Opinião

A poesia não contribui para o PIB

Gostamos de pensar que o amor, os afectos, o saber ou a cultura são o que de mais importante existe na vida. Mas praticamos o contrário.

“O amor é o único assunto. Na vida humana tudo é acerca do amor ou da sua ausência.” Era este o título da excelente entrevista de Isabel Lucas ao escritor Salman Rushdie, publicada a semana passada neste jornal, que foi largamente partilhada, numa lógica onde, entre outras coisas, não custa nada supor que a frase de Rushdie deverá ter tido um efeito decisivo.

Gostamos de pensar que o amor, os afectos, o saber ou a cultura são o que de mais importante existe na vida. Mas praticamos o contrário. Queríamos abraçar o curso que idealizámos, mas achamos que não tem saída. Fantasiamos com uma actividade, mas a remuneração não é a que aspiramos. Suspiramos por romance, mas a garantia de conforto acaba por ser determinante. E a poesia vai pelo cano. Triunfa o pragmatismo.

Durante o confinamento enaltecemos os artistas. Entoaram-se canções. Viram-se filmes. Disseram-se poemas. Discutimos reflexões de filósofos ou cientistas sociais. Agarrámo-nos ao que nos faz sentir vivos. Ao que atribui sentido à existência. Ao que produz compreensão e entendimento, seja no singular ou no colectivo. Percebemos que aquilo que consideramos inútil como valor de mercado é tantas vezes o mais útil como valor de vida.

Foi um momento de suspensão. Depois voltámos à existência pautada pelo ser humano da produção e do consumo. Tudo o resto, a dimensão humana, o prazer, a reflexão, foi esquecido. Tudo o que não contribui para o PIB está lixado. Há uma semana, durante a concentração da associação Circuito, constituída por uma trintena de espaços de música ao vivo, era nisso que pensava. Olhava à volta e via músicos, DJs, técnicos ou programadores, clamando ajuda, em nome da manutenção de um ecossistema cultural que não só é vulnerável, como é tantas vezes estigmatizado, porque associado à boémia, ao prazer, ao lazer ou às artes.

Nos discursos dos que se manifestavam o que era evocado eram os números. Percebe-se. É assim que tudo é validado. O valor económico da actividade daqueles espaços. O serem factor de desenvolvimento. O contribuírem para a atracção turística da cidade. O serem fonte de sociabilização. O alimentarem o sentimento de pertença. Tudo justo e inteligível. Mas por uma vez apetecia que não tivesse de ser assim. 

Apetece que poetas, DJs ou artistas, digam o que é óbvio. Que não são médicos, mas alguns já salvaram vidas. Que não são empreendedores, mas fartam-se de arriscar. Que ao contrário de tantos cientistas, que podem passar a vida a investigar e nunca produzir resultados, sempre credibilizados, eles passam o tempo a ter de justificar a sua actividade.

Numa das sequências mais reveladoras de Magnolia (1999), o filme de Paul Thomas Anderson, baseado na vida de nove personagens cujas histórias se cruzam, há uma chuva de sapos. Quando todas as personagens parecem perdidas nos seus problemas, surgem sapos, aos magotes, vindos do céu. Todos ficam aflitos. A excepção é Stanley, o miúdo, que está no templo da erudição, uma biblioteca, quando a chuva de sapos irrompe. Em vez de se assustar, revela fascínio. Com os olhos arregalados, exclama: “Isto acontece! É uma coisa que acontece!” O saber, a cultura, tranquilizam-no. Ele sabe. Sabe que uma chuva de sapos não é da ordem do milagre, do absurdo, da impossibilidade. É raro. Mas real.

Pode mesmo acontecer. Como uma pandemia. Tal como em Magnólia, parecemos barata-tontas a lidar com o que está a acontecer. Descurámos o saber, a cultura, a ciência, o desejo de compreender, esse sim, inesgotável, ao contrário dos recursos do planeta. Nem tudo se pode resumir ao PIB. Há muitas coisas que nos ajudam a enfrentar a realidade. A olhar com maravilhamento mesmo o que não entendemos por inteiro. É verdade: o amor é o único assunto. Mas tendemos a esquecê-lo.

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