“Deixaram-me trabalhar, deram-me corda, depois ataram-me e atiram-me ao rio”, defende-se ex-director do Museu da Presidência

Diogo Gaspar começou a ser julgado pelos crimes de abuso de poder, participação económica em negócio, tráfico de influência, falsificação de documentos, peculato e branqueamento de capitais. Está acusado de 42 crimes.

O ex-director do Museu da Presidência da República, Diogo Gaspar, está acusado de 42 crimes.
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O ex-director do Museu da Presidência da República, Diogo Gaspar, está acusado de 42 crimes. ANTÓNIO JOSÉ

O ex-director do Museu da Presidência da República Diogo Gaspar, que começou esta quinta-feira a ser julgado, no Campus da Justiça, em Lisboa, pelos crimes de abuso de poder, participação económica em negócio, tráfico de influência, falsificação de documentos, peculato e branqueamento de capitais, num total de 42 crimes, defende-se com a tese de uma cabala.

O arguido decidiu prestar declarações e diz que houve um grupo de pessoas, funcionários, que o quis afastar do cargo de director do Museu da Presidência e promete denunciar cada uma delas ao longo do julgamento.

“Deixaram-me trabalhar, deram-me corda, depois ataram-me e atiram-me ao rio”, disse, sublinhando que tudo o que fez foi sempre por incentivo de superiores e até dos presidentes da República.

Diogo Gaspar alega que os factos de que está acusado não correspondem à verdade. Dá como exemplo o facto de o terem acusado de roubar objectos do museu e até um quadro de Jorge Sampaio.

O ex-director do museu conta até que, quando a Polícia Judiciária fez buscas em sua casa e da sua família, em Portalegre, as autoridades foram ao hospital tirar de uma consulta uma caseira (empregada da família) já de certa idade.

Segundo o arguido, mostraram-lhe imagens de um quadro de Jorge Sampaio, ex-Presidente da República, e perguntaram onde o tinha visto. A senhora terá respondido: “No Museu da Presidência durante uma visita há umas semanas.”

“Nem assim desistiram”, diz Diogo Gaspar, acrescentando que a PJ “não se deu ao trabalho de ir ver ao museu se, de facto, faltava alguma coisa”.

Diz o arguido que lhe foram apreendidos muitos bens de família e que a sua mãe morreu e nem as partilhas foram feitas. “Não recebi nada, nem nunca pedi um tostão”, alega o arguido, que disse ao juiz ser alvo de uma cabala por inveja.

“Eu era conhecido como um dos melhores na minha área, tinha direito a trabalhar na Presidência e fora dela, assim como outros que lá estão”, disse, acrescentando que sempre foi muito elogiado por todos e até condecorado e que isso suscitava muitas invejas. “As pessoas que me tentaram prejudicar foram pessoas a quem eu dei a mão”, disse.

A exposição do arguido acabou por ser interrompida pelo juiz, que entendeu que aquele podia prestar declarações, mas no âmbito das questões que lhe iam sendo colocadas e sobre os factos que estão vertidos na acusação.

Para o juiz, Diogo Gaspar estava a fazer uma defesa com base num texto elaborado e sem se focar nos factos concretos de que é acusado.

Esta situação levou a que o advogado de defesa de Diogo Gaspar contestasse a decisão, alegando que era um direito do arguido e que era importante que ele pudesse fazer um enquadramento e contextualizar os factos.

Apesar do protesto, o juiz decidiu que os direitos do arguido estavam assegurados e que o julgamento ia prosseguir, mas com este a prestar declarações confrontado com os factos vertidos na acusação.

Segundo o Ministério Público, Diogo Gaspar utilizou a sua posição, funções e atribuições para obter vantagens patrimoniais e não patrimoniais indevidas, em seu benefício e de terceiros; violou vários deveres inerentes a um funcionário público, agindo por interesse próprio e não acautelando os interesses do Estado, transgredindo os seus deveres de isenção e de persecução de legalidade; e beneficiou as empresas dos amigos em negócios com o Museu da Presidência – tendo, ele próprio, beneficiado financeiramente – e, finalmente, teve uma intervenção na gestão da sociedade História Escondida.