Thomas Berry

Moda sustentável: “Já existem muitas opções e não são só no mercado de luxo”

O britânico Thomas Berry, director global de sustentabilidade na Farfetch, é um dos cabeças de cartaz da Sustainable Fashion Business, que se integra nas actividades do Lisboa Capital Verde 2020.

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Thomas Berry vê o mercado de segunda mão como uma "grande oportunidade" DR

Há cada vez mais opções sustentáveis na indústria da moda e isso não se limita ao topo do mercado. A análise é de Thomas Berry, o director global de sustentabilidade na Farfetch, plataforma que actua no segmento da moda de luxo, servindo de montra para as marcas parceiras com quem trabalha por todo o mundo.

O britânico é um dos cabeças de cartaz da Sustainable Fashion Business, a conferência que acontece nesta sexta-feira na Academia das Ciências, em Lisboa, num formato que se divide entre o presencial e o digital, e que se integra nas actividades do Lisboa Capital Verde 2020. Segundo a organização, a conferência que reúne convidados portugueses e internacionais do mundo da moda num dia de painéis, palestras e apresentações, quer ser “uma oportunidade para discutir os desafios que todos enfrentamos, bem como celebrar a preocupação da indústria portuguesa em apresentar soluções responsáveis para a moda do futuro”.

Em entrevista ao PÚBLICO por videochamada, Thomas Berry sublinha que “é difícil” e “complexo” cumprir as ambições em termos de sustentabilidade a nível ambiental e social, seja ao nível de consumidores, criadores, marcas ou lojas. O “fundamental”, considera, é que cada um saiba o seu papel e faça “escolhas positivas”, que devem elas também ser providenciadas por quem actua no mercado. Um dos focos para a Farfetch está no modelo circular de negócio, sendo o mercado de compra e venda de produtos em segunda mão uma “grande oportunidade” que se apresenta também no segmento de luxo, já que a qualidade e durabilidade das peças garantem que mantenham o seu valor.

Os factores preço, qualidade e estilo ainda são as prioridades ou a questão da sustentabilidade já pesa na decisão dos consumidores quando compram?
É muito difícil avaliar, mas acho que recentemente tem havido um crescimento significativo na consciencialização ambiental e social por parte dos consumidores. Penso que os consumidores vão ter sempre esses outros factores em mente, mas a sustentabilidade tem-se tornado cada vez mais importante e num bom sentido. A partir do momento em que os factores preço, estilo e qualidade satisfazem as necessidades dos consumidores dentro do segmento de mercado em que estão, então a sustentabilidade pode tornar-se um critério que influencia a sua decisão de compra.

Mas a sustentabilidade pode ser um factor que virá a impedir a compra de determinado produto ou marca?
Há muitos elementos diferentes aqui. Em parte porque há muitos elementos diferentes na forma como os consumidores abordam as compras na moda. Uma das formas de os consumidores filtrarem pode ser a performance em termos de sustentabilidade que uma marca pode ter. Pode ser uma das razões pelas quais adoram uma marca, como por exemplo os fãs da Stella McCartney que admiram as suas credenciais em termos de sustentabilidade. Ou então pode tratar-se de uma marca que já gostavam antes, como uma Gucci ou uma Burberry, mas pelas quais as pessoas se podem apaixonar por causa das suas acções em termos de sustentabilidade.

Mas também podemos ver ao nível dos produtos. Se alguém estiver a escolher entre duas T-shirts com preços semelhantes e ambas de marcas de que goste, se uma introduz uma certificação quanto à sustentabilidade, isso pode ser o factor de decisão. Ou, por exemplo, se uma dessas lojas garante uma solução mais ecológica no processo de entrega, provavelmente vai ser essa a escolhida. Até pode acontecer depois da compra, quando os consumidores percebem que o produto veio embrulhado em material reciclado ou é facilmente reciclável e isso fá-los sentir bem acerca da marca e torna mais provável que voltem a comprar.

Isto se os produtos tiverem os mesmos preços...
Tudo depende de quão importante é o preço para aquele consumidor em particular. Se custar um pouco mais dentro de um determinado segmento pode não importar. Mas também acho que hoje em dia há boas opções sustentáveis — pelo menos mais sustentáveis — em termos sociais e ambientais em todos os níveis de preço. Com certeza que as marcas de luxo estão a fazer coisas incríveis. É nesse segmento que a Farfetch trabalha e satisfaz-me imenso ver o trabalho e inovação que está a surgir. Mas, na verdade, mesmo nos segmentos de preços mais baixos, os consumidores têm hoje imensas opções de produtos mais sustentáveis.

Nessa categoria de preços, uma das razões pelas quais o mercado de segunda mão está a crescer é porque oferece um bom custo de entrada em marcas que tipicamente estariam fora das possibilidades de certos consumidores. Assim, já conseguem comprar produtos de determinadas marcas e estão a fazê-lo de uma forma melhor em termos ambientais, porque compram algo que já existe.

