Pede-se Dignidade, Vossa Majestade

Aos olhos dos cidadãos comuns, e também segundo padrões normais de experiência da vida, este comportamento é auto incriminatório. De que foge Juan Carlos? De alguma perseguição física, como aconteceu a muitos dos seus antepassados? Estarão os seus direitos de cidadão ameaçados? Segundo que critérios é admissível um “exílio”? Porque não se defende Juan Carlos?

O Rei emérito de Espanha, Juan Carlos de Borbón y Borbón, é um ser humano. Como tal, tem qualidades e defeitos, forças e fraquezas, e é naturalmente vulnerável não só às leis da natureza, como aos sentimentos da alma. De carne e osso, suscetível ao prazer como à dor! Mas o Rei emérito de Espanha não é uma pessoa comum. Nascido primogénito numa Família reinante, com legítimas aspirações a ascender ao trono, Juan Carlos desde muito cedo foi longamente preparado para exercer as mais altas responsabilidades públicas. Aos dez anos foi retirado da sua Família e educado em Espanha para vir a ser chefe de Estado vitalício (como é regra numa monarquia). Por certo, para além da educação formal que recebeu, pôde beneficiar de inúmeros testemunhos de pessoas próximas sobre as vicissitudes da vida dos dirigentes políticos, em especial dos pertencentes a Casas proeminentes, como a sua. Seguramente teve oportunidade para olhar para a história rica da sua Família, cheia de momentos de glória mas também de provação, e de refletir sobre os riscos da sua condição. Juan Carlos não é uma pessoa comum que os acasos da vida tenham alcandorado a uma posição de destaque e poder. Pertence a uma linhagem com história e sabia estar condenado a um reinado provavelmente longo, como de facto aconteceu. Juan Carlos, sendo uma pessoa humana, é muito mais. É um símbolo, uma referência para toda uma comunidade e, por certo, tem plena consciência de que assim é. Por isso, os seus atos não podem ser apreciados exatamente como se fosse uma simples pessoa comum.

Após um longo período de tirocínio, envolto em algumas dúvidas quanto à ascensão efetiva ao trono, Juan Carlos tornou-se Rei de Espanha no já longínquo ano de 1975, na plenitude das suas capacidades, como provou a seguir. No período franquista foi uma personagem apagada (porventura intencionalmente apagada), de tal forma que não seria fácil na altura prognosticar-lhe um futuro auspicioso. Santiago Carrillo crismou-o de “Juan Carlos, o Breve”. A verdade é que foi a figura central da chamada Transição espanhola, processo político da maior complexidade que assegurou a passagem do regime autoritário e absolutista de Franco (na Espanha de 1975 ainda se fazia publicamente a saudação fascista, sem nenhum problema) para uma democracia ocidental, liberal e representativa. Estão hoje perfeitamente documentadas as ações que o Rei levou a cabo ou inspirou diretamente para orientar um processo num país dilacerado por difíceis bloqueios, desde as memórias da Guerra Civil e suas consequências (ainda hoje não resolvidas) até aos separatismos seculares, alguns apoiados em movimentos terroristas conhecidos e extremamente ativos.

Do ponto de vista de Juan Carlos, arriscaria a dizer que a sua Transição vai desde a sua investidura como sucessor de Franco até ao 23F, ocorrido em 1981, em que a posição irredutível do Rei fez gorar definitivamente qualquer possibilidade de regresso ao passado. É verdade que ao longo de todo o processo revelou enorme “versatilidade”, desde jurar fidelidade ao Movimiento até presidir à sua dissolução, desde inspirar confiança às Forças Armadas ultra conservadoras até manter contactos clandestinos com o Partido Comunista, utilizando e descartando vários políticos de destaque, como, por exemplo,  Torcuato Fernández Miranda ou Adolfo Suarez. Mas as necessidades da política o terão exigido e não é legítimo fazer juízos retrospetivos com critérios diferentes dos que se aceitavam à época.

A verdade é que a sua atuação mereceu um consenso generalizado e inequivocamente assegurou o sucesso de um processo político extremamente delicado. Juan Carlos foi então um garante de estabilidade e de prestígio do Estado junto dos seus cidadãos, ao ponto de a adesão de grande parte dos espanhóis à monarquia se ter ficado a dever mais à personagem do Rei do que à instituição propriamente dita. São desses tempos as afirmações de alguns que não se diziam monárquicos mas “juancarlistas”. Tudo isto só realça a relevância que o Rei assumiu neste delicadíssimo processo político e ainda o seu reconhecimento pelo povo espanhol. O Rei tornou-se uma referência incontornável. E convém dizer que esta descrição genérica não evidencia a miríade de atos políticos que o Rei seguramente praticou ou inspirou em todo este tempo.

