Do tabu à desmistificação: a saúde mental na ficção televisiva

A televisão e o cinema estão cada vez mais atentos aos problemas da saúde mental e ao seu impacto nos mais jovens, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Psicólogas defendem acompanhamento e mais literacia sobre o assunto.

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“A ficção pode ser fundamental no confronto com doenças escondidas”, porque cria "mecanismos de identificação” e permite “perceber que os problemas são ultrapassáveis” Luis Psihoyos / REUTERS

Tem estado na ordem do dia. Cada vez mais se fala nela, apesar de ainda ser tabu para muitos. A saúde mental, “tão ou mais importante do que a física”, alerta a psicóloga Wiebke Ehmke, tem sido tema de séries de televisão e filmes, numa tentativa de “desmistificar” velhas ideias e estereótipos que prevaleceram nos media durante anos. O PÚBLICO falou com três psicólogas e dois argumentistas sobre a forma como a ficção audiovisual impacta os mais jovens, ao abordar questões relacionados com a saúde mental. 

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Tem estado na ordem do dia. Cada vez mais se fala nela, apesar de ainda ser tabu para muitos. A saúde mental, “tão ou mais importante do que a física”, alerta a psicóloga Wiebke Ehmke, tem sido tema de séries de televisão e filmes, numa tentativa de “desmistificar” velhas ideias e estereótipos que prevaleceram nos media durante anos. O PÚBLICO falou com três psicólogas e dois argumentistas sobre a forma como a ficção audiovisual impacta os mais jovens, ao abordar questões relacionados com a saúde mental. 

Depois da polémica série da Netflix Thirteen Reasons Why ter sido alvo de críticas, e da própria plataforma ter lançado, na sua página de Instagram, a série Wanna Talk About It?, são cada vez mais as séries que abordam a saúde mental sob uma nova luz, apelando aos mais jovens para que o tema não seja esquecido. BoJack Horseman, Crazy Ex-Girlfriend, Jessica Jones, Homeland, Fleabag, This is Us, Euphoria, I May Destroy You são alguns exemplos que foram além do esperado, retratando a saúde mental de personagens problemáticas.

“Eu diria que não há uma relação directa entre os media e o comportamento dos mais jovens”, começa por dizer Catarina Ribeiro, professora auxiliar da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica no Porto. “Há um número muito abrangente de factores que influenciam o comportamento dos adolescentes”, motivo pelo qual, de acordo com a psicóloga, não será “prudente demonizar um elemento, um programa ou uma série”. Mas “aquilo que é o principal factor de risco é a falta de acompanhamento por parte dos pais e professores”, acrescenta.

Conhecer as realidades

Wiebke Ehmke, apesar de considerar que, de facto, os media “têm uma influência muito grande nos jovens” que acabam por “partilhar frases e personagens nas redes sociais”, subscreve a ideia de que é preciso reforçar o “acompanhamento” e trazer o tema da saúde mental para a discussão pública. “Quanto mais informados estamos, mais armas temos”, afirma.

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A psicóloga Wiebke Ehmke diz que "passámos de séries que retratavam as perturbações mentais de uma forma mais romantizada para outras que dão visibilidade ao tema de uma forma consciente” dr

Neste ponto, Catarina Ribeiro explica que, por exemplo, o clássico O Rei Leão é “altamente violento do ponto de vista emocional” e que “qualquer estímulo, qualquer filme, qualquer livro, no indivíduo emocionalmente exigente pode ter um efeito negativo, sobretudo (acima de tudo) se a pessoa não tiver acompanhamento”. Mas, para além disto, as duas psicólogas reconhecem que argumentistas e realizadores têm de se munir de ferramentas para realmente explorarem temas relacionados com a saúde mental.

“Há aqui uma questão importante: mais do que censurar, as pessoas que fazem séries, filmes, têm de ter literacia em saúde mental e doença mental, as pessoas têm de estar bem assessoradas, é importante que os jovens conheçam as realidades, é importante que essas realidades sejam expostas”, sublinha Catarina Ribeiro, que assistiu à série Thirteen Reasons Why, comentando que “havia muitos episódios que podiam ter sido altamente pedagógicos”. Raquel Matos, professora associada de Psicologia e Directora do Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano da Universidade Católica, defende que muitas vezes a psicologia é abordada de forma “sensacionalista” pelos media, o que contribui para a “perpetuação de estereótipos” e até para a “normalização da violência”.

