O Desporto Juvenil e a dualidade de critérios

Depreendo que o Desporto Juvenil, ainda que seja uma escola de ética, cooperação, amizade e um factor importante para a saúde física e mental dos jovens, não é tão importante lucrativamente como o desporto sénior e, portanto, aos olhos da DGS pode esperar. Não, não pode esperar. Os jovens, os clubes e as federações não podem esperar.

Foi com consternação, mas não com surpresa, que vi as medidas emitidas pela DGS em relação à prática desportiva, especificamente em relação ao Desporto Juvenil. O desporto e a actividade física em Portugal sempre foram dos parentes mais pobres em relação a outras actividades. É quase cultural.

Os sucessivos governos do PS, mas também do PSD, têm desvalorizado a Educação Física e o Desporto Juvenil, a começar pela Educação Física Escolar (ou falta dela). A disciplina de Educação Física é muitas vezes a única oportunidade que os jovens têm para praticar a actividade física.

A legislação actual inclui no ensino básico a disciplina no regime de AEC, sendo, portanto, optativa. Os docentes do ensino básico devem ministrar a disciplina conforme fazem com todas as outras matérias curriculares, sendo que obviamente não se sentem à vontade para o fazer, restringindo-se muitas vezes a actividades simples, que não servem o propósito de aquisição de competências esperado pelas crianças naquela idade.

Assistimos à desvalorização da profissão de professor de Educação Física, desvalorização da disciplina de Educação Física e desvalorização da saúde física e mental dos nossos jovens, que a propósito já se encontram em sexto lugar a nível europeu no que diz respeito aos níveis percentuais da obesidade. Urge uma mudança de paradigma, num país em que nunca vi um secretário de Estado da Juventude e Desporto debater-se para alterar esta realidade.

No ensino secundário a disciplina já contou para a média de acesso ao ensino superior, já deixou de contar, já contou sob determinadas condições e voltou novamente a contar. Numa instabilidade que passa apenas uma mensagem: a literacia física tem sido completamente irrelevante para os nossos governantes. É triste ver que passam vários governos e todos deixam na gaveta a máxima “mente sã em corpo são”.

A Secretaria de Estado da Juventude e Desporto tem sido cega, surda e muda. Estando inserida no Ministério da Educação, seria de esperar que uma das suas prioridades fosse justamente a dignificação da disciplina da Educação Física e dos seus profissionais. Mas não. Recentemente, numa entrevista ao PÚBLICO, o secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, vai ainda mais além a demonstrar a sua desconexão com a realidade, afirmando que “não temos conhecimento de nenhum clube que tenha fechado portas”, rejeitando assim os sinais preocupantes colocados pelas instituições desportivas que antecipam uma debandada nos escalões de formação por falta de competição.

Não me admira, portanto, entre tantas dualidades de critérios no que às medidas preventivas da covid-19 dizem respeito, que o Desporto Juvenil seja mais uma das áreas que se vê discriminada. Há alguma razão que justifique que os desportistas seniores possam regressar aos treinos e competição e os jovens não? Nada parece sustentar esta discriminação. Até porque, aparentemente, os jovens não são um grupo de risco.

Os Clubes Desportivos, as Federações e os Profissionais da área veem assim o seu meio de sustento em risco. Para muitos clubes, os escalões de formação representam 90% da sua receita.

Depreendo que o Desporto Juvenil, ainda que seja uma escola de ética, cooperação, amizade e um factor importante para a saúde física e mental dos jovens, não é tão importante lucrativamente como o desporto sénior e, portanto, aos olhos da DGS pode esperar. Não, não pode esperar. Os jovens, os clubes e as federações não podem esperar.

A Iniciativa Liberal reagiu imediatamente às normas da Direção-Geral da Saúde sobre o desporto jovem e a pedir uma alteração destas orientações “graves e inconcebíveis” para que haja regras iguais para todos os escalões, em mais um sinal que é praticamente o único partido com preocupações com as novas gerações.

E permitam-me que deixe aqui um alerta. A longo prazo, não existirá Desporto Sénior se o Desporto Juvenil continuar a ser relegado para segundo plano. Os escalões de formação são fundamentais para a continuidade do Desporto de alto rendimento. Queremos regras iguais para todos os escalões etários. Queremos um sistema justo, que faça sentido.

É assim no desporto, como em tanto na vida. Se não tratarmos dos mais jovens não estaremos a tratar do futuro.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico