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Doutorados: um activo que urge valorizar

Ao contrário do que já se ouviu dizer, Portugal não tem doutorados a mais. Apresenta é uma distribuição bastante desproporcional dos doutorados pelo seu sistema científico e tecido económico.

Portugal conquistou este ano a sua melhor posição de sempre no EIS 2020 - European Innovation Scoreboard, passando a integrar o grupo de países fortemente inovadores neste ranking europeu. Esta notícia é excelente, reflecte os esforços empenhados nesta área nos últimos anos e orienta para o caminho que Portugal deve continuar a trilhar nos próximos tempos. 

Não obstante os progressos registados e os indícios que apontam para uma aproximação crescente entre universidades e indústria, a verdade é que Portugal continua a extrair apenas uma pequena parte do potencial de valor criado pelo seu sistema científico. Há vários factores que contribuem para justificar esta afirmação, mas vou-me focar no indicador “emprego em actividades intensivas em conhecimento” do EIS 2020, que compara bastante mal com a média europeia, ao qual urge responder.  

Portugal tem hoje cerca de 22 doutorados por 100 mil habitantes, resultado de uma convergência assinalável com a média da UE27 (23,3) ao longo das últimas duas décadas. Portugal destaca-se, por exemplo, dos países do Sul da Europa, mas fica significativamente abaixo de países como o Reino Unido, com o dobro de Portugal, e de todos os países líderes em inovação, dos quais se destacam a Suécia, Finlândia, Dinamarca e Suíça (Pordata).  

Portanto, ao contrário do que já se ouviu dizer, o país não tem doutorados a mais. Portugal apresenta é uma distribuição bastante desproporcional dos doutorados pelo seu sistema científico e tecido económico. O mais recente inquérito aos doutorados (CDH15) indica que, do total de doutorados, 83% permanecem nas universidades e apenas 6% trabalham em empresas, quando, em média, na Europa, um em cada três doutorados estão nas empresas.  

É urgente mudar a cultura instalada e aumentar a capacidade de absorção de doutorados pelo nosso tecido produtivo, algo já reconhecido pelos reitores, mas que requer uma acção concertada entre Governo, cademia e Indústria, em benefício da sociedade.  

Parece-me importante promover o desenho de programas doutorais em colaboração com a indústria possibilitando que os doutores se formem já em contexto mais ligado a organizações, à sociedade e às próprias empresas. Precisamos não só de atrair grandes empresas intensivas em conhecimento, mas também de estimular e criar incentivos para a formação de novas empresas emergentes do conhecimento científico gerado nas universidades. Precisamos de mais cientistas-empreendedores que olhem para a investigação que estão a produzir com lentes de impacto e criação de valor. Precisamos de mais empresas e empresários que percebam que a ciência e inovação são fundamentais para competirem num mercado global. Ao mesmo tempo, é importante que os doutorados percebam que há vida (e outras carreiras possíveis) para além da Academia. 

Muito importante também é a necessidade de desmistificar a figura do doutorado, estereotipado como profissional muito caro, sobrequalificado, individualista e meramente teórico, a começar pelos próprios que, geralmente, não se apercebem do valor que podem aportar a uma empresa. Senão, vejamos: os doutorados são treinados para identificar problemas e encontrar soluções para esses problemas; estão habituados a lidar com o erro e, mais do que isso, a aprender com as falhas; não se limitam a regurgitar informação mas a criar, escrever e comunicar informação; têm pensamento crítico e, regra geral, trabalham em equipa. Tudo isto em ambientes de extrema incerteza, o que os torna mais resilientes e prontos para enfrentar desafios. Qual o empregador que não gostaria de contar com um profissional destes? Na verdade, o excesso de qualificações como justificação para não contratar um doutorado remete-me para a situação em que, no fim de um relacionamento, um diz ao outro “o problema não és tu, sou eu”, ou seja, soa a desculpa. E mais do que desculpas, precisamos de soluções. De incentivos desburocratizados. De visão estratégica. 

Iniciativas como o Programa Interface, com o apoio aos Centros de Interface Tecnológicos e aos Laboratórios Colaborativos, são um excelente sinal em termos de políticas públicas, que merecem uma aposta contínua e reforçada nos próximos anos, pois permitem não só criar mais empregos altamente qualificados, como também aproximar a investigação das necessidades reais do mercado, promovendo a competitividade das empresas nacionais. O manifesto Cientistas e Empresários 2020 é outro sinal positivo, que nos diz que estas duas “espécies”, muitas vezes retratadas como antagónicas, querem coabitar e desenvolver o ecossistema em que se inserem.  

Ou seja, nem tudo está mal, mas há ainda muito por fazer. Os próximos dez anos serão críticos para o posicionamento de Portugal na Europa e no mundo. Os doutorados não são a chave mestra, mas podem certamente ajudar a abrir portas ao nosso tecido produtivo e são, acima de tudo, um activo que urge valorizar. 

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