R.D. do Congo: tropas da ONU guardam o Nobel da paz Denis Mukwege, ameaçado de morte

O ginecologista que trata crianças e mulheres violadas foi ameaçado depois de ter exigido justiça para mais um massacre e de ter lembrado que o conflito começou com a intervenção do Ruanda.

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Denis Mukwege Yves Herman/Reuters

Tropas da missão de paz das Nações Unidas voltaram a fazer protecção ao Prémio Nobel da Paz Denis Mukwege, que recebeu ameaças de morte nas últimas semanas, depois de ter pedido justiça para as repetidas violações dos direitos humanos na República Democrática do Congo.

Mukwege recebeu o Nobel em 2018 pelo seu trabalho de décadas a tratar as mulheres e crianças vítimas do conflito em Bukavu, no leste da RD do Congo.

Há muito que faz apelos aos tribunais internacionais para agirem quanto aos crimes de guerra cometidos entre 1993 e 2003, pedindo também que sejam levados à justiça os grupos armados responsáveis pelos crimes continuados de violência sexual no leste do Congo.

O ginecologista e a sua equipa no hospital de Panzi já trataram dezenas de milhares de vítimas de violação. Em Agosto, fez declarações a condenar e a exigir justiça após mais um massacre na região onde está baseado. 

Ao condenar o massacre de 18 pessoas na província de Kivu, relacionou, no Twitter, o ataque ao início, há mais de 20 anos, da guerra no leste do Congo que começou em 1996 com a invasão do país por grupos armados patrocinados pelo Ruanda. “São os mesmos que continuam a matar na RD Congo”, escreveu.

As suas palavras abriram uma polémica com o vizinho Ruanda, cujo ministro da Defesa acusou Mukwege, em Agosto, de espalhar propaganda.

A persistente violência no leste do Congo tem as suas raízes nas feridas políticas e étnicas abertas com o genocídio de 1994 no Ruanda, que cruzou a fronteira. A invasão do Congo pelas tropas apoiadas pelo Ruanda, depois do genocídio, fez eclodir duas guerras civis que mataram milhões de pessoas.

A ONU tem uma missão de paz na região, a MONUSCO, mas continuam activos muitos grupos armados que cometem massacres e violações.

As Nações Unidas consideraram que a vida do médico está em perigo depois de Mukwege e a sua família terem recebido ameaças de morte através de telefonemas e das redes sociais.

As tropas da missão de paz da ONU na RD do Congo já tinham feito protecção ao médico, mas suspenderam-na em Maio devido à pandemia da covid-19, quando alguns soldados destacados no hospital de Panzi terem ficado infectados.

“Os soldados da missão de paz voltaram para garantir a segurança no hospital de Panzi”, disse Mathias Gillmann, porta-voz dos capacetes azuis no país.

Na semana passada, milhares de apoiantes de Mukwege e do seu trabalho marcharam nas ruas de Bukavu, exigindo que fosse protegido. E na sexta-feira, a Amnistia Internacional tinha pedido uma intervenção urgente para garantir a protecção do médico. 

“Congratulamo-nos pelo regresso dos elementos da MONUSCO a Panzi esta manhã para garantir a segurança dos nossos doentes e funcionários”, reagiu o médico.