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Um momento de publicação independente: Parque das Nações

Fanzines, edições de autor, livros de artista — nesta rubrica queremos falar de publicação independente. António Henriques apresenta Parque das Nações.

Apresenta-nos a tua publicação.
O livro resulta do levantamento fotográfico do Parque das Nações. O Parque das Nações surge no contexto da Expo 98, obra na qual o Estado português reordenou a frente oriental ribeirinha de Lisboa até então uma zona caótica formada pelos restos da cidade, lixeiras e indústrias de refinaria. Formado por uma ampla zona residencial de qualidade superior, complementada com comércio e escritórios, o bairro contém no centro o perímetro original da Expo 98, com uma série de estruturas monumentais e pavilhões de lazer e cultura de utilização pública. Usufrui também de um amplo jardim à beira Tejo, constituindo uma das zonas privilegiadas da cidade. O seu modelo de urbanismo foi um sucesso e está a ser implementado na vizinhança.

O perímetro da Expo 98 não me interessou, embora esteja povoado de monumentos relevantes, sobretudo por já estar bastante documentado. Foquei a minha atenção no bairro residencial e no seu jardim.

O livro surge no contexto de um projecto mais amplo, em que fotografo bairros ou locais diversos na época, urbanismo ou demografia, procurando neles, a par das suas qualidades geográficas, aspectos de natureza subtil  de uma certa poética que os tornam singulares. Convido-vos a conhecer melhor esse projecto, visitando o meu site.

Quem são os autores?
Miguel Henriques (Lisboa, 1970). Sou licenciado em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa desde 1994 e concluí o Curso de Fotografia Avançada na AR.CO, Centro de Arte e Comunicação Visual em 2012. Desde 2009, venho produzindo um levantamento fotográfico da periferia de Lisboa.

Publiquei os livros Olivais (edições da Pianola) em 2012, Loures (edições de 100 cabeças) em 2015 e Parque das Nações em 2020. De 2012 a 2017, colaborei na organização da Feira do Livro de Fotografia de Lisboa, um evento anual que promove o livro de fotografia, bem como as publicações de autor e maquetes.

Do que quiseste falar?
A zona Oriental de Lisboa é um território que me é bastante familiar, visto ser a minha área de residência – vivi nos Olivais durante 28 anos e vivo actualmente no Parque das Nações. Quando me interessei pela fotografia de paisagem urbana, dei-me conta que nesta zona encontramos vários bairros com um carácter emblemático.

A par dos diferentes tipos de arquitectura, encontramos a história de Lisboa reflectida na Encarnação, pelo seu estilo Casa Portuguesa evocativo dos primórdios do Estado Novo, na escala e preocupação social dos Olivais modernistas, bairro do período marcelista, e vemos a prosperidade e optimismo que se viveram nas primeiras décadas posteriores à adesão à CEE, reflectidos no Parque das Nações.

O livro Parque das Nações faz parte de uma série fotográfica onde retrato bairros, começada com os Olivais (publicado em 2012 pela Editora Pianola).

Questões técnicas: quais os materiais usados, quantas páginas tem, qual a tiragem e que cores foram utilizadas?
O livro é de tamanho A5 vertical (14,9 cm por 21 cm). Tem 80 páginas. As imagens são a preto e branco, impressas a jacto de tinta em CMYK em papel couché mate de 170 gramas. A tiragem é de 75 exemplares assinados e numerados. Foi impresso pela Pixartprint.

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Onde está à venda e qual o preço?
Custa 15 euros e está à venda na Papelaria Terreiro no Terreiro dos Corvos, no Parque das Nações, na STET ou por encomenda para Miguel Henriques ou Susana Paiva.

Porquê fazer uma edição de autor hoje em dia?
Certamente que não sou motivado pelo lucro financeiro, uma vez que prevejo um período longo para compensar o custo da impressão, dado que os livros se vendem sobretudo em feiras de edição e apresentações que acontecem pontualmente. Prevejo também ocupar parte da arrecadação com a armazenagem dos livros, em detrimento de algumas garrafas de vinho e outros itens.

Contudo, nos últimos anos assisti a uma substancial melhoria da qualidade de impressão em jacto de tinta (print on demand). Esta permite tiragens muito menores do que a impressão em offset, com preços competitivos, atenuando os males que referi.

Simultaneamente, sinto a necessidade de dar a conhecer o meu trabalho fotográfico, que vai ganhando massa crítica, quer em volume de trabalho, quer conquistando um público que, ainda que pouco numeroso (por hora), é diverso, abrangendo moradores dos bairros, alguns coleccionadores mais atentos, arquitectos, fotógrafos, entre outros. Este público crescente incentiva-me a continuar.

Recomenda-nos uma edição de autor recente lançada em Portugal
Rêverie & Description. O desvio que fez a curva do rio, com fotografia de Paulo Catrica e texto de João Pinharanda.

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