E se bolas de sabão ajudassem as abelhas na polinização das plantas?

Está a chegar o momento em que o mundo poderá vir a assistir à utilização de drones munidos de um aparelho que distribui balões sabão com pólen dissolvido.

Foto
Bola de sabão quimicamente funcional para a polinização numa campânula (Campanula persicifolia) Eijiro Miyako

Quem não tem abelhas já pode fazer a polinização com bolas de sabão. É esta a interpretação que se pode subtrair de um estudo publicado na revista IScience pela equipa do cientista japonês Eijiro Miyako, do Instituto Avançado de Ciências e Tecnologia do Japão. Após várias tentativas, conseguiu demonstrar que as bolas de sabão podem ser usadas no transporte de pólen até às plantas e assim abrir um caminho alternativo que ajude a mitigar o progressivo desaparecimento de populações de abelhas selvagens ocidentais (Apis mellifera) e de abelhas orientais (Apis cerana), e de outros insectos polinizadores.

“Numerosas espécies já estão extintas ou ameaçadas de extinção”, alerta a Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre Biodiversidade e Ecossistema Serviços (IPBES), órgão intergovernamental independente com sede em Bona, na Alemanha.

O impacto deste fenómeno à escala mundial reveste-se de enorme gravidade. É um dado adquirido que, globalmente, mais de três quartos dos principais tipos de culturas alimentares dependem, em certa medida, de polinização efectuada sobretudo por insectos. Só na União Europeia em 2016, o peso económico das actividades dependentes da transferência de pólen com auxílio de seres vivos “ascende aos quase 15 mil milhões de euros”. Estima-se que em 2015 entre “5 a 8% da produção agrícola global, com um valor de mercado anual de 235 a 577 mil milhões de dólares [199 a 488 mil milhões de euros], são directamente atribuíveis à polinização animal”, assinala a IPBES.

No relatório de avaliação que elaborou sobre polinizadores, polinização e produção de alimentos apresentado em 2016, aquele organismo destacou, como exemplo, a importância da apicultura na subsistência para muitas economias rurais no mundo em desenvolvimento. Estão contabilizadas, em todo o mundo, cerca de 81 milhões de colmeias que anualmente produzem cerca de 1,6 milhões de toneladas de mel e 65.000 toneladas de cera.

“Quase 90% das espécies de plantas com flores silvestres dependem, pelo menos em parte, da transferência de pólen por animais. Essas plantas são essenciais para o funcionamento contínuo dos ecossistemas, pois fornecem alimentos, formam habitats e fornecem outros recursos para uma ampla gama de outras espécies”, destaca a IPBES.

Além das abelhas, espécies de moscas, borboletas, mariposas, vespas, besouros, aves, morcegos e outros vertebrados que estão a ser dizimados por pesticidas e pelos efeitos provocados pela limpeza e desinfecção das terras e as mudanças climáticas.

Em síntese: com o declínio no número de insectos polinizadores, parece ter chegado a hora do processo biológico ser substituído por meios artificiais na transferência dos grãos de pólen para as plantas. A polinização manual com cotonete ou com pincel tem-se revelado um método eficaz, a que os seres humanos recorrem há séculos. Mas nos actuais modelos agrícolas intensificados, a aplicação manual de grãos de pólen directamente nas flores revela-se impraticável pelos custos que implica em mão-de-obra e aquisição de pólen. O recurso a métodos de polinização mecanizados, como sopradores de pólen, espanadores e distribuidores em spray, acabou por se tornar proibitivo devido ao grande desperdício e custo dos grãos de pólen.

 Mais recentemente surgiu a polinização robótica das culturas com métodos de intervenção que atraíram as atenções dos investigadores por causa de seu desempenho vantajoso em termos de identificação e selecção de flores, capacidade para se operar autonomamente e a possibilidade de se poder recorrer a estratégias biomiméticas.

 A utilização de drones tornou funcional a experiência que a equipa do japonês Eijiro Miyako apresentou em Junho, baseada na utilização de bolas de sabão quimicamente adoptadas para a eficaz distribuição de grãos de pólen para as flores a que se destinam, “graças à sua viscosidade, maciez, alta flexibilidade e aumento da actividade reprodutora”, descreve o investigador japonês no estudo publicado na IScience.

Eijiro Miyako conta que a ideia das bolas de sabão lhe surgiu quanto brincava com seu filho de três anos num parque de diversões. Comprou-lhe um brinquedo de fazer bolas de sabão e, quando uma bateu na testa do filho, teve uma epifania: poderia ser uma maneira de distribuir o pólen às flores. Depois aconteceu a descoberta de que os grãos de pólen naturais podem ser facilmente incorporados na película de sabão.

Foto
Ilustração artística de bolas de sabão a fazer polinização Eijiro Miyako

Mas faltava superar um obstáculo. O fluído criado pelas hélices do drone afectava a consistência das cerca de 2000 bolas de sabão lançadas de uma altura de dois metros das plantas a polinizar por um pequeno equipamento que as produzia. Foi necessária a sua estabilização recorrendo a uma solução que tem como base a hidroxipropilcelulose para garantir que chegassem às flores, mantendo a sua estrutura original com um diâmetro de aproximadamente de dois centímetros. O cientista japonês garante que a polinização robótica garantiu “95% de sucesso”, na produção de uma variedade japonesa de pêras (Pyrus pyrifolia var. culta).

Aparentemente, os resultados obtidos demonstraram que a polinização através de bolas de sabão é eficaz: “Parece uma fantasia, mas as bolhas de sabão funcionais permitem uma polinização eficaz e assegura que a qualidade dos frutos é a mesma do que a polinização convencional à mão”, conclui Eijiro Miyako, citado em comunicado sobre o trabalho, alimentando uma expectativa: “Acredito nas tecnologias inovadoras, essenciais para o desenvolvimento de polinização robótica de precisão autónoma em grande escala” para substituir os processos biológicos.