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Rir para não chorar

Vir para Portugal foi a única chance para muitos de nós conseguirmos um emprego digno, uma educação de qualidade ou segurança. Direitos básicos.

“Não sei se estou depressiva ou se apenas sou brasileira.” Essa frase, que virou legenda de meme, fez-me rir, mas também chorar. Acredito que isso é natural do brasileiro, dar risada da própria desgraça, mas ultimamente esse riso parece estar a virar sintoma de loucura.

Mais de três milhões de casos confirmados e mais de 100 mil mortes por causa da covid-19, crise hídrica na região Sul, troca incessável de ministros no Governo federal, mais crianças negras, como João Pedro, morrendo no meio de conflitos nas favelas. Onde está a piada? Talvez seja riso de desespero.

Num país em que incontáveis vezes o povo foi deixado para resolver as coisas por si, rir da situação é ter noção do problema, mas também saber que: se parar para pensar nele, surta. Não podemos pedir para as pessoas protestarem em locais públicos no meio de uma pandemia que vem de mãos dadas com uma crise financeira. Quem não perdeu o emprego está esgotado fisicamente. E quem ficou desempregado tem de ficar em casa por causa dos grandes riscos de contaminação, além de estar com psicologicamente definhado.

É angustiante ser contra todas estas coisas e não conseguir protestar com as proporções de 2013. Não digo apenas para os brasileiros que estão lá a passar por tudo isso, mas também para nós, que estamos longe. Ver de longe como sofrem os nossos ente queridos e nossa terra também dói, e muito. Também me deprime ver as injustiças com os meus conterrâneos deste lado do oceano. Inúmeros conhecidos que estão a fazer a licenciatura e o mestrado aqui em Portugal tiveram aumentos no valor das propinas inesperadamente.

O sustento da maioria vem do Brasil, muitos dos quais os pais perderam o emprego. Têm de lidar com o aperto financeiro, mas também com a ansiedade de estar só e longe dos familiares, que correm grandes riscos de ficarem doentes de covid-19. É sufocante, não engraçado. Não bastasse a pandemia, a crise financeira no país e a displicência das organizações, parece que muitas vezes nem a pessoa sentada ao nosso lado, nossa amiga, consegue ter empatia connosco.

O comentário preconceituoso de Sónia Jesus no Big Brother foi apenas um exemplo de inúmeras frases que ouvimos. Se reclamarmos, vem logo alguém dizer que se não estamos felizes, devemos voltar para a nossa terra. Lá também não está bom. Vir para Portugal foi a única chance para muitos de nós conseguirmos um emprego digno, uma educação de qualidade ou segurança. Direitos básicos.

Talvez no final das contas não seja loucura dar risada da própria desgraça, mas um jeito de deixá-la menos pesada. A tristeza não deixa de ser senhora, mas a esperança que a vida vai melhorar é nossa fé, e ela não costuma falhar.

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