Doutoramento, esse animal que nos consome

Sem saber como, a tese acabou entregue e defendida. Durante a defesa estavam na plateia os que amo, menos a minha mãe. O meu doutoramento ter-me-ia consumido sem eles. Assim, apenas envenenou.

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No dia em que a minha mãe entrou em coma profundo e irrecuperável liguei à Fundação para a Ciência e Tecnologia que me financiava o doutoramento. Encontrava-me na sua fase final, pontuada por ansiedade extrema em que a iminência da submissão da tese teria sido o suficiente para me esgotar emocional e fisicamente. Explico a situação a quem me atende. Peço um tempo para lidar com a dor e com a mudança. Do lado de lá ouço: “Não é possível, só se o familiar fosse seu filho. Mas consideremos que não nos contactou. Como não está a trabalhar, a bolsa deveria ser suspensa!”.

Fui o primeiro da minha família a frequentar o ensino superior. Tive uma infância relativamente normal e cedo me revelei uma criança curiosa. Obter um doutoramento parecia longínquo mas após a licenciatura e o mestrado eventualmente candidatei-me a doutoramento, entrando no que desejava. Sentia-me feliz, mas as propinas de 2 750 euros anuais, juntamente com os custos de estudante deslocado, traziam consigo ansiedade e responsabilidade.

Durante o primeiro ano, cheio de energia e ingenuidade, tentei garantir financiamento para o ano seguinte, algo extremamente competitivo. Não consegui. Até as estatísticas estavam contra mim: dois anos antes de ter ingressado no doutoramento, um estudo concluíra que 50% dos alunos de doutoramento nunca o acabam. Os factores envolvem os próprios alunos, relações com orientadores, a própria universidade e o seu ambiente. Com o tempo perdi a motivação que tinha. Era esperado que trabalhássemos muito mais horas que o saudável e que levássemos trabalho para casa, sempre. A falta de apoio que sentia na minha orientação e posteriormente a relação tóxica que daí emergiu, a terrível cultura institucional de considerar um doutorando um número, um fardo, descartável e despersonalizado, e a desconfiança com que nos fitavam quando mencionávamos os nossos hobbies e quando tirávamos pausas, fazia-nos sorrir tristemente por sabermos que precisávamos combater aquela cultura sabendo também que não iríamos conseguir.

A universidade, que deveria proteger os seus alunos dando-lhe as condições ideais para florescer, interessava-se apenas com a sua imagem. Disseram-nos que tínhamos razão mas que nunca o admitiriam. Fizeram-nos promessas que nunca cumpriram. Contornaram regulamentos e concursos sempre com o aviso de estarmos a ser uma pedra no sapato da instituição que um dia escolhemos e para a qual contribuíamos com as nossas propinas e produção científica. Ter entretanto vencido um concurso de bolsa no lugar de felicidade causou-me dores e dissabores que me levaram a recorrer a antidepressivos e a ansiolíticos, que não dormisse, que destruísse relações, e que cada vez produzisse ainda menos.

Na sociedade começa-se a discutir abertamente saúde mental, mas na universidade é ainda tabu. Um estudo publicado na Nature Biotechnology avisou existir uma crise de saúde mental em doutorandos, sendo seis vezes mais provável contraírem uma perturbação de ansiedade ou depressão do que a população geral. Embora internacionalmente algumas universidades se mostrarem atentas, em Portugal, cujas perturbações de ansiedade e do humor podem em jovens ascender a 30,5 e a 22,2% respectivamente, pouco está a ser feito para colmatar o problema e a sensibilidade para com ele é baixa. Embora algumas universidades portuguesas tenham gabinetes de apoio psicológico, o tabu permanece, continuando a ser esperado, como dito por aquele funcionário da FCT, que o trabalho seja feito, dia após dia, conquistando o espaço que é dos amigos e familiares, do sono e da diversão, do resto da vida.

Sem saber como, a tese acabou entregue e defendida. Durante a defesa estavam na plateia os que amo, menos a minha mãe. O meu doutoramento ter-me-ia consumido sem eles. Assim, apenas envenenou. Desde esse dia, há cinco meses, tenho tentado expulsar o veneno que permanece. E se a posição que agora ocupo é precária — os investigadores não são considerados trabalhadores, vivem a vida em trechos de três, seis e 12 meses nunca se sabendo se terão que emigrar, se alguma vez terão condições para ter filhos ou casa permanente — foi para a conquistar que ingressei no doutoramento. E por muita dor que tenha sofrido, valeu a pena.

A ti, que lês este texto, espero que não te identifiques e que digas que este é apenas um caso extremo. Sortudos! Mas se estás prestes a ingressar num doutoramento, não tenhas medo. Converte-o em determinação. Faz ouvir a tua voz. Trará dissabores e irás pensar que mais valia o silêncio e te deixares ir na onda da inércia. Luta! Chama a atenção de quem é mais alto que tu. Luta! Pode ser que também valha a pena e que haja luz ao fundo do canudo que te dará o grau. Por muito que te sintas só lembra-te que contigo estão milhares que passaram, passam ou passarão pelo mesmo que tu.