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Não tenho tempo

“Não tenho tempo”. Muitas vezes disfarçada de “desculpa”, esta mentira à paisana visa desresponsabilizar-nos da nossa própria vida. É uma espécie de almofada onde encostamos a consciência e pensamos: “Até vivia como quero viver, mas não tenho tempo”

As horas voam e os dias passam. A vida é curta e, talvez por isso, poucos são aqueles que conseguem que ela lhes sirva. Mas, pelos vistos, ainda há tempo. Sobra tempo que chegue para nos vangloriarmos por não o ter. Erguemos a nossa agenda ocupada na esperança de sentirmos que temos uma vida preenchida. Olhamos para o relógio e aceleramos o passo. Sentimos que o tempo passa a correr, mas nós, espremidos pelos ponteiros impiedosos, limitamo-nos andar. Que tempos são estes em que parece que o tempo não nos dá tempo? Será verdade?

Na minha opinião, existem dois tipos de mentirosos. O primeiro é aquele que engana os outros, contudo está consciente, não só da verdade, mas também da sua falta de honestidade. O segundo tipo, mais comum do que imaginamos, é aquele que, além de enganar os outros, consegue também enganar-se a si próprio. Muitos de nós, se nos observarmos com imparcialidade, chegaremos à triste conclusão de que somos mentirosos do tipo 2. “Não tenho tempo” — a mentira mais frequente desta maleita social. Muitas vezes disfarçada de “desculpa”, esta mentira à paisana visa desresponsabilizar-nos da nossa própria vida. É uma espécie de almofada onde encostamos a consciência e pensamos: “Até vivia como quero viver, mas não tenho tempo”. Que alívio.

Somos engenhosos. Ora não temos tempo, ora já o estamos a fazer. De autómatos a autónomos em menos de nada, será? Fabricamos tempo nos tempos que já morreram, já repararam? Fazemos tempo quando o estamos a gastar e, de repente, a falta de tempo deixou de ser uma preocupação. Se os tempos mortos já não estão entre nós é por nossa culpa. Fomos nós que não lhes soubemos dar vida e os enterramos na cova do marasmo. Preenchemos essas horas com tédio, vazio e aborrecimento. Provavelmente aconteceu o que acontece sempre. Não tivemos tempo para agarrar os tempos moribundos. Fazer o luto está fora de questão, ora não fossemos nós os “tempicidas”.

Mudam-se os tempos, escondem-se as vontades. Conservamos amizades em grupos de WhatsApp e deixamo-las suspensas algures entre o “já não nos vemos há tanto tempo” e o “havemos de combinar qualquer coisa”. Não fazemos tempo para os amigos e trocamos o “como estás?” por um estado do Facebook que nos vai pondo a par das novidades. Enquanto vamos deslizando pelo feed até a nossa impressão digital ficar desconfigurada, vamo-nos tornando extensões das nossas cadeiras do escritório. “Sedentários crónicos incapazes de zelar pelo seu bem-estar” — é este o diagnóstico. Queremos apps que façam abdominais por nós e youtubers que nos enfiem uma dieta elaborada pelos olhos. Sabemos tanto e fazemos tão pouco. É preciso um susto para que percamos o medo de viver? Até gostávamos de ser memoráveis, épicos e inigualáveis. Contudo, só arranjamos tempo para fazer história quando vamos ao Instagram. Vá lá, certamente somos capazes de fazer algo que dure mais do que 24h.

O tempo cura tudo, mas nunca mais chega a hora. É uma perda de tempo viver todos os dias de forma igual. Fazemos copy paste a cada ano da nossa existência e depois admiramo-nos de não lhes poder chamar de vida. Vamos acrescentando anos à idade, pensando que a quantidade pode sobrepor-se à qualidade. Jamais. Assistimos à mudança da hora, mas continuamos sem ver a hora de mudar. Porquê? O tempo voa e, enquanto não as abrirmos, nunca saberemos o quão grandes são as nossas asas.

Desvenda-te. No final de contas, tudo isto terá sido apenas um passatempo. Se foi bem ou mal passado, só depende da intensidade com que chamaste pela vida.