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Abrigo com 150 animais em Tavira está a ser desmantelado

No lugar de umas antigas pocilgas, numa quinta junto à ria Formosa, nasceu um canil, que teve agora ordem de despejo. Cerca de metade dos animais já tiveram acolhimento, os restantes aguardam vaga noutro canil da região.

Centena e meia de gatos e cães estão a ser retirados da quinta do Pinheirinho, em Santa Luzia, Tavira. O terreno onde está instalado o canil/gatil, com 30 hectares, vai dar lugar a um pomar de citrinos e abacates, junto à ria Formosa. Os animais, entretanto, estão a ser recolhidos num outro canil, situado nas proximidades de Loulé, mas este está à beira de esgotar a capacidade de acolhimento. A presidente da Adota – Associação de Animais de Santa Luzia, Alice Gil, diz estar a ser “pressionada e ameaçada” para abandonar o espaço agrícola, que esta organização ocupava a título precário.

A actual dona da quinta, Sofia Rodrigues, entende que a instalação das gaiolas para os cães, no lugar de umas antigas pocilgas, se tratou de uma “ocupação abusiva” da propriedade que herdou da avó. Além disso, garante nunca ter ameaçado Alice Gil. “Ela só está a fazer-se de vítima”, acusa. Por seu lado, Alice Gil alega que recebeu o “consentimento da anterior proprietária” para recolher os animais na propriedade recentemente arrendada. O assunto está a ser acompanhado, à distância, pelo vice-presidente da câmara, José Manuel Guerreiro: “A associação Adota faz um trabalho que nos agrada”, reconhece, sem se comprometer, no curto prazo, com uma proposta alternativa para o canil.

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Falta uma resposta regional

As tentativas de encontrar uma solução para as centenas de cães e gatos abandonados por quase todo o Algarve ainda não tiveram uma resposta à escala regional. O assunto foi objecto de discussão, sem êxito, por várias vezes na Comunidade Intermunicipal do Algarve – Amal. De acordo com a Lei nº 27/2016, é proibido o abate de animais errantes e as autarquias estão obrigadas a criar uma rede de Centros de Recolha Oficial de Animais (CROA), que inclui a requalificação dos canis municipais existentes.

No ano passado, a Amal apresentou um projecto para criar um canil intermunicipal, tendo concluído que o equipamento teria 600 mil euros de custos de exploração. Não houve entendimento quanto à partilha de despesas, nem quanto à localização da infra-estrutura – todos os autarcas proclamam apoiar a causa animal, mas não querem ter canis em área urbana, dentro das cidades. Por outro lado, o Plano de Ordenamento do Algarve (PROT) “proíbe” a construção em solo rural. De resto, foi esse o motivo (violação das leis do ordenamento do território) invocado pela Câmara de Loulé, há cerca de um ano, para mandar demolir o canil da Animal Rescue Algarve (ARA), que está agora a receber os animais do refúgio de Tavira.

Ex-gestora financeira de uma empresa de telecomunicações, Alice Gil desenvolveu “um projecto de vida, a favor dos animais” na sua terra natal, depois de reformada. Na missão que abraçou há meia dúzia de anos, não ficou sozinha. “Recebi a ajuda de muitos voluntários, portugueses e estrangeiros”, enfatiza. Os animais, após um período de recuperação, são entregues a famílias para adopção. “Na semana passada, um gato ceguinho foi adoptado por um casal, meu amigo, de Lisboa. Tiveram pena dele”, confidencia.

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Cada animal, uma história

Embora reconheça que montou as gaiolas para os cães e as colónias dos gatos a título precário, não esperava vir a ser desalojada sem que a câmara lhe facultasse uma alternativa. “Estamos a desenvolver uma campanha de angariação de fundos para construir um canil em Santa Catarina”, revela. A propriedade, com um custo de dez mil euros, fica numa zona rural, sem infra-estruturas. “Se se situar em zona de Reserva Agrícola Nacional (RAN) ou Reserva Ecológica Nacional (REN) vai ser muito difícil aprovar o projecto”, alerta o vice-presidente do Município, lembrando as restrições impostas pelo PROT e pelo Plano Director Municipal (PDM)

À medida que vai mostrando as gaiolas, Alice Gil conta histórias destes animais que protege como se fossem filhos. “Esta canita foi encontrada amarrada a um poste”, diz. À frente, três cachorrinhos, com dois meses, saltam-lhe à frente, a abanar a cauda. “Nos últimos quatro anos fizemos uma obra que penso ser de interesse público”, enfatiza. A câmara fornece a água e dá um subsídio mensal de 350 euros. “Agora estou numa agonia, porque querem que saia daqui e leve os animais”, remata. Após lançar vários apelos, prossegue, “apenas a ARA- Animal Rescue Algarve [que tem um canil/gatil no sítio da Cabanita, Loulé] se disponibilizou para oferecer refúgio temporário, aos 60 cães e 90 gatos”.

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ARA também com problemas

Por coincidência, esta associação liderada pelo empresário inglês Sid Richardson também está num conflito com o município de Loulé. A autarquia, em Dezembro de 2019, considerou que o canil da ARA se encontrava numa situação de “incontornável ilegalidade”, por ter sido construído sem licença, e deu um prazo de dois meses para que fosse demolido. Os recursos administrativos e judiciais fizeram suspender a ordem. Nesse canil, transportados do abrigo de Tavira, foram alojados 21 cães e 18 gatos. Para acolher mais animais, informou a direcção da ARA, “aguarda que se concluam os processos de adopção para libertar mais espaço”. A Câmara de Tavira apresentou, entretanto, um projecto para criar um Centro de Bem-Estar Animal, mas a obra só está prevista para o próximo ano.

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