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Ensaio

D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil), o meteoro

Depois do “Fico”, D. Pedro outorga ao Brasil a Carta Constitucional, redigida por si e pelos seus colaboradores mais próximos, que vigoraria até à proclamação da República, em 1889.

Os monarcas da Casa de Bragança, que detiveram a coroa de Portugal durante 270 anos (1640-1910) e a do Brasil por 74 (1815-1889), não passaram a ser conhecidos e respeitados pela sua capacidade de assumir decisões rápidas, pela sua coragem em momentos decisivos, pela agilidade e argúcia de um pensamento clarividente, pela sua intrepidez face ao perigo iminente. Pelo contrário. De entre todos eles há, porém, uma claríssima exceção: Pedro de Alcântara, que deixou uma marca indelével em dois continentes, que se tornou uma espécie de meteoro governativo, em várias frentes, que marcou para sempre uma época já em evolução incontornável, desde as revoluções americana (1775-1783) e francesa (1789-1799). A história consagrou-o como Pedro I do Brasil e IV de Portugal conferindo-lhe o cognome de Rei Soldado. Ele percebeu, desde cedo, que possuía suficiente poder para liderar, usou-o, por vezes, contra ventos e marés, expôs-se conscientemente aos maiores perigos, correu risco de vida como qualquer soldado que acredita na justeza da sua causa e se bate pela honra da família e do cargo ocupado. Por tais razões, que tentaremos sugerir, ele distinguiu-se e distanciou-se da imagem global que a história acabaria por consagrar sobre a dinastia dos Braganças: hesitantes, acomodados, lentos a decidir. Hiperativo, rápido a decidir (às vezes até precipitado), corajoso, ágil, frugal, cavaleiro destemido (o historiador brasileiro Pedro Calmon apelidou-o, mesmo, de “Rei Cavaleiro”), sentimental e romântico, pai extremoso e interventivo, roçando por vezes, também, a frieza sentimental, débil fisicamente, (magro e epilético), mas fortíssimo nas suas convicções e na prossecução dos valores em que acreditava, tornar-se-ia vencedor e um vingador de todos os que o olhavam como um jovem imaturo e inconsequente. Provou-o, quando proclamou o “Fico”, em 22 de janeiro de 1822, desobedecendo às Cortes, que o intimavam a regressar à Europa, tentando, assim, reduzir o Brasil à sua antiga condição de colónia. O liberalismo português, cuja afirmação pública e universal se iniciou com a revolução do Porto, em 24 de agosto de 1820, deve-lhe, a partir de determinado momento, a liderança do movimento que culminou com o triunfo da sua implantação definitiva, a partir de 24 de julho de 1834, pouco antes da sua morte prematura, aos 35 anos, após uma cruenta guerra civil, iniciada em 1832, contra seu irmão D. Miguel e seus sequazes.