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Reportagem

Mesmo em pandemia, eles foram à rua avisar: “Não há vacina que nos salve da crise climática”

Esta sexta-feira, em todo o mundo, os jovens voltaram a sair à rua a exigir justiça climática. Por cá, os protestos foram mais tímidos, mas sempre sem tirar a máscara. Em Lisboa, 300 pessoas marcharam pela Avenida da Liberdade a exigir mais acção política pelo clima. No Porto, sapatos representaram aqueles que não puderam ir, devido à pandemia. Há novas acções planeadas para 5 e 17 de Outubro.

“Não há planeta B!” Na descida desde o Marquês de Pombal até ao Rossio, não faltaram cânticos, cartazes e t-shirts em defesa do ambiente. Com alguns percalços pelo caminho, a greve pelo ambiente reuniu cerca de 300 pessoas esta sexta-feira, 25 de Setembro, em Lisboa, que protestaram contra a falta de medidas e acção política pelo ambiente.

O ajuntamento de estudantes pelo clima começou timidamente pelas 16h, com tantos jornalistas quanto manifestantes (e quase todos de máscara). O protesto foi crescendo e, uma hora mais tarde, o distanciamento social tornou-se praticamente impossível de manter.

As exigências foram muitas, com as principais a focarem-se no fim da utilização de combustíveis fósseis e do transporte aéreo, escutando-se também duras críticas ao capitalismo: “Menos avião, mais imaginação!”, “Justiça climática já!”, “A nossa luta é todo o dia, pela água, floresta e energia!” foram alguns dos gritos de guerra. Os cânticos foram sendo treinados na rotunda do Marquês, com os papéis com as letras a serem passados pelos manifestantes.

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Daniel Rocha

A greve foi organizada pela Greve Climática Estudantil e inseriu-se na vaga de protestos que aconteceram esta sexta-feira em todo o mundo para exigir que a pandemia de covid-19 não atire para segundo plano a luta contra as alterações climáticas. “Não há vacina que nos salve da crise climática”, diziam vários cartões. Ao P3, Marguerita Delgado, que também integra o movimento Fridays For Future em Madrid, afirmou que, devido à pandemia da covid-19, o combate às alterações climáticas “está a ser posto de lado”. “Devíamos aproveitar a situação da pandemia para pensarmos em novas soluções e em novas políticas ecológicas”, disse a estudante de 16 anos.

No Rossio, onde foi montado um palco para os discursos, o protesto foi-se dissipando, mas ainda se ouviram críticas ao Governo português, especialmente devido ao projecto do aeroporto do Montijo e à falta de avanço nas obras na Linha do Oeste.

Antes da chegada ao derradeiro destino, registaram-se alguns momentos mais tensos com as autoridades, que não queriam que os manifestantes ocupassem as faixas de rodagem da Avenida da Liberdade. “Disseram-nos que não podíamos marchar pela estrada. E não queriam que marchássemos pelo passeio porque as pessoas podiam não gostar da nossa manifestação. Mas a manifestação está legalizada e temos de ir pela estrada para termos largura para assegurar a nossa segurança!”, disse ao P3 Alice Gato, da Greve Climática Estudantil.

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Teresa Pacheco Miranda

No Porto, houve sapatos em vez de pessoas

No Porto, já passava das 17h30, hora marcada para o início da manifestação, e ainda se ultimavam cartazes. Os cerca de 30 participantes fiéis (alguns foram parando, mas seguiam caminho) ainda afinavam as vozes. Em frente à Câmara Municipal, viam-se dezenas de pares de sapatos pousados no chão, em representação de todos aqueles que não puderam, devido às restrições impostas pela pandemia, marcar presença no protesto. Junto dos sapatos, cartazes com palavras de ordem. 

O protesto simbólico, que também aconteceu em Lisboa nos Restauradores, foi ideia dos Parents for Future, o grupo de “pais” que se une ao Fridays for Future — e que mostra que esta não pode ser uma luta apenas dos jovens. “Somos o apoio para que eles possam fazer as exigências”, explica ao P3 Ana Luísa Duarte, membro do movimento. 

