No Outono chove, ainda bem

A descida do volume de água disponível em Portugal é simultaneamente resultado da falta de precipitação, que se vem agudizando nos últimos anos, como consequência das alterações climáticas e uma falta de discussão e de acção pública e política generalizada sobre esta temática.

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Paulo Pimenta / PUBLICO

Para quem, como eu, nasceu no final dos anos 80 do século passado, 2020 apresenta-se como o maior desafio de uma geração. Com um futuro incerto sobre a evolução da pandemia, há fenómenos naturais que nos trazem tranquilidade. É certo que o planeta continua a girar à volta do sol e por isso já é Outono outra vez. É a estação do ano dos dias progressivamente mais curtos, folhas caídas no chão e noites frescas que permitem voltar a dormir melhor. Outono é também sinónimo das primeiras chuvas, o cheiro a terra molhada e o queixume de que tudo piora quando chove. Principalmente o trânsito nas cidades. Talvez não seja bem assim e valerá a pena olhar numa outra direcção.

Se, enquanto sociedade, a nossa prioridade mais premente é de unir esforços para combater a pandemia, minimizar contágios e proteger os mais vulneráveis, é também verdade que o combate à emergência climática, outra ameaça global, foi neste período relegado para segundo plano. As alterações climáticas foram grosso modo esquecidas durante os primeiros nove meses do ano, mas, do mesmo modo que já é Outono outra vez, os efeitos produzidos por estas continuam, sem tréguas, agravando-se de dia para dia.

É agora que olhamos para dados. Segundo o relatório climatológico para o mês de Agosto e Verão de 2020 produzido pelo Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA), o período entre Janeiro e Agosto de 2020 foi o mais quente dos últimos 31 anos. Podendo a relevância deste argumento não ser clara para todos, importa destacar, do mesmo relatório, que Agosto de 2020 foi um mês de extremos (ou não estivéssemos em 2020) com recordes para temperaturas máximas e mínimas. Para que não haja dúvidas, os fenómenos extremos são consequências reais das alterações climáticas e capazes de causar grandes impactos com fenómenos de curta duração temporal. Destaco ainda deste relatório a informação sobre a percentagem de água nos solos e a definição de zonas de seca. Conclusão, todo o país está em seca fraca, sendo que o baixo Alentejo e o Algarve estão em seca moderada a severa pelo menos desde Julho 2020. É aqui que fazemos uma outra pausa.

Não é só na quantidade de água e na qualidade dos solos que os períodos de seca impactam, é em todos os recursos hídricos sejam eles superficiais ou subterrâneos. A título de exemplo, o nível de água na albufeira do Alqueva, essencial para o desenvolvimento agrícola da região, é o mais baixo desde 2004 e tem vindo a descer consistentemente desde o primeiro trimestre de 2018. Os últimos três relatórios do Estado do Ambiente, produzidos pela Agência Portuguesa do Ambiente, referem descidas consecutivas e significativas dos níveis de armazenamento de água subterrânea. Para o leitor com maior disponibilidade e perseverança, fica o desafio de encontrar um relatório com conclusões no sentido inverso.

Os recursos hídricos subterrâneos são essenciais para o abastecimento de água a populações e a explorações agrícolas e industriais, mas são por definição limitados. A sua exploração exige uma gestão cuidada, integrada e com perspectiva de futuro de forma a garantir a sua sustentabilidade. A descida do volume de água disponível em Portugal é simultaneamente resultado da falta de precipitação, que se vem agudizando nos últimos anos, como consequência das alterações climáticas e uma falta de discussão e de acção pública e política generalizada sobre esta temática.

A gestão optimizada e sustentável dos recursos hídricos subterrâneos exige o conhecimento detalhado das formações geológicas que armazenam a água (i.e., os aquíferos). Este objectivo, longe de ser cumprido, só será atingido utilizando técnicas de modelação geológica avançadas desenvolvidas e aplicadas durante décadas na exploração de recursos minerais. A tecnologia, o conhecimento e os recursos humanos qualificados existem e estão, por exemplo, disponíveis em várias universidades e centros de investigação do país.

A probabilidade de ocorrer uma pandemia global era relativamente baixa, mas há riscos que podemos antecipadamente prever. Os grandes desafios de uma geração também são estes, agir hoje, para que amanhã seja possível queixamo-nos da chuva do Outono.