PS pede estabilidade e consensos para enfrentar tempos de ressaca e incerteza

Na rentrée socialista, foram vários os dirigentes que abriram as portas aos partidos de esquerda, num gesto acompanhado por fortes avisos. Os portugueses irão “julgar com severidade” quem virar as costas ao PS, avisa Carlos César.

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LUSA/PAULO NOVAIS

António Costa não o mencionou na conferência que marcou a rentrée dos socialistas, mas, à porta do Convento São Francisco, em Coimbra, falou em “excelentes condições” para a construção de pontes à esquerda. Carlos César, que fechou os trabalhos do dia, foi mais explícito, tanto no convite, como nos avisos. E a mensagem não podia ser mais clara: se os partidos de esquerda não derem respaldo ao Governo PS, os socialistas irão atirar a responsabilidade para cima dos antigos elementos da “geringonça”.

A mensagem que o partido do governo quis passar foi de que um acordo é essencial para enfrentar o que aí vem e “estabilidade” foi uma das palavras que mais se ouviram no auditório onde os socialistas estiveram reunidos.

A pandemia, disse César, pôs a nu a “absoluta necessidade de confluência que assegure, sem mais demoras, um governo com uma orientação estável, e um programa de recuperação com fôlego e sentido de médio prazo indispensável”. Se tal não acontecer, disse o presidente do Partido Socialista, os portugueses “terão certamente razões para julgar com severidade os que virarem as costas ao futuro”.

O tom é semelhante ao do primeiro-ministro que, em entrevista ao Expresso, disse que, caso não houvesse um entendimento, a crise política estava à porta. Costa foi acusado de chantagem, uma avaliação que Carlos César rejeita. “Não vejo chantagens ou arrogâncias nesses apelos, vejo uma grande humildade e uma grande consciência do interesse nacional”, considerou.

Apesar de o presidente do PS classificar os outros partidos como “críticos e raramente proponentes” quando “é necessário melhorar ou superar insucessos”, reafirma, ao mesmo tempo, a aproximação aos parceiros de esquerda como “opção inequívoca”.

Uma opção que Costa não assumiu perante a plateia de 500 autarcas, ministros e dirigentes socialistas, apesar de serem vários os oradores que o fizeram ao longo do dia. Num discurso de quase uma hora, em que detalhou várias medidas do Plano de Recuperação e Resiliência do governo, o primeiro-ministro apelou a “um consenso” económico, político e social para ultrapassar a crise causada pela pandemia, mas deixou de fora as referências a eventuais parceiros de esquerda.

As exigências mais expressivas ficaram por conta de Carlos César. “O que está em causa para recuperar Portugal é muito para concordarmos apenas em apouco, é demasiado prolongado para pensarmos apenas ano a ano”, advertiu o presidente. E prosseguiu: “o que está em causa exige a mobilização da confiança para além do curto prazo; exige muito diálogo, mas exige vontade política. O Governo, neste tempo decisivo, não pode depender de humores acidentais”.

De manhã, Ana Catarina Mendes tinha dado o mote, ao dizer que o PS conta “com o sentido de responsabilidade dos partidos” que compõem a maioria de esquerda no Parlamento, “respeitando as diferenças, mas pondo sempre o interesse nacional de Portugal acima de qualquer agenda ou tacticismo partidário”. “O tempo não é de expectativas irrealistas, feitas de pressões, chantagens ou olhares sobre o umbigo”, avisou a líder parlamentar.

"Ressaca e incerteza”

No final da conferência, Costa saiu de Coimbra sem falar à comunicação social, depois de, à entrada, ter recusado a ideia de ultimato aos potenciais parceiros de esquerda. Lá dentro, o discurso foi sobre como recuperar Portugal – que era o tema da conferência - e menos rico em recados políticos.

“Não podemos simultaneamente dizer que estamos a enfrentar a maior crise económica de sempre e esperar que essa crise económica vá desaparecer por milagre amanhã, se a covid desaparecer, apontou António Costa. “Não vai, vai deixar marcas, porque houve empresas que foram destruídas, há empresas que não vão reabrir e há capital que se perdeu”, afirmou num discurso de uma hora em que estabeleceu os pontos prioritários do programa de recuperação do país.

Neste trabalho, sublinhou o chefe de governo, o país tem de “maximizar a utilização das subvenções e limitar ao máximo necessário o recurso a empréstimos”, uma vez que Portugal continua a ser “dos países com uma dívida mais elevada”.

Isto no mesmo dia em que o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, falou no início de uma “crise muito profunda”. E se há medidas de amortecimento, Marcelo considera que “estamos ainda na ponta do icebergue”.

A intervir no encontro do PS, o ministro da Economia. Pedro Siza Vieira acredita que “a mais intensa contracção da actividade económica ficou para trás” e que “veremos a actividade económica a recuperar gradualmente”.

Mas essas não são notícias completamente favoráveis, uma vez que “crescimento vai ser menos intenso do que a quebra”. Ou seja, a recuperação vai demorar tempo. Só no final de 2021 ou em 2022 o Produto Interno Bruto mundial deverá regressar a níveis de 2019, apontou o ministro. Até lá, Siza Vieira prevê que os próximos tempos venham a ser “de ressaca, de incerteza sobre a evolução económica e sobre o ritmo de recuperação”. “Não se passa por uma crise desta natureza sem consequências severas na economia e na sociedade”, disse, para referir que há empresas que não sobreviverão e empregos que se perderão.

Os tempos que se aproximam vão “criar ansiedade e gerar um potencial de conflitualidade social”, daí que o ministro entenda que é “absolutamente indispensável que o governo possa ser um farol de estabilidade”.