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Megafone

Antes que a morte nos separe

Nos tempos que se vivem, e não se culpe a pandemia, um encontro cara a cara, olhos nos olhos é cada vez mais raro. E podemos vir-nos a arrepender mais tarde.

“Obrigado por não desistires de mim!” Quando um amigo teu te envia esta mensagem ficas a pensar o que é que fizeste de tão fantástico. É verdade que já não nos falávamos há algum tempo, como acontece cada vez mais com a maioria das pessoas, porque afinal dizem que não há tempo. Mas muitas vezes há, só que escolhemos fazer outras coisas em vez de ligar ou escrever a quem gostamos e até um sentimento de timidez nos traz a desculpa de não incomodar quem deve estar muito ocupado. Como se escrever a saber de alguém seja uma coisa menor, sem importância, que não faz falta para dar ânimo e alegria.

O que fiz não foi tão extraordinário assim, apenas aproveitei algum tempo para usar o WhatsApp e escrever: “Olá, como é que estás? Espero que esteja tudo bem contigo. Comigo tudo ok. Quando puderes dá notícias... Beijinho” e pus um smile no final, como se lá estivesse de verdade.

De tão fácil que é fica quase sempre para depois na lista de muitas intenções. Trinta segundos, um minuto talvez, não acredito que se perca mais tempo do que isto e depois podemos continuar a fazer o que fazíamos, que às vezes nem era nada, e esperar por uma resposta para alimentar este momento de tertúlia digital.

Nos tempos que se vivem, e não se culpe a pandemia, um encontro cara a cara, olhos nos olhos é cada vez mais raro. Porque a agenda não encaixa, porque a distância ainda é grande, porque se calhar não vale assim tanto o esforço para ir ver alguém e se a timidez já ataca quando se quer escrever, imagine-se o que ela faz quando pensamos com ousadia.

A idade traz realmente maturidade e não há outra forma de aprender a não ser passar por lá. Não sei ao certo onde fica o ponto de viragem, e porventura não é o mesmo para todos, mas há uma altura na vida em que percebemos que todas as pessoas que fomos conhecendo ao longo da vida são importantes.

Se é para falar todos os dias, de mês a mês, ou só no aniversário, se calhar nunca sabemos ao certo e vamos mudando essa opinião ao sabor do vento que sopra. Mas acredito que aquelas que permanecem são as que de alguma forma cuidamos sem impor regras, dando o que realmente só nós temos, a nossa presença, atenção e disponibilidade, quando for caso disso, sem cobrar, apenas sabendo estar e aceitar a dinâmica que a vida cria nas pessoas.

Respondi pouco tempo depois à mensagem que recebi, dizendo que é sempre bom ter notícias dela e saber que estava bem e, entre promessas de um encontro para breve e outras palavras simpáticas, despedi-me com mais um boneco amarelo a sorrir.

Entretanto, imaginei que se alguns dias depois recebesse a notícia que essa pessoa tinha morrido, iria por certo ter tempo para ir ao funeral. Afinal, era minha amiga, já não falávamos há alguns meses, mas tínhamos trocado umas mensagens naquela semana. Iria recordar o quanto gostava das conversas que tínhamos e a esperança de um encontro para breve estaria agora transformada em tristeza e saudade.

“Pena que não tivesse havido tempo” seria por certo um tema de conversa no reencontro de outros amigos no velório dela. As oportunidades surgem para fazer alguma coisa com elas, e aqueles momentos de confraternização seriam o momento de redenção de pessoas sempre muito ocupadas.

Ao voltar para casa, com a alma distante a acompanhar quem partiu, provavelmente teria vontade chorar. Sem gravidade ou sofrimento atroz, apenas porque sim, porque estava triste. À noite, antes de dormir, ficaria a pensar que está tudo nas nossas mãos, a todo o tempo, e que a atenção que damos a quem gostamos é um momento único que nunca sabemos se voltaremos a repetir.

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