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Doenças escondidas

Tiago R. Santos, argumentista conhecido por filmes como Os Gatos Não Têm Vertigens, Amor Impossível e, mais recentemente, a série O Mundo Não Acaba Assim, defende que, de facto, “a ficção pode ser fundamental no confronto com doenças escondidas”, permitindo ao espectador “criar mecanismos de identificação” e “perceber que os problemas são ultrapassáveis”. Porém, em Portugal, a exploração destas temáticas é ainda parca: “Estamos muito longe porque só temos quatro canais”, explica, comparando a televisão nacional com a produção que tem vindo a surgir nas plataformas de streaming: “Há séries que têm uma honestidade que não seria capaz de ser replicada cá”. Tiago ressalva ainda que tem havido, cada vez mais, “uma procura pela verosimilhança”. 

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Para Catarina Ribeiro "as pessoas que fazem séries e filmes têm de ter literacia em saúde mental e doença mental" dr

Cláudia Lucas Chéu, argumentista de telenovelas como Dancin’ Days, Mulheres Assim e Rainha das Flores, concorda com a ideia de que há uma “romantização” de perturbações mentais na ficção audiovisual. “É importante desmistificar, construir algo que não seja demasiado cool, nem demasiado bizarro, para trazer este tema à superfície”, comenta, salientando que estes temas têm de ser retratados “com delicadeza”. A argumentista aponta ainda para “uma estratégia de tentar minimizar a carga” das perturbações mentais, recorrendo ao humor, como acontece na série da Netflix After Life de Ricky Gervais. Como contraponto, refere-se ao filme The Wolf Hour, realizado por Alistair Banks Griffin, que retrata a depressão de uma forma “nada atraente”. Já o filme Girl, Interrupted de James Mangold consegue, na sua opinião, um “meio-termo”. 

Quanto à questão de uma maior “literacia” por parte dos criadores de conteúdos televisivos ou cinematográficos, Raquel Matos argumenta que é necessária alguma “consultoria”. Tal como argumentistas e realizadores já recorrem a especialistas em áreas como a “química forense” para “não cometerem gafes nas questões mais técnicas”, o mesmo deveria ser feito em relação à psicologia. Na opinião de Tiago R. Santos, “a ficção é boa para a empatia, não tem de dar lições de psicologia”, acrescentando que, “para construir uma personagem”, há todo um trabalho de pesquisa e a realização de um “perfil psicológico”. Cláudia Lucas Chéu reconhece que seria importante ter essa “consultoria”, mas afigura-se-lhe “impraticável em termos de agenda”. 

Ainda assim, as três psicólogas e os dois argumentistas concluem que tem havido um avanço significativo na construção de conteúdos relacionados com a saúde mental. “Passámos de algumas séries que retratavam as perturbações mentais de uma forma mais romantizada para outras que dão visibilidade ao tema de uma forma consciente”, explicita Wiebke Ehmke, referindo-se a Fleabag, série disponível na Amazon Prime que arrecadou vários prémios (entre eles um Emmy de Comédia do Ano), tendo a sua protagonista e criadora, Phoebe Waller-Bridge, sido premiada com três Emmys. Já Catarina Ribeiro aponta a série israelita BeTipul, que aborda a questão da “psicoterapia”, como um bom exemplo de representação das perturbações mentais, assim como filmes já conhecidos do público como A Beautiful Mind do realizador Ron Howard, que versa sobre a questão da esquizofrenia, e Still Alice dos realizadores Richard Glatzer e Wash Westmoreland, sobre a doença de Alzheimer.

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Raquel Matos defende que a psicologia é abordada de forma “sensacionalista” pelos media, contribuindo para a “perpetuação de estereótipos” e até para a “normalização da violência”. dr

O mais importante, no fundo, é suscitar o debate, reforçar “a informação” e a “supervisão” para os mais jovens, como preconizado por Catarina Ribeiro, e apresentar “estratégias de coping”, diz Wiebke Ehmke, especialmente em casos de filmes polémicos, como Joker de Todd Phillips, que levantou grandes discussões em torno da saúde mental, e que, na perspectiva de Catarina Ribeiro, só poderá ser entendido se se “capacitar a comunidade a estar sensível ao tema”. 

Texto editado por Maria Paula Barreiros