O Rei tinha tudo contra ele. A começar por uma inicial desconfiança de quase todos os agentes políticos e sindicais, nacionais e regionais. A continuar pelo explodir de pretensões antagónicas de diversas forças políticas, algumas bem pouco moderadas, tanto à direita como à esquerda, bem como pela manifestação de diversas ameaças internas e externas. Em todo este processo, foi necessário praticar inúmero atos, à frente e atrás das cortinas, procurar aliados credíveis e manter o rumo até ao objetivo final, em comunhão com a maioria do povo espanhol. O seu culminar estará na manifestação de coragem e de força que foi a sua resoluta intervenção no 23F. A meu ver, a Espanha tem uma dívida de reconhecimento para com Juan Carlos que nenhum erro seguinte poderá apagar.

Alicerçado no prestígio duramente construído no período da Transição, o reinado de Juan Carlos parecia destinado à tranquilidade. E a verdade é que, durante muitos anos, a Família Real espanhola apresentou-se como modelar. Tanto internamente como externamente. É verdade que o Rei esteve bem acompanhado em especial pela figura respeitadíssima da Rainha Sofia, mas também por príncipes e princesas retirados de contos de fadas. O Rei continuou a ser uma referência de unidade de Espanha e um fator de indiscutível prestígio no exterior. O zénite deste ambiente estará no celebérrimo “por qué no te callas?” de 2007.

Sabemos que os últimos anos do seu reinado foram ensombrados por episódios muito menos edificantes que o levaram à abdicação. A História recordá-lo-á como Juan Carlos I, nome por si escolhido na entronização.

Todavia, parece que ao lado deste Juan Carlos I, havia um Juan Carlos II. Não falo das propaladas aventuras amorosas, que, com a possível exceção de uma, não terão tido consequências políticas. Não falo do escândalo protagonizado pelo seu genro Iñaki, em que ninguém conseguiu demonstrar envolvimento do Rei ou da Casa Real. Falo sim das suspeitas, carregadas de verosimilhança, de negócios clandestinos que terão beneficiado o Rei e aumentado desmesuradamente o seu património.

Convém notar que estamos perante suspeitas, porventura insinuações, imputações ainda não provadas. E, principalmente, não apreciadas por qualquer tribunal. Não há sequer constituição de arguido, muito menos acusação pública e muito menos ainda julgamento. Estamos por isso no domínio mediático das afirmações ainda não demonstradas, pelo menos publicamente. Mas neste cenário, neste exato cenário, o que vemos? O Rei Filipe VI corta-lhe a subvenção do Estado e renuncia à sua herança (mesmo não o podendo fazer validamente, do ponto de vista jurídico). O Rei emérito sai de Espanha, sem que se conheça o paradeiro, para não atrapalhar o Rei em exercício, como se tal fosse possível. Não há, que se saiba, uma declaração do Rei (ou de alguém por ele devidamente mandatado) que contrarie as acusações feitas nem preste quaisquer esclarecimentos ou proteste prestar todos os esclarecimentos devidos à reposição da sua reputação. Nada, absolutamente nada, a não ser o abandono e a fuga!

Aos olhos dos cidadãos comuns, e também segundo padrões normais de experiência da vida, este comportamento é auto incriminatório. De que foge Juan Carlos II? De alguma perseguição física, como aconteceu a muitos dos seus antepassados? Estarão os seus direitos de cidadão ameaçados? Segundo que critérios é admissível um “exílio”? Porque não se defende Juan Carlos II?

Não está em causa saber se é ou não possível julgar o Rei. O Rei emérito está já a ser julgado na opinião pública, em especial pelo seu povo, pelo povo que o idolatrou e por quem ele fez inúmeros sacrifícios. E perante este quadro ele adotou a atitude que mais o poderá comprometer, a fuga, sem qualquer explicação, como faria qualquer marginal com meios.

Dir-se-ia que à figura luminosa de Juan Carlos I sucedeu a personagem esconsa de Juan Carlos II, cuja atuação pública parece ser diametralmente oposta.

E, no entanto, Juan Carlos II deve a Juan Carlos I uma atitude muito diferente. Porque não se mantém ele fiel aos valores que tão bem encarnou? Porque não assume com dignidade a situação em que se deixou envolver? Porque não enfrenta a História a que já fez jus pertencer? Por muitos erros que tenha praticado, o erro maior e final será não ter coragem para assumir os que tenha cometido, com dignidade, coragem e galhardia.

Dir-se-á que é demasiado penoso pedir este último sacrifício a uma pessoa de 82 anos e claramente debilitada. Dir-se-á que é injusto a quem tão relevantes serviços prestou ao seu povo. Mas Juan Carlos não é uma pessoa comum, como acima se afirmou. Juan Carlos conhece bem o terreno que pisa e deveria saber que a fuga é e será sempre a mais perigosa das soluções. Juan Carlos conhece as exigências da sua existência real e os sacrifícios que ela demanda. A memória de Juan Carlos I exige que Juan Carlos II se mostre digno dela e que, se assim for necessário, saiba cair de pé, no terreno da batalha da sua reputação e da sua Família e não no conforto de um qualquer condomínio privado. Qualquer outro comportamento arrastá-lo-á a ele mas também à sua Família e à instituição que serve.

Não tenho dúvidas que Juan Carlos I exigiria este sacrifício a Juan Carlos II.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico