Na prisão não há fotografias. Ela ajuda mães reclusas a criar álbuns de família felizes

©Jadwiga Bronte
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Nas prisões da Moldova, à semelhança do que acontece nas de muitos outros países, existem unidades especiais dedicadas a mulheres que são mães de crianças até aos três anos. No interior, mãe e filho (ou filhos) podem conviver num ambiente mais ameno, mais semelhante ao de um lar, enquanto decorre o cumprimento da pena. A fotógrafa polaca Jadwiga Brontē sabe que a vida no interior de uma prisão pode ser dura e, por isso, decidiu criar o projecto The Good Memories, que consiste na criação de um álbum de família “dos momentos felizes” de mães e filhos no interior da prisão.

“Todos temos fotografias da nossa infância”, explica Jadwiga, em comunicado dirigido ao P3. “Num mundo de smarphones, os pais fotografam quase todos os aspectos da vida dos filhos – o primeiro dia, o primeiro sorriso, o primeiro dente, etc.. Nós [os fotografados] podemos não ter memória desses acontecimentos, mas as imagens existem para nos revelar a nossa própria vida. É graças a esses registos que podemos recordar o nosso brinquedo favorito ou como era a nossa mãe quando éramos pequenos, a mulher que nos alimentou, vestiu e que tomou conta de nós.”

Para as crianças que passam os primeiros 18 meses de vida na cadeia, o direito à fotografia, ao registo das suas vidas, é um luxo inacessível. “Muitas não terão memória desses tempos. A única coisa que saberão é que começaram as suas vidas na prisão.” As crianças que foram abrangidas pelo projecto The Good Memories são, nesse sentido, menos desprivilegiadas: todas terão um álbum de memórias felizes captado por Jadwiga Brontē.

O álbum de Angela, mãe de seis filhos que vive na companhia da mais pequena, Aniutka, de sete meses, está repleto de sorrisos ternos, de desenhos, de autocolantes coloridos. “Olha para o meu sorriso! Estou com a minha mãe e estamos muito bem”, pode ler-se numa das páginas em que está colada uma fotografia do bebé feita com recurso a uma câmara instantânea. Noutra página, uma fotografia que mostra Angela a alimentar a bebé tem a legenda: “Aqui, a Aniutka ficou cansada de posar para as fotos e decidiu que tinha fome.” O espaço onde ambas vivem, na companhia de outra mãe e filho, tem, felizmente, mais semelhanças com um lar do que com uma cela: há plantas, brinquedos espalhados, decorações feitas à mão. Antes de Jadwiga, não havia fotografias sobre o papel que cobre as paredes do quarto. Mas, agora que existem, farão alguma diferença?

A polaca acredita que sim, que o álbum fotográfico de boas memórias tem um impacto positivo sobre a auto-estima das mães e sobre a memória futura das crianças. A fotógrafa argumenta que a memória é um elemento flexível, que tem a capacidade de mudar, de se adaptar a novos estímulos ou informações. E as imagens, neste contexto específico, funcionam como um suporte físico estanque em que ficam fixados apenas os momentos positivos.

“Apesar de as fotografias serem tiradas num ambiente controlado, tratado, acredito que é possível inserir essas memórias em mães e crianças, afectando a forma como se percepcionam – e até como se olham entre si, à medida que o tempo passa”, explica Brontē, apoiando-se nas teorias de desenvolvimento cognitivo preconizadas pela doutora em Psicologia pela Universidade de Harvard Nora Newcombe. “Creio que é possível, através de ‘terapia fotográfica’, fortalecer os laços entre pais e filhos, dar corpo à sua auto-estima, plantar sementes para que os pais se autopercepcionem como responsáveis e carinhosos – e não como criminosos. Isso irá reduzir o risco de reincidência.”

A polaca, que dedicou, desde 2019, vários meses aos projecto The Good Memories, deseja que as mães guardem apenas as boas memórias da sua experiência de maternidade. “Quero, no fundo, substituir a fotografia de uma vida difícil atrás de grades pela fotografia da relação única e preciosa que existe entre mãe e filho.”

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