Opinião

Cuidar de quem trabalha nos lares de idosos

Cuidar implica toque, proximidade, e o que antes humanizava a relação, naturalizando-a, hoje é medido, é objecto de reiterada e complexa gestão. E isso desgasta. Desgasta muito.

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@petercalheiros

A situação trágica que aconteceu em Reguengos de Monsaraz levantou o véu sobre outros casos semelhantes que incluem a falha do Estado na fiscalização das condições em que se encontram os mais velhos que vivem em lares. Este acontecimento deve servir de chamada de atenção para a promoção do bem-estar das pessoas que vivem em Estruturas Residenciais para Idosos (ERPI) e dos profissionais que lhes prestam cuidados, sendo que muitos destes últimos provavelmente se encontram esgotados dado o excesso de trabalho, a incerteza e as exigências diárias a que estão sujeitos por aquilo que fazem ou deixam de fazer pelos utentes.

Sob o particular escrutínio de lideranças preocupadas e de famílias que viram as visitas aos seus familiares condicionadas, os trabalhadores dos lares muitas vezes reinventam-se para prestar os cuidados habituais, mas sobretudo para fazê-lo sob circunstâncias excepcionais. Ao cuidar rotineiro acresce agora uma vigilância e controlo permanente dos contactos físicos entre residentes e visitantes e a natural gestão do isolamento e da solidão de quem tem como casa o lar. Tudo tendo por pano de fundo estados emocionais alterados: o dos residentes, o das famílias e os seus.

Mas que sensibilidade social temos para com os profissionais que cuidam dos nossos idosos nos lares?

As ERPI sempre estiveram sob pressão, agora mais do que nunca. Há unidades residenciais que realmente proporcionam boa qualidade de vida aos idosos (geralmente com dirigentes e profissionais mais qualificados e com formação especializada), há outras que são razoáveis, mas há muitas que não cumprem os critérios mínimos de prestação de cuidados dignos. Neste último caso, vários factores podem contribuir para a ineficácia dos serviços, como a inadequação das infra-estruturas, o rácio baixo de funcionários por utente (e a sobrecarga de trabalho que se lhe associa), a reduzida remuneração, a pouca ou nenhuma formação no trabalho específico que prestam, o desconhecimento ou a não-valorização da realidade da velhice do ponto de vista do desenvolvimento (incluindo as mudanças físicas, cognitivas e sociais que ocorrem à medida que o indivíduo envelhece e o reconhecimento de que o velho deixou para trás uma vida, a sua casa e as relações com os filhos, os netos e outros familiares), e a ampla ausência de reconhecimento social das muitas e exigentes funções realizadas. Tudo isto contribui para o esgotamento físico e psicológico (burnout) e para o criar distanciamento e sentimentos negativos em relação ao trabalho e às pessoas que estão a precisar de cuidados.

Cuidar pressupõe criar laços e em situações de esgotamento estes canais de conexão com o outro podem estar inexistentes gerando consequências desde a redução da eficácia no trabalho até experiências de stresse e de conflito que podem culminar em abuso sob a forma de agressão física e/ou verbal e negligência. As consequências para os profissionais, designadamente para os ajudantes de lar, sendo múltiplas e particularmente intensas, incluem ansiedade, sintomas depressivos, problemas de sono e de saúde física que, num contexto como o que hoje se vive, se traduzem em verdadeiros estados de exaustão emocional. Cuidar implica toque, proximidade, e o que antes humanizava a relação, naturalizando-a, hoje é medido, é objecto de reiterada e complexa gestão. E isso desgasta. Desgasta muito.

Sabe-se hoje que os níveis de burnout nos profissionais que trabalham nos lares tendem a associar-se a múltiplos factores, dos quais se podem destacar a frequente dificuldade em se “desligar” das exigências emocionais decorrentes do contacto directo com a fragilidade humana, com a dependência tantas vezes marcada por situações de demência e com a morte. O cansaço e a tensão que alguns profissionais que trabalham em lares vivem diariamente colocam-nos a eles e aos residentes em risco, chamando a atenção para a necessidade de garantir melhores condições de trabalho, incluindo um horário com pausas regulares, formação, apoio psicológico para quem precisa (como uma oportunidade para regular emoções), a criação de um ambiente de trabalho com melhor comunicação, genuíno espírito de equipa e liderança aberta ao reconhecimento das dificuldades, exigências e tensões com que os profissionais se deparam diariamente. A estas condições acresceria a necessidade destas pessoas encontrarem um maior equilíbrio entre a sua vida pessoal e profissional, com momentos de pausa e de descanso, o estabelecimento de uma perspectiva de carreira progressiva que permitisse o reconhecimento dos anos de trabalho dedicados ao cuidado e incentivasse à motivação para uma formação contínua.

Mas fora das instituições também a sociedade em geral tem de estar mais ciente das condições necessárias a um cuidado optimizado às pessoas idosas. Tal passa pelo conhecimento mais sustentado do que ocorre nas instituições, designadamente do quão exigente é cuidar dos mais velhos e das circunstâncias em que muitas vezes tal é feito, e pelo reconhecimento dos bons exemplos que felizmente também existem no nosso país. Exemplos onde o zelo, o respeito pela independência, autonomia e individualidade de cada residente é palavra de ordem de quem cuida e de quem gere os cuidados.

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