Candidatos a “doente mental”?

A doença, em especial a “da alma”, não escolhe idades, raças, credos, orientações ou classes sociais. E também não escolhe o país onde ocorre: em alguns é uma condenação à morte ou a uma prisão perpétua dentro de nós mesmos; noutros, como no nosso, pode ser uma pena suspensa; naqueles que a encaram de modo sério, será um problema sem pena e com acompanhamento técnico

É demasiado fácil encontrá-la. Pode ser aos 11 anos, na sequência de um professor que “tome de ponta” um catraio e faça desmoronar a sua estrutura psicológica, numa altura em que o «bullying» não existia e os direitos dos estudantes eram quase uma miragem. Numa altura em que os docentes e quem neles mandava tinham efectivo poder nas salas de aulas. Segue-se um período de trevas, de desconhecimento, de muito profundas dores no espírito e no peito, que puseram a descoberto um “vazio interior” que jamais o abandonaria.

A inteligência e sagacidade de uma mãe aflita fê-la recorrer a tudo, até a um curandeiro que lhe segredou que o miúdo tinha uma grande protecção divina, que aquele “mal” era da mão dos médicos. E assim surge a pedopsiquiatria, que medicava como se usava na altura e em que só a ameaça de um internamento num “hospital de malucos” fez o adolescente regressar à escola, da qual ganhara um medo de morte. A véspera foi dura, por entre berros e gritos que arrancavam a alma e um pai desesperado que fez o que achava melhor. Do miúdo nunca sairiam, porém, as dores físicas que se associaram à dor moral de não entender porque estava a ser punido somente porque tinha muito medo.

A vida vai-se encarregando de fazer destas pessoas, amiúde, uma espécie de exemplo, sobretudo na sensibilidade da relação com os outros. Desenvolve-se uma capacidade de escuta e de auxílio muito afiadas e, com a ajuda de medicamentos, a “normalidade” ia aparecendo. Inúmeras dúvidas, inseguranças, baixa auto-estima, um desejo infindo de agradar aos outros e um não saber o que se deseja do mundo, numa fase em que tal já não é próprio. Universidade e a felicidade de uma integração quase perfeita, mas em que o vazio existencial lá continuava, mascarado com pastilhas e terapias. Individuais, psicodrama, psicanálise. Esta, a mais dura de todas, a demandar um prato de sopa e uma noite mal dormida, tantas e tão profundas eram as implicações do que se havia dito, reflectido, do que se procurava sublimar. Tanta sublimação que os raciocínios mais difíceis terão sido aqueles que ali se desenvolveram: imagens internalizadas, falsos diagnósticos, complexos eternos. Amaldiçoou-se Freud e os seus seguidores puristas.

Libertação por conta própria e novo fundo muito fundo. Nova ajuda procurada. Sempre tudo com recurso a fundos próprios, pois sabemos todos como o SNS e os poderes públicos olham para a saúde mental. Se o agora homem da nossa história não tivesse o mínimo de meios, hoje não estaria entre nós: por se ter tornado intelectual e mentalmente incapaz ou por ter desistido de viver. E é grato a todas e a todos os psis que o ajudaram. Dotaram-no de úteis instrumentos para ler os outros. As individuais e as terapias de grupo, em que se sente a comunitarização da loucura e a sua democraticidade. Em que se conclui que a doença mental é um misto de construção social, de sofrimento para o próprio e para terceiros, das suas manifestações objectivas e do modo como tudo isto impede o ser humano de conduzir uma vida que seja, para si, recompensadora, dentro dos limites do que se define como “normalidade” e como lei.

Ri-se ainda hoje da noção de “saúde” da OMS, comparando-a a um “nirvana”. Diz que ninguém é saudável nessa acepção e, porventura, ainda bem. Vai falando aqui e além deste estado, não por desejar piedade ou facilitismo, mas para demonstrar a todos quanto é normal padecer de qualquer problema que nos afaste de uma saúde mental “normal”. Isso e para demonstrar que, com o acompanhamento correcto, pode ter-se uma vida estatisticamente normal, sem que tenhamos de desejar pôr termo ao bem supremo. Se passa pela cabeça desse homem o caminho das trevas? Não mais do que a generalidade dos seus concidadãos. Fala ainda por ser profunda a crença de que a massa humana é a mesma e prova disso é a doença, em especial a “da alma”: não escolhe idades, raças, credos, orientações ou classes sociais. E também não escolhe o país onde ocorre: em alguns é uma condenação à morte ou a uma prisão perpétua dentro de nós mesmos; noutros, como no nosso, pode ser uma pena suspensa; naqueles que a encaram de modo sério, será um problema sem pena e com acompanhamento técnico.

Quando nos apressarmos a julgar e a punir os demais, lembremo-nos deste miúdo que se fez homem, personagem real ou fictícia, que continua com o peito aberto, sem carne numa boa parte dele, mas que ainda não perdeu a coragem de procurar ser um pouco mais feliz, ainda que não entenda totalmente as razões da infelicidade. Nunca ninguém tem tudo e nunca isso impediu de alguém ser atacado pelo “mal”. O que se pode pedir é que não viremos a cara, que não finjamos que está tudo bem, que procuremos ajuda e que ajudemos outros a ajudarem-se. Uma simples palavra pode ser a diferença entre o festim da vida e a barca da eternidade.