E as exigências são as mesmas desde o primeiro dia em que saíram à rua, como explica Gabriela Gomes, da Greve Climática Estudantil. “Não sentimos que tenha havido qualquer acção por parte do nosso Governo face às alterações climáticas”, começa. “Tomam decisões apenas a pensar na economia e não trazem justiça social e ambiental. Estamos sempre a dar passos atrás e a colocar o lucro acima da vida.” Por isso, pedem “uma transição energética justa”, a não concretização do aeroporto do Montijo e o fim das dragagens no rio Sado.

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“Não sentimos que tenha havido qualquer acção por parte do nosso Governo face às alterações climáticas”, diz Gabriela Gomes Daniel Rocha

Ao contrário das manifestações anteriores, em que se ouviam cânticos do início ao fim, no protesto desta sexta-feira não houve música por mais de 15 minutos. A adesão foi baixa, mas nada que Gabriela não estivesse à espera, num protesto em plena pandemia: “Nas nossas redes sociais referimos que não queríamos um aglomerado de pessoas. Pedimos que viessem só deixar os sapatos e que não ficassem por muito tempo.”

Além dos grupos Greve Climática Estudantil e dos Parents for Future, também membros do Extinction Rebellion marcaram presença na greve no Porto. Helena Teixeira explica que “apesar de o grupo optar normalmente pela acção directa não violenta e pela desobediência civil”, consideram importante participar nestas “acções simbólicas” e “unir esforços”. 

“Precisamos de uma mudança sistémica que permita reverter as alterações climáticas”, afiança a jovem. E apesar de todas as acções contarem — desde “utilizar transportes públicos, reciclar, mudar a dieta” —, reclama uma mudança nas “corporações que estão por detrás das alterações climáticas”. Se a mudança fosse feita por elas, “conseguiríamos reverter a situação”, acredita. 

“É muito difícil ser positiva nesta altura”, lamenta Helena. “Há dias em que penso que não vamos conseguir e que estamos a gritar e ninguém nos está a ouvir. Mas em dias como este, em que vejo pessoas que estão interessadas em ouvir, que já pesquisaram e se informaram, eu acredito que é possível.” Luta, pelo menos, os grevistas vão dar. Até porque, como foi anunciado em Lisboa, já há novas acções marcadas para o Outono, com marchas planeadas para os dias 5 e 17 de Outubro.

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Greta Thunberg protesta em frente ao Parlamento Sueco EPA/Janerik Henriksson
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Greta Thunberg, Suécia EPA/Janerik Henriksson
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Filipinas. Uma imagem onde surgem mãos ligadas em todo o mundo, para marcar a greve climática EPA/ROLEX DELA PENA
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Manifestantes na cidade de Rzeszow, na Polónia. EPA/DAREK DELMANOWICZ
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Rzeszow, Polónia. EPA/DAREK DELMANOWICZ
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Nairobi, Quénia Reuters/THOMAS MUKOYA
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Além das duas maiores cidades, houve protestos um pouco por todo o país. Em Coimbra, indica a agência Lusa, entre 30 a 40 jovens marcharam entre o Jardim Botânico e a Praça 8 de Maio, carregando cartazes com mensagens contra o capitalismo e a prospecção de gás natural, como “o capitalismo não é verde”, “Portugal sem furos” ou “não à mina, sim à vida”. Em Évora, um grupo de jovens concentrou-se junto ao Templo Romano, exigindo “uma transição climática justa”. “A terra esgotou a sua paciência e nós também”, gritaram os estudantes.

As acções marcadas em Portugal acompanharam os milhares de protestos em todo o mundo, organizados pelo Fridays For Future. A iniciativa é liderada pela sueca Greta Thunberg, que voltou a apelar aos estudantes para fazerem greve pelo clima, como a própria tem feito desde Março de 2018. Esta sexta-feira, Greta ergueu o cartaz “do costume” em frente ao Parlamento sueco, com a frase “Skolstreik för Klimatet” (do sueco “greve escolar pelo clima”).

Nas manifestações desta sexta-feira também se estreou um novo símbolo de protesto, pouco usado porém nos protestos portuguesas: com dois punhos cerrados e polegares para cima, os protestantes simbolizaram o termo MAPA, acrónimo de “Most Affected People and Areas” ("pessoas e áreas mais afectadas”, em tradução livre).

O símbolo serve para realçar o impacto das alterações climáticas em nações menos responsáveis por essas alterações que acabam por acarretar com os seus efeitos, como Tuvalu e Kiribati (de onde surgiu o primeiro refugiado climático do mundo). O termo MAPA procura também substituir a denominação de países do “sul global”.

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