Já existem muitas opções e não são só no mercado de luxo. Claro que há questões que têm a ver com materiais inovadores e avançados que só estão disponíveis às marcas de maiores dimensões e que tenham um maior poder de investimento que potencie essas inovações, mas isso não significa que a sustentabilidade seja algo só para o mercado mais elevado. Não, de todo.

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O mercado dos produtos em segunda mão tem potencial para ser explorado também na moda de luxo?
É uma grande oportunidade. É algo que a Farfetch tem prestado muita atenção e tem investido. Nós vendemos peças de luxo em segunda mão há dez anos e recentemente lançamos serviços que vão no sentido de um modelo de negócio circular, programas de revenda, de doações. É uma realidade que se dá muito bem com a indústria de luxo porque os itens são de grande qualidade e desenhados para durar, são investimentos que têm valor durante muito tempo. Se alguém não as está a usar, essas peças podem ter valor para outra pessoa. O mercado está bastante aberto nesse sentido. É uma área de grande interesse para muitas marcas e lojas, e posso dizer que a Farfetch está a liderar esses modelos em muitos aspectos, seja a comprar de volta ou prestar assistência ao mercado de segunda mão. É algo a que temos estado atentos, temos testado e agora estamos a investir para dar escala.

Como é que esse segmento de topo do mercado reage a essa opção?
Há duas partes neste mercado. Por um lado, as pessoas que estão à procura de produtos em segunda mão. Para o consumidor de luxo, as razões para olhar para esse mercado prendem-se com procurar itens que são únicos e que não encontra em mais lado nenhum, seja porque são de uma colecção antiga ou porque simplesmente esgotaram. Por outro lado, há que apresentar um serviço que o permita. Os consumidores estão a perceber que têm guarda-roupas com produtos de luxo que não usam e esses são valiosos. Não tinham era uma forma facilitada de os pôr à venda, doá-los ou arranjá-los.

Com a democratização das redes sociais, torna-se cada vez mais fácil os utilizadores criarem movimentos globais a partir, por exemplo, de um smartphone. Isso cria pressão nas marcas e nas lojas no que toca a manter limpo o seu historial e as suas práticas?
Eu não sei se coloca pressão. Nós usamos as redes sociais para chegar aos consumidores e interagir com eles. De facto essas plataformas tornam mais fácil a condução de movimentos a nível global e isso pode ser positivo e aplicar pressão. Mas não é algo que estejamos necessariamente a ver acontecer com frequência. Sem dúvida que há elementos no mercado que já sofreram com isso, mas não é algo que estejamos a ver no mercado de luxo.

O facto de a Farfetch ser uma plataforma que trabalha com inúmeras marcas torna-a mais exposta para que seja responsabilizada, caso alguma delas seja alvo de polémica, a nível ambiental ou social, por exemplo?
De certa forma, sim. A abordagem que temos tomado tem sido a de dar destaque às boas iniciativas. Todo o nosso programa de sustentabilidade chama-se “Positively Farfetch” e a ideia é que tentamos ser uma plataforma que permite escolhas e atitudes mais positivas. Na parte mais educacional, por exemplo, lançamos um tipo de envio de produtos mais consciente, que não requer nenhuma acção por parte do consumidor. 

O que é que tem mais impacto nas marcas: quando os consumidores premeiam políticas sustentáveis a partir das suas escolhas nas compras; ou quando se chama a atenção quando as coisas não estão bem?
Vai ser sempre uma mistura das duas coisas. Toda a gente, sejam consumidores ou marcas, vão sempre querer virar-se para uma perspectiva mais positiva de si mesmos. Por isso, acredito numa atitude positiva, mas claro que é sempre preciso sustentá-la com algum tipo de standard mínimo que vem de uma natureza regulatória. Essa regulação é uma alavanca de mudança, mas em termos do que se quer incentivar nas marcas e lojas, creio que deve ser feito de uma forma positiva.

Entre os consumidores, criadores, marcas, lojas... Neste momento, há algum grupo que seja um entrave no que toca à sustentabilidade na indústria da moda?
A tomada de decisão é complexa e não se pode ver apenas uma parte. Toda a gente tem de fazer o seu papel. O fundamental para mim, particularmente de um ponto de vista de negócio, é perceber exactamente qual é o nosso papel. Perceber o que é que nós podemos fazer enquanto plataforma que traga melhores resultados para a indústria. Obviamente que isso será muito diferente do que podem fazer os designers, as lojas e, claro, os consumidores. Nós somos uma plataforma que quer ajudar a comunidade a pensar, a agir e a escolher de uma forma positiva. Uma vez que isso é fundamental para nós enquanto empresa, torna-se fácil investirmos nesse plano e tentar fomentar o máximo de mudança que conseguirmos.

Neste momento onde é que está o foco da Farfetch?
O nosso foco está nos três pilares em que queremos trabalhar. Tornar a indústria e a forma em que trabalhamos enquanto plataforma mais limpa. Reduzir o impacto ambiental, com os olhos postos nas alterações climáticas. Depois permitir e favorecer que os nossos consumidores, mas também as marcas e os parceiros façam escolhas mais positivas. E, por fim, apostar nos modelos de negócios circulares.

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