e o Governo alemão. Importa clarificar que Recep Tayyip Erdoğan e o seu Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), não são islamistas radicais. Todavia, para os seus próprios fins de política interna e externa, procuram usar e instrumentalizar os múltiplos grupos islamistas radicais sunitas, desde os jihadistas do Daesh e outros mais ou próximos (nas guerras da Síria e da Líbia) até à Irmandade Muçulmana (no Egipto e com ramificações a muitos países europeus).

5. No passado, a Turquia de Recep Tayyip Erdoğan projectava uma imagem para o mundo muçulmano diferente daquela que procurava dar na União Europeia, para agradar aos europeus. Hoje o Governo da Turquia sente-se demasiado forte para se dar a esse trabalho. Se voltarmos ao caso original das caricaturas do Profeta Maomé vemos a raiz da actual atitude turca com mais nitidez. O caso começou na Dinamarca em finais de 2005 com a publicação feita inicialmente pelo jornal Jyllands-Posten. Em inícios de 2006 as caricaturas foram republicadas em vários países europeus, em especial em França, tornando-se o jornal satírico Charlie Hebdo um novo alvo dos que contestavam tal publicação. Se os europeus na época prestassem mais atenção ao que a Turquia dizia sobre tal caso na Organização da Conferência Islâmica (OCI), não ficariam tão surpreendidos com as actuais posições de Recep Tayyip Erdoğan. Importa lembrar que, na altura, a OCI era até presidida por um turco, Ekmleddin İhsanoğlu. Todavia, a Turquia não se empenhou em explicar o funcionamento das sociedades europeias aos restantes membros da OCI, em particular ao nível da liberdade de expressão e de imprensa — um direito que permite a caricatura, mesmo que de mau gosto ou podendo ser considerada ofensiva — como seria expectável de um candidato à adesão à União Europeia. Procurou bem mais mostrar-se solidária com os restantes países muçulmanos que condenaram duramente a Dinamarca e todos os que publicaram as candidaturas na imprensa europeia.

6. A acrescer à disputa em torno da integração de populações muçulmanas na Europa e sobre a forma de lidar com o islamismo radical — no limite esta é uma disputa sobre os valores estruturantes de uma sociedade, sobre os quais não se pode abdicar —, há hoje uma dimensão fortemente geopolítica na rivalidade entre a França e a Turquia, a qual decorre sobretudo no Mediterrâneo Sul e Oriental. Em grande parte, está ligada à já referida ambição (neo)otomana da Turquia, de projectar a sua influência e poder nos antigos territórios do Império Otomano que perdeu em inícios do século XX, do Iraque à Líbia passando pelos Balcãs. Um episódio significativo ocorreu ligado ao conflito da Líbia em Junho de 2020. Um navio da marinha francesa que participava na operação Sea Guardian da NATO terá sido alvo de uma acção agressiva por parte de fragatas turcas quando procurava controlar um navio cargueiro (também turco) suspeito de violar o embargo de armas com destino à Líbia. No cerne desse incidente estão os apoios a facções opostas da guerra na Líbia. De um lado o governo da unidade nacional de Fayez al-Sarraj apoiado política e militarmente pela Turquia, pelo Qatar e pela Itália. No outro lado o Exército Nacional da Líbia chefiado pelo marechal Khalifa Haftar, apoiado pelo Egipto, Emirados Árabes Unidos e também pela França.

7. Neste conflito, que é simultaneamente sobre os valores mais profundos de uma boa sociedade e também geopolítico, Emmanuel Macron e a França necessitam de um claro apoio europeu na sua acção contra o islamismo radical. Mais do que isso, necessitam de um apoio inequívoco contra a tentativa de Recep Tayyip Erdoğan e da Turquia de condicionarem as políticas francesas, alimentando protestos contra a França no mundo muçulmano e ingerindo-se nos assuntos internos do país. Todavia, para além das declarações de circunstância do Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Josep Borrell — que qualificou como inaceitáveis as declarações de Recep Tayyip Erdoğan sobre a sanidade mental do Presidente francês —, o apoio europeu à França é inconsistente. Com Recep Tayyip Erdoğan e a Turquia a fazerem o contra-jogo dos islamistas, facto ao qual acrescem os diferentes interesses geopolíticos dos europeus no Mediterrâneo Oriental, a questão, como quase sempre, dividirá a União Europeia. A Grécia e Chipre — envolvidos em antigos conflitos territoriais com a Turquia, agora também com uma nova dimensão energética — apoiam de forma inequívoca a França. Mas outros Estados como a Alemanha ou a Itália, que têm interesses particulares com a Turquia, desde logo devido aos refugiados da Síria e ao apoio a diferentes facções na Líbia, tendem a ser complacentes com Recep Tayyip Erdoğan. A ser assim, o resultado será uma França e uma União Europeia permanentemente frágeis face ao islamismo radical e sem qualquer estratégia geopolítica sólida para lidar com a ambição de poder (neo)otomana da Turquia.

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